“Eu não leio HQs, só mangás” e porque isso é um erro comum!

Em dentro de dois meses acontecerá o Anime Friends 2011, e assim como nas edições anteriores, estarei trafegando em um mar de fantasias adolescentes, sexualidade reprimida e incertezas sociais, óbvio que eu não estarei só, muito menos de mãos vazias, o mês anterior ao evento é a oportunidade perfeita para estocar armas de fogo, álcool, drogas leves e toda pornografia do mundo que me ajude a bloquear o bukakke sinestésico transdimensional que esse acontecimento representa, e como sempre, eu vou passear entre os stands cheirando a revista velha e acabar me deparando com aquela personalidade clássica, o garoto anônimo, que de uma forma ingênua e detestável fala: “eu não leio HQs, só mangás”, supondo que eu não o mate, irei explicar pra ele, com paciência paternal, que o negócio não é bem assim.

Claro, HQs já tem rodado o país – e gerações de consumidores – há mais de três décadas, desde os tempos de Ebal, Mythos, Editora Abril e agora, a Panini Comics, sem contar as outras atuantes do mercado, como a Devir e a Cia. Das Letras, a presença dos mangás, e se isso, a gente excluir as empreitadas da Editora Globo com Akira e a bem quista pretensão quixotesca da Animangá, é algo relativamente recente, basta lembrar que a JBC e a Conrad começaram a lançar títulos no mercado em meados de 2001. Estamos falando de uma década, apenas uma geração de leitores.

O erro comum é entender mangá como “gênero” e não mídia, em sua essência, histórias em quadrinhos “ocidentais” e mangás são a mesma coisa, encadernados de baixo-médio custo de produção, organizados por diagramação de tiras e painéis entre espaços da folha, aquilo que sim, chamamos vulgarmente de “quadrinhos”. Em tese, todo leitor de mangás é um leitor de quadrinhos, o que nós observamos são questões culturais fortes o bastante para destacar essa diferenciação e é ela que devemos explorar.

É interessante perceber que nós não precisamos sair do solo nacional para analisar este erro, basta ver o marketing do “Turma da Mônica Jovem”, onde na capa a revista anuncia “Em estilo mangá”, o que significa isso? Em essência, a edição continua a mesma – até mesmo o esquema de leitura ocidental – então onde os roteiristas e editores apostam? Na simulação de convenções comumente associadas ao gênero, como estereótipos de heróis e construções narrativas, mas para todos os efeitos, Turma da Mônica Jovem continua sendo uma revista em quadrinhos como qualquer outra.

Historicamente, o mangá ganhou maior projeção graças a ocupação americana no Japão, com uma lei que proibida qualquer material de retratar sentimentos nacionalistas ou de glorificação militarista, o que permitiu então – graças a influencia de temas ocidentais, como a Ficção Cientifica – que artistas como Osamu Tezuka concebessem obras como Astro Boy. Tecnicamente, Tezuka desenvolveu um método de narrativa visual cinematográfica, onde acompanha não só a velocidade de leitura de seu público, como alocava de forma estratégica os painéis, para a arte japonesa, esta “sensação de movimento” seria a ruptura com o passado “estático” que até então os artistas cultivavam. Artistas como Frank Quitely e Stuart Immonen absorvem muito desta técnica de desenho, seus trabalhos, para a crítica ocidental, são freqüentemente celebrados pela fluidez da seqüência narrativa entre os painéis.

Escritores como Alan Moore defendem que, culturalmente, a existência do gênero super-heróico está relacionado com a tradição beligerante intervencionista dos Estados Unidos, o que vem a divergir com o antecedente “não-imperialista” das primeiras gerações de desenhistas de mangá, embora isto seja fato, autores como Nobuhiro Watsuki já assumiram que diversas de suas decisões criativas foram influenciadas pela leitura de quadrinhos ocidentais, o próprio design de alguns vilões do mangá Samurai X, uma das obras mais famosas de Watsuki, é conseqüência disto.

E ai fica a reflexão, quais gêneros comumente encontrados no mangá não remetem a vaga noção de “super-heroísmo”?

Chara” é um dos conceitos que eu julgo ser mais interessante na cultura pop japonesa, um “Chara” é um ícone, uma espécie de atalho semiótico, que possui o mínimo de carga informativa mas ainda assim, capacidade fácil de reconhecimento por parte de suas audiências, pense na imagem da Hello Kitty, ela pode ser considerado um “Chara” perfeito, é pertinente notar que para a cultura pop, o “Chara” é intrínseco ao fator “moe”, e por isso, tem alto valor mercadológico, isso pode ser transportado para a cultura de HQs ocidentais, vide símbolos que nos trazem o gatilho associativo, como o “S” no uniforme do Superman, o morcego de Batman, o relâmpago de Flash ou até mesmo o “X” dos X-men. A idéia de “Chara” é completamente compatível com o argumento de Grant Morrison cujo os super-heróis ocupam o espaço do consciente coletivo que antes era destinado a mitologia

Um argumento comum entre os leitores de mangá é que as histórias no meio “têm fim”, uma deferida inocente, que claramente ignora as contrações do mercado editorial não só japonês, mas de todo o mundo. Basta pegar uma das grandes séries, como Naruto, onde suas encarnações sofrem com os ditames Shueisha, onde executivos não anseiam em abrir mão de uma de suas principais vacas leiteiras, salvo alguns casos, séries consideradas “curtas”, foram aquelas que não obtiveram sucesso de público em periódicos de peso como o Shonen Jump.

Ainda assim, embora as HQs ocidentais não tenham “fim”, não podemos fazer vistas grossas para inúmeras obras autorais, mini-séries e publicações de selos como a Vertigo e a Avatar Press que já obtiveram completude (e piadas a parte, não posso imaginar um mundo onde “Sandman” não tenha tido “fim”), sem contar o aspecto mercadológico, séries antológicas como Dragon Ball ainda sobrevivem graças a exploração de licenciamento da marca, porem, o maior argumento se encontra em Mobile Suit Gundam, que em 32 anos de série, já passou por inúmeras transformações, séries e idéias, muitas vezes graças as empreitadas executivas da Bandai.

Como vocês podem ver, essa é apenas a ponta do iceberg que envolve perspectivas estreitas e falta de conhecimento do gênero e sua historicidade, claro, não vamos cobrar este nível de informação de todos, mas é saudável manter uma noção mais abrangente quanto a natureza da HQ como meio e o mercado onde a mesma funciona, existem muitos outros exemplos há serem mencionados, mas com apenas um pouco, eu quis ilustrar que essa distância não só de ocidente/oriente, mas entre fandoms se encontra equivocada e a longo prazo é uma atitude insalubre.

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Comentários

  • Ivy Pires  On 04/05/2011 at 1:11

    Mangá, na minha opinião, nada mais é do que HQ Japonesa. E tenho dito!
    Aliás, ha uns anos atrás, eu aprendi que “mangá” era o estilo de desenho japonês usado nas HQs e animes. Nada além.

  • Dani  On 04/05/2011 at 1:52

    Olha só né, eu sou marvete, mas nada impede/impediu que eu tenha lido mangás… bom uma coisa é o mangá outra é o cosplay e o idioma mas de forma geral me soa arrogante por parte de um lado ou do outro. Wtv, bobeira pura.

  • Filipi Cloud  On 04/05/2011 at 2:16

    Há esse preconceito bobo por parte de alguns fãs de HQ e de mangá mesmo, mas, é como foi dito, mangá nada mais é que HQ japonesa (claro que com suas “idiossincrasias”, afinal, culturas diferentes). O fato de um leitor ter preferências não quer dizer que ele deva rejeitar tudo aquilo que não faz parte do “círculo habitual” dele, principalmente porque ele pode perder estórias muito boas. Essa segregação acontece também com RPGs americanos e japoneses, e com tantas outras coisas que não vale nem a pena perder tempo listando. É mesmo muita estreiteza de pensamento.

  • Tavares  On 04/05/2011 at 12:27

    Eu só leio quadrinhos e raramente passo o olho em um mangá, por que não tem qualidade nenhuma em 99,9% dos casos.

    Os mangás foram uma praga pra indústria dos quadrinhos, eu me lembro que eles invadiram o mercado em 1999 e eu estava ha um tempo sem ler HQs, quando voltei as bancas estava la aquela porcaria. Foi um choque.

    Antes havia algums mangás de qualidade, como Lobo Solitário e Akira, mas ai começou a surgir esse monte de merda de retardado, acabou com as HQs.

    A pior fase das HQs foi quando tentaram mangalizar a IMAGE, quando os americanos estavam desesperados com o fim da indústria pela invasão dos mangás-lixo. Mas graças ao cinema os quadrinhos sobreviveram.

    Mangás nunca terão histórias tão boas quanto Sandman, Watchmen, Corto Maltese, Preacher, Os Metabarões ou Conan. É um meio limitado e primitivo que reflete a decaida do nível intelectual mundial e o oportunismo de executivos da cultura pop que se aproveitam da ingenuidade alheia.

    Mangás são baratos, dão mais lucro, os artistas desenham mais rápido, os textos são mal escritos, tudo indica que é feito nas coxas, pra explorar um público incauto e gerar mais lucro rápido.

    Hoje mangá virou modinha, com esses publicitários exploradores.

    Muitos artistas ocidentais se inspiraram nos poucos mangás de qualidade que existem, mas isso não justifica nem a existência desse monte de mangá tosco em nossas bancas.

    Eu aconselho as pessoas que leem mangá que deixem de lado e experimentem ler HQs americanas e europeias, sei que vão gostar e abandonar esses rabiscos subdesenvolvidos dos mangás.

  • Alessio Esteves  On 05/05/2011 at 3:08

    Gostaria que o Tavares falasse da influência do mangá na obra de Miller e Quitely e dizer que aquilo tudo é uma merda…

    De qualquer maneira, o cara que só lê manga é tão idiota quanto o cara que não lê mangá. O preconceito rola dos dois lados e isso só vai até o cara pegar algum material que ele goste a amplie sua visão.

  • Alessio Esteves  On 05/05/2011 at 3:10

    (e essa edição de Ranma 1/2 da Animangá era tosca demais!! Mas na época comprei…)

  • psicko  On 06/05/2011 at 12:35

    Fazendo um colóquio a parte dos demais:
    CRITICAL HIT MOTHERFUCKER!!!
    ou seja, belo texto fruto de um conjunto cognitivo louvável.

  • Sidmar  On 06/05/2011 at 13:50

    Eu defendo que história em quadrinhos é um tipo de literatura, independente de onde venha. Assim como na literatura de prosa normal temos vários gêneros, como policial, suspense, terror, as HQs seguem no mesmo ritmo. Porém sabemos que a literatura inglesa clássica, como Wells e Wilde, possuem traços distintos da francesa, de Drumas e Verne. Da mesma forma encaro as HQs, as histórias produzidas nos EUA possuem suas características, assim como as do Japão possuem as delas, porém não se tira disso o fato de, em suma, serem a mesmíssima coisa. E é notável como um tipo de literatura influencia outra, e vice-versa. Não é possível quem diga que Sandman seja uma literatura superior ao mangá, sendo que o Gaiman usa fontes orientais em suas histórias, até mesmo tendo uma delas ilustradas pelo desenhista clássica da série Final Fantasy, Yoshitaka Amano. Da igual ímpeto o otaku que detesta os super-heróis americanos não saber que dois grandes mangakas (desenhistas de mangá), Kia Asamiya e Masakazu Katsura, são fãs tão fervorosos do Batman, têm uma disputa amistosa entre os dois, quem é o maior fã deles, e nessa disputa o primeiro já fez uma história oficial do personagem e o segundo possui em seu studio o batmóvel original do segundo filme feito por Tim Burton. Por isso quem tem esse tipo de pensamento para mim muitas vezes não buscar conhecer melhor aquilo que gosta.

  • adrielle  On 07/08/2011 at 19:21

    ha adoro a turma da monica jovem

  • Arthur  On 15/08/2011 at 18:24

    Leio muitos mangas, e li vários HQ. Watchmen e Preacher são fantásticos, Spawn tambem é muito bom. Não tenho preconceito com nenhum dos 2, e li as melhores obras de ambos, e li mangas fantásticos, que a meu gosto, são istórias muito mais complexas e com enredos melhores, como 20th Century Boys, Pluto, Berserk. Mas eu concordo totalmente, que a grande maioria dos mangas de sucesso são chatos e totalmente infantis(shounen), mas existem muitos Seinens (mangas para maiores de 16 anos) fantásticos.

  • welinton  On 06/02/2012 at 21:29

    -I read sleeves and comics americans for years and i am not this prejudice bobo! I noticed that in my brother a few days ago !that rivalida

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