Persona 3: Anime, Pop Magick e Psicologia Junguiana

Uma das coisas mais incríveis na época do Playstation 2 foi a maneira como o console causou impacto na cultura pop, em especial no Japão, conforme o tempo foi passando e a Sony ganhando mercado, inevitavelmente, os custos de produção para desenvolver games pro console foram gradativamente reduzindo, isso também explica a quantidade de adaptações licenciadas de games sobre franquias de anime, mangá/HQs e até filmes. Para as desenvolvedoras japonesas, não é nenhum mistério que muito dos designers para jogos flertam com a estética fundamentada no gênero Anime/Mangá, isto é tão comum que basta olhar um pouco para o passado e ver títulos como Valis para Mega Drive.

Durante o final da primeira década dos anos 00’s, a ATLUS reformulou uma de suas franquias mais conceituadas no mercado, a série de jogos do Shin Megami Tensei: Persona, introduzindo elementos até então pouco corriqueiros no gênero JRPG, foi só no terceiro título da série, objeto de análise deste artigo, que finalmente a game company conseguiu algo de remarco, traduzir de forma perfeita, a idéia de um “anime” dentro de um jogo.

O universo de Persona 3: FES, a princípio, não é muito diferente do nosso, se passa no Japão da década atual, sem futurismo improváveis ou possíveis anacronismos facilmente encontrados no gênero, o aspecto “fantasioso” da série se dá em grande parte, de forma subliminar, quase imperceptível para a população comum. A trama se inicia com a transferência do estudante Minato Arisato para a Gekkoukan High School, lá, o mesmo descobre após uma série de eventos para-normais, que é capaz de vivenciar aquilo que chamam de “Dark Hour”, a 25º hora do dia, quando todos dormem e o mundo é transportado para um lugar tétrico chamado “Tartarus”, que é habitado “Sombras”, monstros disformes que são hostis a qualquer ser humano visível.

O grande lance da série é que Arisato – e diversos de seus colegas – se unem para combater a lenta invasão das sombras no mundo “real”, e para poder encará-los, os mesmos são instruídos no uso das “Personas”, que dão o título do jogo. Muito do conceitual do jogo é fundamentado nos trabalhos de Carl Jung, e um olhar mais atento vai notar que nos escritos acadêmicos do mesmo existem referências a idéia de Persona/Sombra, para Jung, uma Persona é uma “máscara”, ela serve para proteger o ego e a psique das diversas forças e atitudes sociais que nos invadem, no universo do jogo, as mesmas se manifestam quando os protagonistas encaram grande pressão, a idéia de manifestação tem um ponto literal, as mesmas representam deuses e criaturas mitológicas.

Diversões panteões – alguns até obscuros… – marcam presença no jogo, podemos encontrar deidades greco-romanas, xintoístas, mesopotâmicas, ameríndias e até da literatura clássica, como os trabalhos de Lovecraft e Lewis Carroll

Este é um segundo ponto interessante na série, Persona parte de uma perspectiva gnóstica que deuses e demônios não passam apenas de manifestações mais profundas de nossas mentes, que ao invocarmos essas “personas” (ou, se desenvolvendo mais, personalidades, “papéis”), nós somos capazes de encarar certas malezas, as mesmas são desenvolvidas – e ganham mais força – através de laços sociais, quando o personagem interage com o mundo e descobre mais sobre si mesmo.

Chamados de Social Links no jogo, os vínculos de amizade que o protagonista estabelece são representados através dos 22 Arcanas Maiores do Tarô tradicional, esses relacionamentos tendem ser auspiciosos, envolvendo características comumente associadas à determinada carta, não caindo em clichês ou moralismos, cada tarô acaba tendo representação relativa, não espere altas doses de “fatalismo”, por exemplo, quando for lidar com a personagem que representa o Arcano da Morte.

 

Com a idéia de Social Links o jogo acaba te orientado para uma rotina dupla, Arisato e cia. vão ao colégio, participam de atividades extracurriculares, feriados japoneses e a noite pegam em armas para enfrentar as “sombras”, para jogadores mais velhos, como eu, essa rotina transporta um feeling muito nostálgico, retomando a rotina de estudos, estabelecer amizades, o que embora seja uma nostalgia reconfortante, um olhar mais crítico poderia dizer que Persona 3 flerta muito com a noção de Memento Mori.

Traduzido da expressão latina, significa literalmente “Lembre-se da morte”, o que acaba sendo uma verdade para os protagonistas da série, vivendo cada dia como se fosse o último, contrabalançando a rotina com grandes descobertas sociais – ou psicológicas –e a noite, sempre correndo o risco de morrer nas garras de alguma criatura ou pesadelo, o jogo em si acaba desenvolvendo uma aura melancólica, tanto que a personificação de Thanatos é presente no jogo.

É interessante pensar que o jogo não é obscuro quanto as suas inspirações, gradativamente, todo o aspecto simbólico da história é explicado ao longo da trama, fazendo com que o jogador acaba desenvolvendo um breve contato com as áreas academias e ocultistas que influenciaram o jogo, flertando muito com a noção de “acessibilidade” do Pop Magick (spoiler: para os mais interessados, procurem as aulas do personagem Mr. Edogawa)

Outro fato que constitui a “experiência anime” do jogo está na trilha sonora, considerada por diversos críticos especializados como uma das mais descontraídas e agitadas do gênero JRPG, tratando-se de Persona 3, esqueça as grandes trilhas elaboradas pelo compositor Nobuo Uematsu, aqui nós lidamos com puro e simples J-Pop!

Compostas por Shoji Meguro, as músicas variam do Rock ao Synth-pop, tipicamente nipônicas, são canções com refrões grudentos e Rap no back vocal, a importância é tanta, que todas as versões originais do jogo acompanhavam de um segundo CD, contendo a OST na integra, para os mais curiosos, recomendo as faixas “Burn my Dread” e “Shadows of Mass Destruction”.

Persona 3, por toda sua constituição (RPG, Anime, Magia, Psicologia) não é um título facilmente recomendável, quase beirando as alas de games que podem ser considerados como “cult”, porem é ideal para fãs de uma ou mais bases que o game segmenta, é um game capaz de fazer com que o jogador desenvolva um vínculo muito forte com o universo e a história, e que no final das contas, acaba descobrindo algo sobre si mesmo!

 

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Comentários

  • Filipi Cloud  On 11/04/2011 at 23:19

    Parabéns pelo artigo. Eu sempre achei a série Shin Megami Tensei muito rica, principalmente Persona. Rica em referências e na própria história mesmo. É muito bem construída; nada destoa: personagens, trilha sonora, layout de menus.

    Eu já tinha feito umas pesquisas para saber mais sobre essa relação da psicologia Jungiana com o jogo e cada vez fico mais fascinado, inclusive no Persona 2 EP o Filemon (um “espírito” com quem Jung conversava — uma representação reveladora do consciente coletivo –, e era uma espécie de guia) está lá representando um mentor para os personagens. Desde esses pequenos cuidados até a repaginação de algumas entidades mitológicas (e o próprio sincretismo) me fascinam.

    Infelizmente não pude terminar nenhum dos Personas do PS2 ainda por falta de tempo, apesar de chegar no finalzinho do P4, mas eu pagarei esta dívida com a série, dos quais também gosto bastante de Devil Summoner.

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