Estou na minha zona de conforto estética, e você?

Finalmente resolvi testar aqui no Nerdevils um método de escrita que eu vinha pesquisando. Sim. É só um experimento de acordo com técnicas jornalísticas que venho lendo nos jornais experimentais dos anos 70-80-90. Talvez a maioria nem note o que mudou. Mas não importa. Seguindo em frente, sempre em frente. Caos, Kaos, Caô pseudo-esquerdista-existencial-desintegrante.

No decorrer dos últimos anos um termo caiu no gosto das discussões, inclusive algumas aqui do Nerdevils. Algo que como o bullying se tornou bode-expiatório de vários textos. Falo da “zona de conforto”.

Aclama-se muito entre textos magníficos e horrendos que circulam pela webz para que se saia da zona de conforto. Pede-se que as pessoas saiam da sua zona de conforto social, olhando para as minorias étnicas e classes necessitadas; zona de conforto psicológica, compreendendo os fenômenos que geralmente escapam aquilo que lhes é ensinado como normal e etc. etc. Mas quando se fala de estética… não vejo ninguém sair de sua zona de conforto.

Estamos todos ligados à industria cultural de alguma forma, em vários níveis distintos. Além disso, a guerra na estética é tão intensa que o inovador de hoje é o retrogrado que vai defender seu estilo da próxima novidade que surgirá em alguns meses. Mas… “se a vanguarda de hoje é a retarguada de amanhã, o que será feita da retarguada de hoje?”. Complicado. Se os tropicalistas que estão vivos até hoje usam de seu “prestígio” para sutilmente arrancar privilégios, o que aconteceu com os bossa-novistas? Bem, eles se aliaram, a retarguada cultural sempre se alia em auto-benefício. Ambos são nosso “passado” cultural, por isso se consideram como velhos que precisam de nossa proteção. Tsc.

Existem obras que eram experimentais a 40 anos atrás e o são até hoje. Nada lhe tirará mais de sua zona de conforto estético do que o som da década de 70 feito por Jards Macalé, o primeiro contato é bizarro. Em questão de filme no Brasil temos “Terra em transe” ou “Câncer” de Glauber Rocha, que simplesmente não faz sentido dentro da lógica linear do cinema contemporâneo (e mesmo dos anos 60-70, com a diferença de que hoje a linearidade é disfarçada com técnicas narrativas que fingem sair desse esquema começo + meio + fim). Na literatura, se Jack Kerouac e Allen Ginsberg foram fodões, se Gibson foi extremamente interessante, Jorge Mautner com “Deuses da chuva e da morte” é genialmente destruidor da linguagem, literatura serve para comunicação de algo a alguém? Não pra ele, literatura é um ritual quase xamânico de auto-expressão, é uma doidera do caralho muito interessante, que faz o leitor tradicional de “clássicos” ficar totalmente perdido. Em alguns momentos dá pra se afirmar que Mautner nem usa narrativa alguma, escreve sobre nada em longas páginas.

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Livro de Jorge Mautner

Nada foi mais estranho nas décadas de 60-70 na arte do que os experimentos-ambientes de Hélio Oiticica! Aliás, é uma tristeza constatar em lá pra 2007 mais da metade das suas obras conservadas foram perdidas num incendio, no geral valia algo em torno de 200 milhões de reais. Esses caras são anti-arte, um nível elevado de saída da zona de conforto estética, em geral até o fim (ou até hoje) lutaram (lutam) pra que não se satisfizessem em fazer a mesmíssima coisa de sempre, como os traidores tropicalistas.

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Um exemplo de experimento-ambiente de Hélio Oiticica

Alguns ídolos pops, que estão em sua zona de conforto em sua principal área de atuação, fazem um fantástico trabalho de estranhamento em outras. Como Tim Burtom e seus desenhos bizarros acompanhados de poemas insólitos. Apesar de todo seu cinema ter se tornado enfadonhamente previsível.

Aqui no Nerdevils praticamos uma certa ode a indústria cultural. Claro que com certo criticismo e seleção, o que nos faz algo mais próximo de uma contracultura do que de uma babaquice pura. Basta ler e conferir. Mas eu particularmente me sinto um pouco deslocado. No cinema de hoje, nada lhe tira mais da zona de conforto hollywoodiano ou europeu do que filme trash, ou com uma narrativa VERDADEIRAMENTE fragmentada. Como Mr. Nobody que lhe joga num turbilhão de vai e vem com o fim do filme sendo uma rebobinação de tudo o que aconteceu num jogo estético magnífico. Tarantino renovou com ajuda de outros caras o esquemão de filmagem de Hollywood, mas assim como Burton, se apóia a mais de 15 anos basicamente nos mesmos esquemas. Tanto que de cara quando você vê um filme saca que é do Tarantino, assim como quando você vê uma animação meio emo já diz que é do Burton, é difícil não ser.

Sair da zona de conforto e se viciar no ar fora dela é voltar a mesmíssima zona de conforto. A auto-defesa de quem não quer sair de sua zona de conforto é dizer que o artefato cultural estranho ou é uma merda ou é “cult” e “pretensioso”. Tropicalismo é cult. Isso soa pejorativo. É auto-defesa burra e insustentável. Sim, o cara fez pra ser cult, isso o torna uma merda automaticamente? A arte mais próxima de uma idéia de arte-arte, tem que ser um experimento e não só uma prática. Algo meio romantismo do século XIX, a arte tem que ser pretensiosa, as vezes separada da massa e incomunicável, tanto faz. O artista é o dono da sua obra no momento da criação. Depois ela se torna um Deus que vai foder mentes por aí. Claro que com isso ele cria barreiras para o consumo, mas em compensação choca a estética, faz sair da zona de conforto, delira dionisiacamente. Godard era o pai do cult, com seu filho de cultização americana, o James Dean.

Uma nota: Tropa de Elite 2. Filmaço. Mas pra estragar, muita gente por aí andou dizendo que “o cinema brasileiro finalmente aprendeu a fazer bom cinema”. Como assim, PORRA? Aprendeu a ser minimamente linear? Asséptico? Holywoodiano? Tropa de Elite 2 é foda, porém os filmes brasileiros nunca foram inferior a ele, só decidiram por outras opções estéticas e narrativas, em geral mais na “linha” que evoluiu da xanxada e tal. Queria mesmo que o cinema marginal tivesse tido continuações no cinema brasileiro, mas o que sobrou do mesmo é muito pouco. Em termos de narrativa o cinema brasileiro é que precisa ensinar o mundo como ser carnavalizante e descontínuo, ser caótico como a vida normal. Nossa estética kitsch e cafona, cult, tem um amor extremamente sexualizado como se cada pessoa fosse uma invocação de Eros. São bons, sempre gostei dos filmes brasileiros, que só parecem bizarros quando partem pra ficção cientifica tecnológica, mas enquanto cinema de vida privada, sobre pessoas, famílias, vida comum mesmo, o realismo italiano e francês estão a anos luz de se aproximar. A vantagem da vinda do Tropa de Elite 2, é que incorporou coisas do cinema internacional com êxito, e isso vai estimular discussões sobre o cinema nacional e aumentar a variedade de produções fora da zona de conforto estética dionisíaca que já estava fazendo todo filme brasileiro sair com a mesma cara de putaria. Findada a nota. Fim.

Todos nossos sentidos são treinados a só consumir uma estética e suas variantes. Quando algo rompe essa baboseira, é considerado primario, idiota. Coitado do Macalé. Coitado. Um dia desses tava no programa Altas Horas cantando, todo no seu velho modo anti-estético e o publico lá com cara de imbecilizados. Em geral burro é quem não entende. Mas claro que existe gente que abusa da anti-estética pra facilitar o trabalho, por isso precisa estar atento, nem tudo que se vende como fora da zona de conforto o é. Fique sempre de olho, dê uma volta, confira e se ligue, sempre ligado, se não se fode.

Cult, Brasilidade, Tosqueira, Tropicalidade, Anti-estética, falo mais disso depois. Até mais imundos bastardos!

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