Kokuhaku: Confissões

Há um tempo atrás se referiam à economia do Japão como “a bolha”, um período de relativa prosperidade e igualdade social aos custos de um certo temor pela instabilidade do mercado financeiro, onde as coisas funcionam bem sob uma linha tênue e frágil, embora a época da bolha tenha passado, eu acredito que a mesma não devia se referir apenas ao cenário econômico do Japão, mas também nos fundamentos da sociedade pós-bomba ocidentalizada, não é lá grande novidade, ta na Internet, as pessoas comentam “what the fuck japan?” se antes encarávamos problemas de diferenças culturais e tradução, hoje, aquilo que de tom muito ameno eu defino como estranheza, é construído sob os mesmos signos e convenções culturais da monocultura ocidental, a estranheza vai além da postura artística, irreverente ou até mesmo campy, esbarrando em um aspecto brutal e visceral, que ilustra as fragilidades e recalques dessa sociedade.

O blog Sankaku Complex, um verdadeiro antro de bizarrices orientais, costuma exibir notícias de episódios envolvendo abusos (físico, sexual e psicológico) de professores perante alunos, ijime – termo da língua nipônica para bullying, similar ao nosso iniquícia – e a constante tentativa de omissão por parte do órgão diretor e corpo docente de tais episódios, tudo com o intuito de não denegrir a imagem da escola, em muitos  dos casos que envolvem alunos, mesmo aqueles com intenção de dolo, a punição recai sob os pais e os educadores, para as crianças, a punição é branda, onde na maioria dos casos, ocorre um afastamento ou exercício de observação.

Não seria espantoso se isto acontecesse em paises onde o sistema de educação pública é deficiente, como o Brasil ou os Estados Unidos, mas no Japão, um dos mais renomados no mundo, nós percebemos uma certa fragilidade no alicerce educacional dessa sociedade, e como sempre, isto reflete na cultura Pop, como no excelente filme Kokuhaku.

Kokuhaku, de 2010, também conhecido no ocidente como “Confessions”, foi escrito e dirigido por Tetsuya Nakashima, é praticamente uma análise desse cenário educacional frágil e instável, sob a perspectiva de vários personagens da trama (ou melhor, “confissões”), a história começa com um impressionante – e cheio de aflições – monólogo da protagonista Yuko Moriguchi (interpretada pela atriz e cantora Takako Matsu), professora ginasial e viúva, que descobre que sua falecida filha pode não ter morrido de um acidente, mas sim de um assassinato ocorrido na própria escola onde trabalha.

E devo admitir, é uma verdadeira “lição de vida”, onde transparece não apenas os atos de iniquícia cometidos pelos alunos, mas a ingenuidade dupla de pais e educadores em tratar mesmo episódios extremos como “coisas de criança” ou a falta de tato maliciosa das crianças perante o próximo, e até mesmo a legislação japonesa e a miopia social por trás dela, do discurso de Moriguchi, nada escapa, nem as boy bands japonesas, é interessante perceber que Moriguchi não é uma personagem reacionária, mas sim amarga, descrente do próprio sistema que um dia jurou propagar, anunciado isto, Moriguchi tem início a sua vingança.

Sem percorrer por muitos spoilers, Kokuhaku não é um filme para os fracos de nervo, embora não existam cenas de violência gráfica explícita, tudo ali é metódico, a violência te atinge em outros níveis, como a ironia de alguns acontecimentos, no grito, no silêncio. Em sua essência, a temática central do filme é a vingança, e como tal, não podemos de deixar comparar com a “trilogia da vingança” de Park Chan-wook, onde temos em Oldboy, seu episódio mais famoso, porem, ao contrário de Park, Nakashima, em seu roteiro, tenta “humanizar” suas personagens a cada “confissão”, mostrando suas perspectivas e motivações, como o abandono, famílias desestruturadas, o início da sexualidade e até mesmo o complexo de Édipo.  Nakashima – de forma proposital – quase convence o cine-espectador que mesmo os culpados são dignos de pena, porem o twist é preciso em sua execução, lembrando que até mesmo o mais arrependido não é capaz de mudar sua natureza.

Assim como Oldboy, Kokuhaku também é estilizado, porém distanciando da escola Tarantinesca de Park Chan-wook, trata-se de um filme bonito, onde a tempestuosidade da trama contrasta com paisagens sublimes, de uma quietude preocupante, algumas cenas – e ângulos – sugerem preocupação artística da parte de Nakashima, o filme todo acompanha uma espécie de filtro azulado sob a película, sem contar a excessiva saturação de luz.

Existem paralelos entre o filme e o clássico Laranja Mecânica, de Anthony Burgess principalmente pela inevitabilidade da natureza violenta de suas personagens, mas também o próprio contexto social que torna este tipo de comportamento algo permissível, alias, existe até a ironia do próprio público, que interpreta mal a mensagem original da obra.

Filmes que retratam este “medo da juventude” têm sido cada vez mais recorrentes no cinema japonês, como os clássicos Battle Royale e Suicide Club, representam uma resposta cultural ao famoso “loop da montanha russa” argumentado por Sevcenko, onde mesmo que o trem do progresso não tenha descarrilhado, o loop do trajeto representa um instante de desordem, desarranjo e caos, onde nos força a lembrar o quão frágil são as bases do sistema que mantemos.

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Comentários

  • Raphael_Nynja  On 09/10/2011 at 21:31

    Confessions é um excelente filme! Na minha opinião, o melhor trabalho do diretor Tetsuya Nakashima. Uma história bem elaborada, e com um ótimo final. Ao menos as indústrias de filmes aqui no Brasil tinha que traze-lo, dublar e colocar nas locadoras.

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