Final Fantasy VI: Kefka, niilismo e loucura na série

Há 1000 anos irrompeu uma guerra entre os Espers (entidades místicas que controlam a magia, mas não exatamente deuses) em um mundo no qual os humanos haviam chegado a um nível elevado de desenvolvimento científico e espiritual. A civilização humana tal qual era conhecida foi quase completamente destruída e após a conclusão do conflito a magia deixou de existir, se tornando a princípio sinônimo de atraso e posteriormente com o passar dos anos se tornou apenas mito! A alta-tecnologia foi novamente atingida durante o re-desenvolvimento da humanidade, o aço, tecnologia a vapor e a ciência se tornaram a base de tudo. Quem controla a tecnologia tem poder, entretanto o poder militar entre os reinos distintos se tornou equilibrado e ninguém é capaz de controlar totalmente o mundo, a não ser que alguém consiga a energia ilimitada da magia… Pois é justamente por isso que o Imperador Gestahl prega a violência no mundo todo em uma descarada demagogia, usando como desculpa para tudo que faz uma revolução do renascimento da magia numa fusão com a tecnologia! Grupos de resistências espalhados por todo o mundo tentam impedir o plano do imperador, mas a única forma efetiva disso acontecer é não deixar com que ele e seu exército liderado pelo cruel Kefka Pallazo tomem para si o controle de toda a magia dos antigos Espers.

Esse é o plot central de Final Fantasy VI, uma mistura de fantasia medieval com steampunk (navios voadores a vapor, ópera em cidade distopica abandonada, arcos-flechas e espadas são tão eficientes em combate como pistolas, enfim, tem todo um clima de Inglaterra pré-vitoriana misturado com tecnologia), no qual um imperador a lá Hitler prega aos seus súditos uma “revolução total” para beneficio de todos, buscando na verdade nada mais do que concentração de poder em si mesmo. Esse é o primeiro jogo da série que saiu de um mundo completamente pautado em fantasia medieval, partindo para uma abordagem mais futurista e tratando de temáticas complexas como modificação de DNA, suicídio, gravidez, justificativas para genocídios, loucura e etc, fugindo da velha saga dos “heróis prometidos” que salvariam os cristais que mantém o equilíbrio do planeta das forças do mal, típico dos jogos anteriores. Lançado no Japão em 1994 foi um dos jogos do SNES que teve mais cópias vendidas, sendo lembrado até hoje em remakes para GBA, psx e outras plataformas. FF VI é responsável por uma abertura para a complexificação dos jogos, dentro dele temos drama, humor, musicais (SIM, mesmo que um jogo de SNES tem um musical), mundos alternativos, dezenas de missões secundárias relativas a histórias individuais dos 14 personagens jogáveis e etc.

O enredo prossegue e começamos a jogar após o Império capturar uma garota (cujo nome é Terra) que consegue usar magia e o imperador Gesthal (que espera ter o mundo em suas mãos) fazer com que ela o obedeça através de uma tecnologia de controle de mentes. Ao entrar em contato com os restos de um Esper congelado, Terra consegue se libertar do transe e com auxilio do gatuno Locke foge dos soldados imperiais que a “protegiam”, começando-se assim uma verdadeira caçada por parte dos servos de Gesthal que se mantém sempre em seu encalço. Após passar pelo reino de Fígaro, junto com os irmãos reais Sabin e Edgar, Terra e Locke se unem aos Returners, grupo de oposição ao império. Lhes é dado a missão de encontrar os restos de Espers espalhados pelo mundo antes que Gestahl e seu exército se tornem imbatíveis. Só que para além dos fracos inimigos resistindo a ditadura do império, havia uma coisa bem mais poderosa que o imperador não esperava em seu caminho e que se mostraria muito mais terrível para os Returners do que o próprio império. Refiro-me a Kefka Pallazo.

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Dentre todos os Final Fantasys, do nintendinho até o último do PS2, considero Kefka o mais sádico, megalomaníaco, cômico, grotesco e repulsivo vilão já criado. Insanidade com bom humor é o que o define. Além de sua clássica risada psicótica sonorizada no jogo (um grotesco HUHUHUHUHUHUHU (?)).  Ele é uma mistura de humor negro e destruição em massa num personagem só. Ao mesmo tempo em que te faz rir te deixa perplexo, Kefka é um personagem com uma ambivalência que lhe caracteriza do inicio ao fim da trama, em alguns momentos tomando surra e em outros esbagaçando tudo que lhe aparece na frente. De certa perspectiva é muito parecido com o Joker do Batman, que talvez seja uma de suas referências ocidentais mais próximas, embora muito mais poderoso, porque Kefka chega a se tornar DEUS dentro do universo do jogo.

Os restos mortais dos Espers que os Returners e o Império buscam são como cristais (conhecidos no jogo como Magicite) que permitem ao humano comum usar magia. Kefka é completamente orfão, cresceu num orfanato comum, após entrar na Acadêmica Imperial se tornou parte de um experimento do Império que tentou fundir Magicite com o organismo humano, ele foi o único voluntário que se propôs ao teste. Passou assim a controlar magia sem uso de Magicites, se tornando equiparável aos próprios Espers. Depois disso passou de simples soldado a líder do exército de Gesthal, após intensos combates que o levaram ao limite da sanidade foi nomeado primeiro ministro do império, cargo hierárquico inferior apenas ao próprio imperador.

Com seu incomensurável poder mágico, Kefka passa a sentir prazer em ver desespero e sofrimento estampado na face de outro humano, ele se auto-transforma em uma máquina de matar diante da impossibilidade eminente de ser vencido. Leva o sadismo ao nível máximo ao envenenar as águas que banham um reino apenas para ouvir “a sinfonia em uníssono de vozes gritando à morte”. Como nunca recebeu atenção ou consideração de ninguém, Kefka antes de se tornar o trunfo militar do Império era apenas um jovem niilista desiludido com o mundo, alguém que nunca havia recebido carinho ou amor, que nunca entendeu o que era “felicidade”, para além disso, não entendia o sentido de viver se toda matéria que existe vai se extinguir no fim. Então quando obtém esse poder de destruição, Kefka chegou ao mais próximo do que descreviam como felicidade quando destruía a vida dos outros, quando acabava com o bem mais precioso que as pessoas tinham. Kefka encontrou prazer justamente na destruição da felicidade, do amor e da vida, que passaram a ser consideradas por ele como fraqueza.

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Sua insanidade foi tanta que acabou sendo destituído do cargo de primeiro ministro, embora tenha continuado no comando do exército. Kefka continua na função de general do exército porque numa guerra o objetivo é apenas destruir completamente o inimigo, coisa que ele faz com maestria e eficiência. A busca de Gesthal pelo poder não o fez ver que Kefka tinha suas próprias ambições que iam muito além de dominar o mundo… ele queria extinguir completamente todas as formas de vida, queria acabar com a existência em si! Mas antes disso queria ver os sentimentos humanos se traírem, a destruição do mundo viria por partes, primeiro acabaria com a esperança que a humanidade nutre por um futuro melhor. A esperança, o amor, a ordem, a bondade, nada disso entra na cabeça alucinada de Kefka. Nada mais o faz entrar em uma frenesi de ira do que ver alguém simplesmente ajudar o outro…

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Kefka trai o imperador Gestahl quando encontram numa ilha flutuante as três estátuas dos deuses que tornam possível a existência da magia, deuses esses que criaram os Espers. Os nomes delas são Kishin, Majin e Megami. Gestahl quase sentiu o controle do mundo em suas mãos, mas Kefka o derrubou da ilha flutuante na primeira oportunidade que teve e rompeu o equilíbrio das estatuas as mudando de posição. Com o equilíbrio rompido mágica em estado bruto foi liberada e Kefka acabou reunindo em seu corpo o poder das três estatuas divinas! Assim Kefka ganhou status divino, tendo o poder para modelar o mundo da forma que quer! Ele se tornou a própria fonte da magia. A partir daí o jogo entra numa segunda fase, em que predomina um mundo completamente arrasado pelos poderes de Kefka, que está lentamente destruindo o planeta com seus “raios da morte”.

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Kefka é o caos em pessoa. É o alerquim que odeia amargamente o único fato de que as coisas simplesmente possam existir. É loucura em estado bruto. É um dos poucos vilões que atingiu o seu objetivo mais aterrorizante, causar o caos universal através do terror. Tudo isso acompanhado de uma ironia ácida. Uma de suas últimas frases durante o jogo resume toda sua perspectiva extermínio: “O fim chega… através do caos.”

Pra mim cada aparição do Kefka dava uma sensação de bem-estar, não que os outros personagens sejam ruins, pelo contrário, o jogo é cheio de personagens misteriosos que tem suas histórias contadas de forma interessante durante a narrativa (inclusive você faz muitas escolhas que vão fazer com que o jogo tenha um encaminhamento diferenciado, fazendo você tentar terminá-lo tantas vezes quanto lhe for possível), é que realmente fiquei impressionado com Kefka, que roubou toda minha atenção no jogo. Kefka é simplesmente o maior vilão dos games, e pronto.

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Comentários

  • P  On 27/04/2011 at 21:41

    hipst…

  • Leitor Eximio  On 18/11/2012 at 0:08

    Concordo plenamente com o texto assima, para o Kefka não tem pra ninguem, esse personagem é muito engraçado e ao mesmo tempo um genocida que mata milhares de pessoas por causa da ambição em querer destruir tudo e todos, curto muito esse jogo e um dos personagens que mais gosto é o Kefka, vindo depois o Shadow, outro personagem muito louco e muito misterioso, o resto eu gosto muito e adoro jogar esse jogo, já o finalizei umas seis ou sete vezes no SNES.

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