A Língua Portuguesa como ferramenta de controle: elitismo, vergonha e soluções

Quando criança, eu tinha um certo nível de dislexia e deficit de atenção, nada muito drástico, mas era algo comum os professores instruírem meus pais a tratar este tópico, são coisas que inclusive acontecem até nos dias de hoje, troco uma letra, cometo pequenos erros de concordância, mas nada que algum dia veio a dificultar a compreensão de um texto, afinal, os leitores deste blog estão ai pra comprovar, não? Talvez por uma corrente de pensamento arcaico, a língua portuguesa é protegida por uma certa mentalidade reacionária, ainda hoje há quem discuta sobre a “invasão” de anglicanismos, neologismos e incontáveis “reformas” ortográficas e gramaticais. Nunca dei muita importância pra isso, não mesmo.

Considero a “língua” uma propriedade popular, algo que todos nós temos, por mimética, crianças aprendem não apenas o próprio idioma com seus pais, mas maneirismo, gírias e até sotaque, também existe aquela propriedade transmutável, nasci no Rio de Janeiro e moro já faz mais de uma década na capital de São Paulo, meu sotaque, por extensão, se tornou algo singular, isso é válido para cada um de nós.

Trabalho com publicidade e sou formado na área, atualmente prossigo para uma Pós-Graduação em Marketing Digital, em diversas reuniões (ou brainstorms, se você preferir…) era comum se deparar com a necessidade de criar uma flexão ou perversão com uma determinada palavra.

Vai além daquelas aulinhas de português e redação publicitária com as funções de linguagem, claro, vamos levar em consideração conceitos como linguagem fática, metalingüística e etc., mas é preciso ir além, conceber uma palavra é um exercício criativo, é necessário conhecer o universo da campanha, seu público, o imagético relacionado. Às vezes o que seria normativamente considerado como “erro”, nada mais é que o charme da campanha, isso é um exemplo generalista, é claro.

Quando algo me desagrada na Internet, ou apenas sinto a necessidade de transmitir um desaforo, eu costumo errar na digitação de forma proposital, é um trato da sociedade brasileira, ainda mais na classe média, considerar como forma de erudição o engessamento do elitismo gramatical, seja qual for à paulada, com o erro, ela ganha proporções ainda mais ofensivas.

É um daqueles discursos sobre a dicotomia forma/conteúdo (ou até mesmo de significante e significado para a semiótica e a lingüística) que pode ser aplicado em nossas inteirações sociais, até onde a ojeriza por um erro ortográfico deve significar a censura da mensagem e do intento comunicativo?

Um cara que manja do assunto é o Profº Marcos Bagno, onde o mesmo argumenta que “erros de português” não existem, o que existe é preconceito social disfarçado de preconceito lingüístico (e eu ainda adiciono, é uma questão auto-afirmativa), e que “o domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social”, a gramática passa a se tornar um instrumento de controle. Claro, em situações como essa, não existem “controladores”, pois se segue o padrão de dominação, os próprios são vítimas do sistema de controle, acabam sendo inseridos como agentes na lógica de censura e vergonha.

Não é uma idéia nova, nem distante, a “novilíngua” (newspeak) criada por Orwell é o argumento perfeito para esta situação, além da propaganda e do policiamento, controlar as formas de comunicação de seu povo é o outro passo para a total e completa censura, não apenas controlar a palavra, mas as articulações semânticas e construções de frases, o intuito da novalíngua é este, coerção através da comunicação, achar um ponto de átomo, onde cada vez mais se diminui a extensão e sentido da palavra e sua capacidade de flexão, pense no Aleph da cabala, só que em um sentido negativo, pervertido.

O Kenneth, do Blog Pós-Agoristas, uma vez propôs a construção de um Makrolexicon, com intento de incentivar mentes a construírem novas palavras, novas formas de expressão e concepção, e assim, impulsionar uma ferramenta de imunização contra esta forma de controle, eu tenho uma segunda via, até mais prática e cotidiana, eu digo ao leitor, que já se encontra enfastiado com este tipo de situação: erre propositalmente. Estou falando de um erro mínimo, uma ingênua e singela troca de letra, erre para não só compreender o erro, mas também se emancipar da culpa e dos olhares de reprovação de seus conterrâneos e educadores.

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Comentários

  • Fabio  On 06/05/2011 at 20:10

    Adiciono ao teu texto a seguinte idéia: quanto mais se aproxima da norma culta um texto, mais os leitores consideram verdades absolutas as idéias propagadas nesse texto. É como se qualquer coisa que escrevemos se torne verdade incontestável quando bem escrita… se o autor escreve tão bem, deve ser culto e certamente não pode estar falando bobagem. Isso, somado a natural indisposição das pessoas em questionar idéias, forma massas de repetidores de argumentos que algumas poucas mentes criam, em um processo que acaba por limitar e muito a evolução das idéias. Um número muito reduzido de pessoas acaba se tornando uma espécie de guardiões da verdade, um artifício que facilita estratégias de dominação das massas, já que basta controlar esse reduzido grupo de pessoas para controlar o contigente inteiro.

  • Ivã  On 17/05/2011 at 18:07

    Caro synthzoid, excelente texto. Infelizmente muitas pessoas ainda insistem em dizer que existe uma maneira correta usar a língua, e usam como prova a existência dos livros de gramática, o que para mim é como ouvir que Deus existe por que tá na bíblia. Mas gostaria de acrescentar um ponto importante: por mais que eu aprecie os livros do Marcos Bagno (e costumo presentear conhecidos com o livro Preconceito Linguistico) e seus textos na Caros Amigos, ele às vezes fala com um extremismo de mesmo nível que daqueles que ele se opõe (Arnaldo Jabor, por exemplo) e por isso eu recomendaria cautela ao ler o que ele escreve. Por fim, eu modestamente sugiriria que você tente conhecer o Projeto Atlas Linguistico do Brasil, que tem procurado mapear as variações da modalidade oral da língua portuguesa em nosso território.

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