A “História” sob fogo

Quando Paul Veyne disse que Heródoto não era mais falso em sua pesquisa do que Fustel de Coulanges, colocou a ciência histórica ocidental por inteira em maus lençóis. Quero dizer, um historiador do século V a. C., um dos que inauguraram o gênero histórico, com a razão ainda próxima do mito, é tão verídico quanto um historiador francês metódico do século XIX? Não era exatamente isso que Paul Veyne queria dizer, ele apenas estava corroborando a idéia em voga de que a história desde as suas origens até a sua versão mais cientificista possível não conseguia atingir a verdade em si. Além de que a história tem hoje seus próprios vícios que são ignorados pelo véu do presente, e que portanto não pode se gabar de ser “melhor” que a história feita no passado.

Dentro dos padrões da história a qual Heródoto se propunha fazer ele era tão preciso quanto Seignobos foi nos padrões positivistas de seu tempo. A história em cada época serviu a diferentes interesses e mesmo hoje serve a algo. Além das relações de poderes na escala macroscópica na qual serve aos estados ou empresas, existe um confronto dentro das instituições sobre qual é a história “melhor. A história é um campo extremamente segmentado em grupos de diversas correntes teóricas se digladiando intensamente o tempo inteiro.

Esses grupos seletos de historiadores são os guardiões que podem garantir ou negar o acesso ao passado. Sim, podem negar, pois embora todos possam ler e comentar sobre o passado, ninguém na sociedade lhe levará em conta como constituidor da realidade do passado se você não for historiador. É o efeito de programa de verdade a qual Paul Veyne nos revela e que Marc Ferro em “A história Vigiada” vai denunciar como malefício institucional para o próprio conhecimento do passado. Para Paul Veyne:

“A princípio, é uma sensação estranha, pensar que nada é verdadeiro nem falso, mas habituamo-nos rapidamente. E por boas razões: o valor da verdade é inútil, é sempre redundante. A verdade é o nome que damos às nossas opções, de que não queremos desfazer-nos; se nos desfizéssemos delas, considerá-las-iamos decididamente falsas, de tal modo que respeitamos a verdade; até os nazis a respeitavam, pois diziam que tinham razão, não diziam que estavam enganados.”

Poderíamos analisar este trecho de Paul Veyne erroneamente e proferir que não passa de retórica vazia, mas não é o caso. O que Paul Veyne enfatiza é a latente impossibilidade para o homem do presente de ver claramente aquilo no que está acreditando como falso, quando uma duvida surge a realidade da fantasia entra em cheque, se tornando imediatamente em uma falsa realidade. Em certo momento do livro Paul Veyne até afirma que o objetivo de seu livro é mostrar como a imaginação sempre esteve no poder em TODAS as civilizações.

A história é um campo de combate intelectual, não apenas por culpa dos historiadores e seus anseios pessoais, a própria sociedade os obriga a alguns silêncios. Mas os intelectuais também causam alguns silêncios na sociedade. É interessante notar que o que um acadêmico com titulações acumuladas na área de história escreve é “História” e o que alguém que viveu um fato histórico e decide narrá-lo em uma biografia, não passa de “Memórias”. Entendem o quanto do peso da vericidade explícita da narrativa é perdida com o nome “Memórias”? Se alguém de fora da área da história escreve um livro sobre o passado, a comunidade por inteira de historiadores trata de desqualificá-lo como “sem método” (acontece principalmente se esse alguém é jornalista), como se os próprios historiadores possuíssem um… O historiador tenta impedir o próprio indivíduo que viveu aquilo sobre o qual ele discorre de se considerar apto a contar a história. História é estritamente aquilo que pessoas especializadas fazem, o resto é simplesmente jogado em outros campos, ou ignorado… A história serve a interesses, por isso Marc Ferro revela uma necessidade constante de “contra-histórias”, que seria a história contada por outros ângulos que não o da hegemonia acadêmica.

Em suma, a história precisa ser constantemente sitiada e ameaçada por estrangeiros, para não se cristalizar e se perpetuar como um exercício hegemônico de poder.

Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: