Big Sur e a maldição de On The Road

“A sabedoria é só um outro jeito de fazer com que as pessoas adoeçam.” – Jack Kerouac

Passaram-se somente algumas horas desde que terminei de ler o livro “Big Sur” de Jack Kerouac. Confesso fiquei muito surpreso com o foco da narrativa, é inteiramente inesperado em relação aos outros livros do “Rei dos Beats” e me vejo na obrigação de comentar algo. O livro é extremamente triste, denso, depressivo, não posso não resenhá-lo. Me pergunto: afinal, para que serve a merda de uma resenha? Para expor as obras a possíveis compradores? Parte externa do complexo editorial? Se for assim, os autores de resenhas são os responsáveis por colocar tantas obras geniais debaixo do tapete, por relegá-las ao esquecimento, como é o caso de Big Sur. Hoje em dia não é tanto assim, porém há 50 anos atrás uma tropa de críticos literários composta dos principais jornais de um país é que definiam aquilo que seria lido ou não. Big Sur só não é completamente esquecido porque é uma obra do Kerouac, e tudo do Kerouac vende como água até hoje, mas é um livro subestimado literariamente justamente por isso, as pessoas dizem: “ah, essa merda só foi publicada porque é do Kerouac”. O livro “Tristessa” sofre um processo similar. Mas porque isso?

Quando ouvimos o nome de Jack Kerouac nos vem a cabeça o livro “On The Road”, considerada sua obra-prima. Em On The Road acompanhamos Sal Paradise e Dean Moriaty (Kerouac e Neal Cassady) viajando os EUA de costa a costa por diversas vezes discutindo literatura e filosofia, tendo visões xamãnicas no deserto mexicano, misturando budismo e cristianismo numa síntese que pela primeira vez expõe os segredos do oriente, experimentando drogas (mescalina, heroína, ayahuasca, metanfetamina), fodendo diversas garotas em grupo, fazendo um monte de coisas non-sense, enfim, aproveitando cada instante da vida de uma forma intensa que era o oposto do padrão pretensamente puritano de vida americana na época. Era um Jack Kerouac jovem, pobre e fodido tentando sobreviver como escritor da maneira mais feliz possível em meio a toda aquela rigidez estadunidense do pós-Segunda Guerra Mundial e atolado nas merdas adversas do destino. A narrativa é fluída, como um quadro se descortinando em cores quentes diante dos nossos olhos, ou uma composição de blues recém improvisada na boca de um negro dos inícios dos anos 30. On The Road é uma ode à vida! É um tipo de livro que só pode ser escrito quando se é jovem (mas que pode ser livro por todas as idades sem qualquer sentimento de culpa). Mas lembremos que On The Road sofreu uma série de censuras, correções e modificações substanciais por parte da editora, o que o tornou de fato entre todos os livros de Kerouac no mais reacionário em termos de estética (mesmo que seja lembrado pela história como o “mais revolucionário da literatura americana moderna”).

tritessa jack  kerouac

Em Tristessa e Big Sur temos uma outra faceta desse cara iluminado e sábio que elevou os Beats ao grupo de escritores de ponta da sociedade americana com On The Road. Em Tristessa Kerouac é um viciado em morfina e heroína vagando feito um zumbi pelo México na companhia (e tolamente apaixonado por) uma prostituta local, em meio a picos de drogas ele tem visões sagradas sobre as pessoas nas ruas, conversa com o gato, se vê perdidamente fora de si e compreende que na verdade não há nada fora do “eu”. Tristessa tem um fluxo narrativo levado mais a sério que On The Road, com frases que são cortadas pela metade pra dar vida a uma outra frase que surgiu na cabeça do autor no momento e ele quis colocar, é uma loucura pura. No entanto vou falar aqui mais de Big Sur, que pelo que pude entender é o penúltimo livro de Kerouac, mas o que encerraria quase de vez aquilo que ele denominou de “Saga de Dulouz” (que seria todos os livros dele colocado em ordem cronológica dos fatos e não de publicação).

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Em Big Sur temos um Kerouac decadente, velho e bêbado, angustiado pela sua fama. Jovens invadem constantemente a casa da sua mãe (onde ele mora) em sua procura, imaginando que ele ainda é o mesmo personagem de On The Road com 25 anos e rigor físico para delírios, quando ele na verdade já não tem mais tanta perspectiva, tanta paciência, em suma, não tem mais a ingenuidade da juventude. Para lidar com as desgraças advindas da fama ele se atola em bebidas, gasta muito dinheiro com produtos quase inúteis que só vai usar por um dia como ternos e calças para aparecer em programas de televisão, paga bebidas e jantares para desconhecidos, etc. Kerouac também passa a ficar paranóico, imaginando que as pessoas só estão a sua volta para tirar uma lasquinha do seu sucesso, pois estão o tempo todo lhe lendo poemas, pedindo para que ele aprovasse seus textos, etc. Enfim, o sucesso de On The Road o atormenta mais do que o faz bem, o Jack Kerouac real tem que escapar do assédio dos leitores que o consideram o homem mais iluminado do mundo todo dia, são pessoas lançando em cima dele suas esperanças em dias melhores, fugindo de suas responsabilidades e cultuando sua figura, o que apenas torna Kerouac mais e mais angustiado. Pensando em fugir disso tudo ele resolve passar umas semanas isolado numa cabana na região oceânica de Big Sur.

Kerouac já não é mais aquele jovem esperançoso, se antes lutava com as palavras para poder sobreviver financeiramente como escritor, agora se pergunta qual a finalidade de escrever já que palavras não são nada, a escrita se tornou uma prisão, uma maldição e ele passa a lutar CONTRA elas. Nesse ponto de desilusão com as palavras, ele tem certa similaridade com conclusões que levaram o poeta brasileiro Torquato Neto a se suicidar em 1972. Essa depressão fica clara nos trechos abaixo retirados de Big Sur:

“Você passou o verão inteiro aqui escrevendo os supostos sons das ondas sem perceber a seriedade mortal da sua vida e do seu destino, você é um idiota, um garotinho deslumbrado com um lápis, não tá vendo que você vem usando as palavras como se elas fossem uma brincadeira alegre[….] Que merda, estou de saco cheio da vida – Se eu tivesse um mínimo de coragem eu me afogaria naquelas águas cansadas mas não adiantaria nada, eu vejo os grandes planos e transformações virando gosma lá no fundo para nos atormentar com algum outro sofrimento miserável.”

“Mas você não vê que tudo isso se transformou em um monte de palavras vazias, agora eu percebo que eu vinha brincando como uma criança alegre com palavras palavras palavras em uma grande tragédia séria, olha ao teu redor!”

A fama foi destrutiva para Kerouac, se antes era alcoólatra se tornou um desregrado embebedado paranóico permanente. Diante de sua impotência frente aos problemas do mundo, ele só bebia e criava conspirações cósmicas de arcanjos e demônios que imaginava estarem tramando para prová-lo que viver é sofrer e por isso sua vida era horrível. Do outro lado da paranóia, as pessoas lançavam todas as esperanças numa coisa que ele não era, talvez nunca tenha sido!

“O rei dos beats”, era coisa do passado para Kerouac e as pessoas queriam obrigá-lo a ser aquilo o tempo todo. Sempre queriam conhecê-lo porque era o grande escritor americano doidão, e mesmo quando ele não queria receber ninguém as pessoas arrombavam portas e quebravam coisas para encontrá-lo. “O que ontem era belo e puro se transformou por motivos irracionais e inexplicáveis em um lúgubre tonel de merda.” Em outro trecho do livro, um amigo seu lhe diz algo como “você dizia que era o escritor mais genial do mundo” e ele responde “ai eu acordei e agora eu sei que não presto pra nada e assim me sinto livre”.

Big Sur não agradou as pessoas talvez porque não seja uma visão bem otimista das coisas. Um bêbado, paranóico, depressivo, velho, que vê tudo morrer a sua volta sem qualquer esperança de que as coisas vão melhorar, este é um resumo do livro. Morre seu gato, uma lontra, um rato, um peixe, etc. durante a narrativa, e por cada morte que presencia, Kerouac se culpa, as coisas só morrem por que existem e só existem porque ele existe já que tudo está conectado, ele é a causa de toda a dor e mesmo assim as pessoas insistem em olhá-lo como se fosse um santo iluminado. A palavra idiota para se referir a si mesmo é usada inumeráveis vezes, acho que a cada 5 páginas ela aparece! É um livro que vale muito a pena se ler, principalmente depois de da leitura de On The Road e Vagabundos Iluminados, é um contraponto ao otimismo dos dois, então ajuda a pensar nas próprias contradições que todos somos.

Big Sur é um painel sombrio sobre a geração Beat, longe do glamour e da sabedoria radiante. Se On The Road foi uma previsão xamãnica da sociedade hippie que se deflagraria nos anos 60, Big Sur foi uma previsão da ressaca cultural/social da onda hippie que só viria acontecer no final dos anos 70 com a geração punk/pós-punk. O que para mim deixa claro que Kerouac sempre esteve nas rédeas de seu tempo.

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Comentários

  • Alessio Esteves  On 10/09/2011 at 15:29

    Cara, “On the Road” e “Vagabundos Iluminados (o segundo mais que o primeiro) foram livros que me fizeram pirar. Isso somado à leitura de Bukowski na mesma época me fizeram jogar tudo pro alto e ter 1 vivido 1 ano da mnha vida como um beatnik.

    E entendo o saco cheio do autor. Até hoje vem gente me perguntar onde está o Alessio porra louca. É um pé no saco mesmo.

    “Big Sur” eu não li ainda, mas “Tristessa” é forte pacas. De você ler e ficar um pouco mal depois.

    E você leu “Satori em Paris”? Achei a leitura dele muito mais confusa que “Tristessa”.

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