O Fator SNAFU

 

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"Qualquer pessoa em Washington que não seja paranóica, está simplesmente louca"

Henry Kissinger, ex-secretário de Estado americano

 

Um preceito básico que deveria fundamentar todas as teorias da comunicação, diz: Informação e Hierarquia não combinam. Uma transmissão de informações só flui corretamente se não houver nenhuma preocupação hierárquica no sentido de se passar uma mensagem deturpada para agradar alguém. A submissão de uma hierarquia tende a destruir completamente a possibilidade da informação – Informação aqui deve ser entendida aqui como o Fator Surpresa, a carga de novidade, o elemento desconhecido de uma mensagem – não ser editada, alterada ou até mesmo omitida. Se o conceito não está suficientemente claro, imagine a seguinte situação: um soldado raso que está de guarda no quartel de um batalhão e tirou um cochilo acorda de sobressalto avista um grupamento inimigo invadindo a unidade dele, e precisa urgentemente avisar aos seus superiores. Com toda a certeza esse soldado experimentará um momento de indecisão particularmente pavoroso e intenso. Ele não só precisa deixar todos a par da situação, como precisa livrar o próprio cu de ser rifado por seus superiores, tornando a mensagem receptiva para os que têm o poder de dar-lhe um tiro de punição pelo que fez. Em outras palavras: ele provavelmente criará artisticamente uma versão completamente nova dos fatos que ocorreram, deliberadamente desinformando seus superiores para evitar ser punido. E a punição parece tão assombrosa para um soldado que ele põe em risco toda a unidade militar em nome de um propósito taxado de egoísta.

A situação pode ser extrema, distante, devido a rigidez da vida militar, mas não é muito diferente do que acontece diariamente em uma cacetada de empresas. É o tradicional "Deu merda", que qualquer estagiário ou funcionário subalterno certamente já experimentou. Aí entra a hierarquia. Uma hierarquia – incluindo a empresarial, aparentemente inocente – não funciona se o cara que está acima, não tiver algum tipo de poder fatal, comparável ao revólver. Uma frase clássica cunhada por alguém que no momento não recordo o nome, afirma: "O poder político nasce do tambor de um revólver". Não sejam tão apressados em levar o revólver ao pé da letra de forma integral. O poder do revólver está contido na possibilidade estatística do seu portador atirar na pessoa ameaçada (também deve ser levado em conta a possibilidade do disparo não acertar a vítima), o que exclui a necessidade de uma demonstração. O medo de tomar um tiro é o poder por trás do revólver, ele é basicamente um instrumento de ameaça. E alguém superior em uma hierarquia possui algo similar a um revólver. Pode ser um rito carregado de tradições – "Não responda ao seu pai, moleque!" – ou o poder de colocar em xeque a capacidade de sobrevivência de alguém – "Cometa mais uma besteira dessa, seu verme, que te demito sem pensar duas vezes!". Se acha que esses não são revólveres suficientemente persuasivos, ponha-se a pensar em como seu comportamento com quase certeza é radicalmente diferente na frente dos seus pais, especialmente se você tem mais de 25 anos, em que a fase rebelde de um homem adulto geralmente começa a terminar. Pense também em quantas pessoas você mantém laços suficientemente fortes para pedir ajuda caso TODAS as suas fontes de renda sequem de um dia pro outro. Refletiu? Agora imagine os dois revólveres combinados na sua cabeça e entenda como uma arma social e aparentemente inofensiva pode ser bem poderosa. Se esse peso hierárquico é capaz de ameaçar o curso da vida de qualquer um, imagine o quanto não influencia na integridade de uma Onda de Informação.

Todos esses fatores atrapalham a carga de informação contida nas vias comunicativas de uma organização, e ainda cria uma situação paradoxal: os que possuem a informação completa, sem edição (os que estão nos pés da hierarquia, por assim dizer), não são os mais bem informados, já que o que possuem é meramente um recorte pulverizado do quadro completo… o mesmo pode-se dizer dos superiores, que muitas vezes perdem pedaços indispensáveis da informação, mas possuem uma visão mais global do quadro. Pode-se afirmar que, em muitos casos extremos, nenhum integrante de uma organização está bem informado. A esse caos informacional entrópico denomina-se Fator SNAFU – sigla de Situation normal: all fucked up, um termo inventado por uma unidade do Exército Americano na II Guerra para denominar o Caos de uma guerra. Resumindo, SNAFU pode ser entendida popularmente como uma baderna aplicada a Teoria da Comunicação.

 

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Uma situação típica envolvendo SNAFU que li num livro de Viktor Suvorov aconteceu na II Guerra. Os alemães tinham tomado uma boa surra em Stalingrado – a maior batalha da história da humanidade – e preparavam sua última grande ofensiva, que se localizaria na cidade de Kursk. A ofensiva, denominada Operação Cidadela, já começou errada. As forças do Eixo não possuíam mapas da cidade, e muitos comandantes destacados na ofensiva nem mesmo sabiam onde ela se localizava. Do outro lado tudo se complicava ainda mais: uma rede de espiões soviéticos na Suíça conseguiram planos detalhados do ataque, o que deu quatro meses para os russos se preparem. E como se prepararam. Segundo a Wikipedia, "o Exército Vermelho plantou mais de 400.000 minas terrestres e cavou cerca de 5.000 quilômetros de trincheiras, com posições tão retiradas quanto 175 km da linha de frente. Adicionalmente, eles juntaram um enorme exército deles mesmos, incluindo 1.300.000 homens, 3.600 tanques, 20.000 peças de artilharia e 2.400 aviões". Tudo para defender Kursk.

Ou seja, o SNAFU já se tornava um inimigo poderoso para os alemães, que sabiam menos do próprio plano do que os que seriam vítimas dele. Aliado a isso, um golpe fatal: um grupo de combate (unidade militar antiga, integrada por 10 a 15 soldados) alemão viu que três arames de uma cerca que protegia a unidade estavam cortados com alicate e enrolados em um canto. A resposta para isso era óbvia: um ataque preventivo estava sendo preparado pelas forças soviéticas, e provavelmente seria empreendido antes do início da Operação Cidadela. O buraco era para dar passagem para carros de combate e uma tropa gigantesca. Sabendo do stress e da pressão sufocante que os comandantes alemães estavam sentindo, o grupo de combate resolveu omitir o achado, e fez ainda melhor/pior: criou uma gambiarra para mostrar que nenhuma cerca havia sido cortada. SNAF²U. O resultado dessa progressão geométrica de pequenos erros comunicativos terminou por ser a completa derrota dos alemães, que nunca mais ganharam nenhuma batalha importante contra os soviéticos. Posteriormente interrogados pelos vitoriosos soviéticos, o comandante do grupo de combate afirmou que "sua percepção provavelmente estava embriagada com o stress, aliado ao otimismo crescente transmitido por Hitler e seu Alto Comando".

Parece incrivelmente idiota como algo tão subjetivo e intangível como "otimismo de Hitler" pudesse influenciar um grupo de soldados em um front a milhares de quilômetros dali ao ponto de fazê-los distorcerem completamente sinais que estavam gritando na cara deles, mas essa influência perversa não me parece tão complexa de entender. Na verdade, a influência da hierarquia e do autoritarismo centralizado é uma via de duas mãos. Ao mesmo tempo em que os subordinados geralmente ajustam componentes dos pacotes de informação que transmitem degraus acima da hierarquia, os chefões mandam sinais para baixo, ajustando a visão de todos da organização à sua própria. É por isso que geralmente se diz que "uma organização é a imagem e semelhança de seu líder". À primeira vista parece ridículo que uma pessoa mude seu comportamento e forma de pensar simplesmente porque um sujeito que ele provavelmente odeia quer assim. Mas como Paul Watzlawick afirmou sabiamente: "Aquilo que se torna objetivamente indizível rapidamente se torna subjetivamente impensável". Essa é uma versão científica da frase proferida por João Paulo II quando foi avisado que o KGB colocou agentes como padres para se tornarem papas um dia: "Ninguém chega ao papado sem ser católico". É um ajuste natural e automático – em pessoas sem treinamento neurológico – empreendido pelas funções cerebrais, já que uma pessoa não gosta de se sentir constantemente um mentiroso (por seus pacotes de informações reais não se ajustarem a visão estreita de seu chefe no alto do trono dele) ou um covarde (por permitir calado falsificações deliberadas da informação transmitida por ele). Então, aos poucos, a própria Visão de Realidade dele se ajusta à do patrão.

É justamente esse o motivo dos policiais "heróis" de Tropa de Elite receberem tanta admiração popular: eles oferecem uma alta resistência a submeter sua Visão a dos seus chefes altamente corruptos, seu Sistema de Realidade resiste ao dos lamacentos dirigentes da polícia carioca. E essa característica admirável se sobrepõe até mesmo a violência truculenta que permeia as ações deles, e nos leva até mesmo a ignorar que existe SNAFU dentro do Bope – bastante claro em Tropa de Elite 2, quando Nascimento ajuda o Inimigo sem perceber -, já que ele conta com uma estrutura tão (ou mais) rígida do que a da polícia convencional. A grande diferença é que existe integridade anti-corrupta em seus membros, e o SNAFU não explode continuamente na cara deles. Em resumo, o Sistema contra qual luta o Capitão Nascimento é uma gigantesca e enraizada estrutura SNAFU praticamente viva e retroalimentada.

Imagino que os inquisidores a serviço de Torquemada, mesmo os mais sãos e com algum resquício de bondade, não demoraram muito para realmente identificarem bruxas em cada grupo de mulheres que pisassem forte no chão, ou cozinhasse alguma folha. Do contrário, a caçada do inquisidor espanhol jamais teria sido tão "eficiente"; além de ser cruel, ele tinha que transmitir sua Visão de Realidade hierarquia abaixo. Para usarmos um exemplo mais recente, temos J. Edgar Hoover aí. Hoover foi diretor do FBI por 48 anos, talvez um dos maiores cães de guarda da história recente do mundo ocidental. Iniciou sua carreira como um paranóico profissional, "investigando estrangeiros suspeitos de subversão". Não sei quem era o chefe de Hoover nessa época, mas provavelmente ele aprendeu a ver inimigos em todos os cantos com ele, sua primeira grande experiência hierárquica. Se no início de sua trajetória como diretor do FBI, ele foi responsável por uma profunda reforma em seus métodos investigativos e de arquivamento, depois da II Guerra ele experimentou um mergulho na paraóia que deve ser um fantasma na vida de todo integrante de uma organização investigativa. Após o surgimento do demônio "comunista", Hoover abandonou seu papel de agente da lei – papel já bem questionável, diga-se de passagem – e assumiu um manto de inquisidor-chefe dos EUA, efetivamente vendo inimigos em todas as camadas da população. Seus subalternos logo se encontraram na mesma posição. Efetivamente precisavam encontrar ateus comunistas em todos os cantos, ou atrairiam suspeitas de insanidade ou colaboração com eles. Mesmo com a humanidade tendo evoluído drasticamente sua forma de pensar nos últimos dois séculos, seja com a Análise Transacional, a Psicologia Analítica, a Semântica Geral, o Agnosticismo e o nunca ultrapassado Sofismo, o comportamento predatório de Hoover não diferia muito das insanidades cometidas por Anthony Comstock em nome de uma visão moralista que só ele enxergava – Comstock caçava prostitutas… e não me admira que ele tinha um comportamento sexual fortemente reprimido, sendo viciado em punheta até a idade adulta – ou mesmo da sede de sangue de Torquemada e sua caça às bruxas.

 

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O psicólogo Colin Wilson, em sua análise do sistema criminal, que resultou no livro A Criminal History of Mankind, identificou um tipo de comportamento similar nos piores assassinos. Ele o chamou de Síndrome do Homem Certo. O cara que espanca a esposa que pede divórcio, o indivíduo que mata um funcionário que desobedeceu uma ordem, o sargento que não pensa duas vezes em dar um tiro num soldado que dormiu na guarda… todos eles têm uma característica em comum: absoluta certeza que estão certos. Não importa se todos os pacotes de informação que recebam dizem o contrário da suposta certeza que possuem, eles efetivamente são prisioneiros das idéias e ideologias que construíram ao redor, sem nenhuma capacidade neurológica e psicológica de abandona-las. Não chega a ser Psicopatia, pois eles conservam seus sentimentos, mas colocam suas certezas acima de possíveis reflexões sobre a natureza dos seus atos. Esse é o comportamento que Exércitos, grupos terroristas, toda a sorte de organização policial e matilhas de cães de caça esperam de seus superiores: alguém que não pense duas vezes em ameaçar, atirar, torturar… que tenham certeza que estão certos, e espalhem esses sinais cinésicos para seus subordinados.

São homens assim que muitas vezes estão no topo das hierarquias, e a visão estreita deles que termina por alimentar o poderoso e caótico Fator SNAFU. E o resultado disso é uma onisciência às avessas, onde o topo das hierarquias devem saber de tudo, mas só recebem os sinais filtrados pela própria carga de medo que a posição delas espalha pirâmide abaixo.

Mas existe um local onde SNAFU atinge estágios crônicos e insuportavelmente caóticos: os Serviços Espionagem, Segurança e de Informação. Parece mais uma vez paradoxal que justamente as organizações que trabalham diariamente com coleta e processamento de informações sejam os mais atingidos pelo SNAFU. Mas se entendermos que o SNAFU é como um buraco inevitável presente em todas as transmissões de informação que envolvem hierarquias, chegaremos facilmente a conclusão que quanto mais transmissões – e dependência delas -, mais o SNAFU se agiganta, não à toa ele é comparado a uma progressão geométrica. Mas o principal motivo para essa ocorrência é o Segredo, um componente primordial nas atividades dessas organizações. O psicólogo Timothy Leary assim escreveu:

"O Segredo é o pecado original, o crime básico. O propósito da vida é receber, sintetizar e transmitir energia. A fusão comunicativa é o objetivo da vida. O segredo, bloqueando o sinal, escondendo, cobrindo a luz, é motivado pela vergonha e pelo medo. Como acontece com frequência, a ala direita está meio errada, pelas razões erradas. Eles dizem diretamente: se você não fez nada de errado, não deve ter medo de ser vigiado. Exatamente, mas a lógica segue o caminho inverso também, na medida que as fichas do FBI, os dossiês da CIA, as conversações da Casa Branca deveriam estar, todas, à disposição do público".

O Segredo é um vetor problemático que bloqueia a comunicação muito mais do que a imposição hierárquica. O problema começa com as próprias funções das polícias secretas. Como é um lugar onde estão contidos segredos valiosos, elas são alvos de tentativas de infiltração de revolucionários e criminosos, e não pense que isso é absurdamente raro. Panteras Negras, Weather Underground, CrimethInc, e muitos outros grupos revolucionários, antigos e modernos, conseguiram com algum grau de sucesso, infiltrarem integrantes seus dentro de órgãos policiais, como o FBI. A Máfia está no mesmo barco, não pense que Os Infiltrados é somente uma epopéia sangrenta que não espelha situações reais recorrentes no mundo todo. E se grupos clandestinos conseguem fazer essa infiltração, serviços secretos estrangeiros o fazem com muito mais profundidade, às vezes transformando americanos em agentes duplos. Robert Hanssen e Aldrich Ames são apenas exemplos mais ou menos recentes de como a espionagem continua particularmente ativa, mesmo após o fim da Guerra Fria. Os dois foram considerados os maiores agentes duplos da história americana, e os atos de Hanssen chegaram a ser descritos como "o maior desastre da história da inteligência secreta dos Estados Unidos". Então, os serviços de espionagem precisam não somente espionar os outros, mas espionar suas próprias fileiras, o que torna o departamento de contra-inteligência dessas organizações tão importante quanto qualquer outro… ou muito mais, já que seus integrantes podem investigar qualquer um a qualquer hora, como vimos em Os Infiltrados também. Isso resulta em paranóia abissal, já que não se pode dar ao luxo de presunção de inocência quando se pisa numa lama de mentiras e traições. Na cabeça de um espião, efetivamente todos os integrantes de sua organização podem ser agentes duplos, e isso gera Caos informativo.

 

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Um outro gerador de SNAFU é o poder que essas organizações possuem. O FBI, a Abin, ou o FSB não são como um posto de saúde ou uma escola secundária, que podem ser largados de lado; as informações nas mãos desses órgãos exigem que sejam vigiados, e aí começam os problemas. Uma polícia secreta, para funcionar "direito", deve estar acima da lei, por isso possui fichas de todos os políticos ou governantes, independente das posições que ocupem, e isso os torna amedrontadores para os que estão de fora. Quando Stalin morreu, em 1953, uma luta foi iniciada entre os possíveis sucessores dele. De um lado os políticos Georgy Malenkov e Nikita Kruschev, e do outro o cão de guarda faminto Lavrenti Beria, chefe do NKVD, sigla antecessora do KGB. Os dois primeiros eram inimigos de longa data, mas não pensaram duas vezes ao se unirem e iniciarem uma série de atos que culminou com a prisão, tortura e execução de Beria, levada a cabo pessoalmente pelo Marechal Ivan Konev. O próprio Stalin, em sua conhecida fúria paranóica, havia sido responsável pelo assassinato de três chefes da Segurança do Estado durante seu regime. O velho bigodudo georgiano não deve ter colocado Beria para ocupar o posto à toa, histórias contam que ele estuprava as mulheres de seus próprios subalternos.

Mas não pense que somente Estados fortemente policiais contam com problemas como esse em relação a seus serviços de espionagem. No auge do Caso Watergate, Nixon falou chorosamente: "Bem, [J. Edgar] Hoover era bom, ele teria ido à luta. É isso mesmo. Ele teria desafiado um certo número de pessoas. As teria assustado mortalmente. Ele possui ficheiros de toda a gente". É justamente esse poder que torna os chefes de polícia secreta tão poderosos, e alvo de fortes suspeitas pelos governantes. A forma de lidar com isso varia. Os EUA criam uma espécie de hierarquia da atividade secreta, ao colocar a Agência de Segurança Nacional (NSA) como uma controladora informal da CIA e do FBI. Os soviéticos/russos optaram por uma solução mais elegante e ancestral: colocaram duas agências em pé de igualdade e deixa o ringue pegar fogo, dificilmente dois lutadores vão se unir para dar uma surra em seu treinador. Por isso na União Soviética existia (e ainda existe) o MVD, o KGB, o Controle do Povo, a GRU, e vários outros. Com os serviços ocupados em brigarem uns contra os outros, a liderança se sentia parcialmente segura. Na época da ditadura comunista era o próprio Politburo – o mais alto conselho do antigo Partido Comunista da União Soviética – que controlava todos esses serviços, mas após a queda do poder dos sovietes, o cargo foi ocupado pela parlamentar Comissão de Atividades de Segurança, que era toda formada por ex-agentes da KGB. Não demorou para uma era de chantagens, Estado controlando o crime organizado e outras maluquices se agigantar.

O princípio por trás desse erro é justamente o contido na frase clássica de Watchmen: "Quem vigiará os vigilantes?". Sempre que se estabelece um serviço com tal poder investigativo, um outro precisa ser criado para controlá-lo, e aí todos que refletiram sobre a frase da HQ mais famosa de Alan Moore chegaram a um retorno infinito insolúvel. Se o governo americano criasse uma agência para controlar a NSA, uma outra precisaria ser criada para controlar a controladora… e creio que vocês entenderam onde estou querendo chegar, eles iriam se deparar eternamente com a equação n + 1, sendo N o número de agências já criadas e que precisam ser vigiadas. E linkando as questões anteriores: todas essas agências são passivas de infiltrações de subversivos internos e serviços secretos estrangeiros. O resultado desse coquetel paranóico se ele for levado ao seu extremo é uma situação como a vivida na Romênia sob o regime de Nicolae Ceausescu, em que quase 1/5 de sua população era composta de delatores profissionais, que recebiam dinheiro do governo para vigiar seus vizinhos e familiares. No fim das contas, ninguém tem segurança de nada. A paranóia aumenta ainda mais quando se descobre que qualquer órgão governamental, prédio, carro, site, ou similar, pode ser uma mera fachada para uma operação da polícia secreta. Na União Soviética existia uma divisão acerca de quais organizações seriam controladas por quem. A Intourist (empresa de Turismo), os consulados e empresas de comunicação eram ramificações do KGB; enquanto a Aeroflot (empresa de aviação civil), os adidos militares, e empresas de transporte eram propriedade da GRU (serviço de espionagem militar). Em outras palavras: além de um vizinho seu ter a possibilidade de ser um delator a serviço do governo, o mesmo ocorria com qualquer funcionário estatal. Mas não pense que essa é uma via de mão única. Como mostramos, os espiões têm sua paranóia estendida ao limite graças ao fato de ter a possibilidade de lidar com traidores em qualquer parte, além da possibilidade de sua mulher, sua esposa, ou seu motorista ser um agente da contra-inteligência ou um agente duplo estrangeiro. Situações como essas acabam criando uma série de doentes clínicos, ou pessoas num fio de navalha. Para se ter uma idéia, a principal diversão dos espiões é tecer teorias da conspiração ultra-elaboradas, que envolvam toda a amplitude de dados que possuem.

 

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Abin: “Desvendando sorrateiros”, desde 1999

À essa altura, uma outra questão pode ser levantada: as camadas mais intelectuais e contestadoras de uma sociedade naturalmente serão contra a manutenção de órgãos de informação, e elas serão capazes de influenciar parte da opinião pública, o que acaba fazendo com que o governo aumente o poderio da polícia porque está mais desconfiado do povo, o que será condenado pelas camadas sofisticadas da sociedade… o que gera outro Regresso Infinito rumo a um estado policial autoritário. Nem o Brasil está de fora de uma situação assim. Como se sabe, o país possui a Agência Brasileira de Inteligência, uma herdeira direta do Serviço Nacional de Informações, que tinha contato com americanos e participava de grupos nada admiráveis como a Operação Condor. Ajuda o fato da agência ter atribuições não muito claras, como "investigar ameaças reais e potenciais, bem como identificar oportunidades de interesse da sociedade e do Estado brasileiro, e defender o estado democrático de direito e a soberania nacional". Ou: "desvendar o sorrateiro", como clama o hino oficial da Abin.

Existe ainda outro atributo dos serviços secretos que aumentam (e MUITO) o fator SNAFU presente nesse tipo de atividade: a produção de informações falsas. Ou seja, além de coletar e processar informações, procurar traidores entre suas fileiras (e infiltrar agentes no estrangeiro e em grupos subversivos), um serviço secreto ainda deliberadamente espalha informações falsas, a chamada desinformação. Neste ponto, a Realidade como entidade objetiva igual um tijolo monolítico se tornou um mito, ou uma imensa piada dentro das regras do jogo das atividades secretas.

Imagine as provas "oficiais" da existência de OVNIs. Depoimentos de ex-militares, cientistas estatais que admitem que viram OVNI, soldados recolhendo artefatos em Varginha, etc. Tudo isso leva a crer que existem indícios da participação do governo no ocultamento de informações que poderiam levar o povo a saber da existência definitiva de vida extraterrestre. Mas se enquadrarmos a possibilidade de um filtro de desinformação de algum serviço secreto estar atuando na questão, chegaremos a algumas possibilidades interessantes. O caso Varginha poderia ser o Centro de Inteligência do Exército Brasileiro (CIE) plantando indícios de desinformação para todos acharem que o caso diz respeito a OVNIs, quando na verdade poderia dizer respeito a uma arma super secreta em produção. Talvez seja isso, talvez ninguém saiba da resposta completa, que se perdeu destruída pelo SNAFU em alguma escala da comunicação organizacional do CIE.

E agências secretas diferentes podem ter políticas de informação/desinformação diferentes. Num caso como Varginha (mera suposição aqui, nem conheço os detalhes do caso), um agente secreto do Exército pode ter chegado ao local para colher depoimentos de testemunhas e iniciar uma campanha para fazer todos acreditarem que o artefato-suposto-OVNI é na verdade um balão meteorológico (a explicação clássica de vários serviços secretos pelo mundo). É a política do Exército tentar esconder isso, e o agente só a está seguindo. Por outro lado, um agente da Abin pode ter chegado ao local para plantar evidências que o que estava lá era realmente um disco voador, a função dele ali é desinformar, desestabilizar. Todos esses aspectos fazem parte do Jogo de Realidade rotineiro de agentes secretos. Imagine uma situação extrema: um agente russo vai para os EUA, se torna cidadão americano, entra para o serviço secreto americano, e uma de suas missões é desinformar e tentar coletar dados sobre os serviços secretos russos… a qual ele originalmente faz parte, em uma camada de identidade que talvez já tenha sido psicologicamente perdida. Se ele não tiver um pouco de senso de humor e um preparo neurológico intenso, é possível que tenha um colapso mental em não muito tempo. É como Boy fala para Jack Frost em Os Invisíveis Vol.1, edição 5: "Não se preocupe, é melhor ter um senso de humor quanto a isso [nosso inimigos]. Algumas pessoas se perdem completamente. Temos agentes lá fora que nem lembram que são Invisíveis. Estamos falando de ultra-paranóia. Essas pessoas estão trabalhando no limiar da realidade, Jack. Histórias falsas dentro de histórias falsas, como caixas chinesas".

 

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Há poucos anos, uma nova camada nesse jogo de múltiplas regressões infinitas foi acrescentada: o Wikileaks. As atividades secretas estão para a sociedade, como a lama está para a terra. Uma é clara e firme, a outra é suja, escura, do tipo que gruda e sem forma. Mesmo as maiores atrocidades desses seres, dificilmente saíam da lama dos segredos, alcançando a opinião pública. Isso dava uma segurança extra aos agentes secretos, graças aos esforços do próprio governo para esconder os crimes dos piores cães a seu serviço. O mais trágico para um espião é ser descoberto pelo povo, e não pelo inimigo. Por isso, em 2003, quando quis punir o ex-diplomata Joseph Wilson por denunciar que o Níger jamais vendeu urânio ao Iraque, a administração Bush – através de Dick Cheney – fez questão de expor a identidade de sua mulher e agente da CIA, Valerie Plame Wilson, através do jornalista-fantoche Robert Novak. Expor um espião é a pior vergonha que ele pode sofrer. Trocas de espiões são comuns, e os dois países envolvidos nelas não têm qualquer intenção de perder um dos seus. É como a velha frase "O que rola em Vegas, fica em Vegas". É uma omertà do segredo, só os lamacentos e pantanosos devem ser envolvidos.

O Wikileaks é uma inversão dramática, e um enorme rombo na segurança que esses serviços auto-impunham-se. Em dezembro do ano passado, num post sobre o Wikileaks, escrevi um esboço do que pensava a respeito:

Uma questão interessante é de fundo psicológico: o Wikileaks acrescentou uma camada de paranóia pessoal em pessoas no limite da paranóia, que são os operadores de inteligência e segurança do Estado. Gente desse tipo tem duas funções: espionar e descobrir espiões [e espalhar informações falsas, como mostrei aqui]. Eles sabem que mesmo que um serviço secreto inimigo descubra informações dessa natureza, elas jamais chegarão ao público, faz parte do jogo do segredo de Estado.

O Wikileaks é como um olho público sobre esse Mundo dos Segredos, e o pior pesadelo dos que jogam esse jogo é justamente ter suas identidades reveladas e atividades mostradas ao público comum. Os militares que participaram da Chacina Colateral não tinham medo de seus superiores, mas tinham medo dos olhos do público, que estão inseridos em outros jogos de realidade. Ademais, o Wikileaks não trabalha com incentivos comuns para receber informações dos outros (tipo dinheiro e mulheres, como acontece no FSB, por exemplo), mas sim com um componente muito mais poderoso e instável: ideologia.

Soldados que antes viam abusos por parte de seus colegas só tinham como opção relatar a seus superiores, que muito provavelmente diriam que “são coisas da guerra”. Agora eles podem gravar tudo, mandar pro Wikileaks e ter grandes chances de nunca serem identificados, e é isso que assusta os militares e o povo da segurança do Estado. O Wikileaks revelou que as estruturas toda-poderosas deles têm um ponto fraco: o material humano paranóico e insatisfeito.

O Wikileaks – e seus similares, falo do modelo logístico que ele criou e expandiu, não especificamente do site – é um contra-SNAFU elevado a oitava potência de forma poética. Pela primeira vez ele não retroalimenta a estrutura dominante, mas sim o maior prejudicado com o SNAFU e a política de segredos: a inteligência de uma população. Isso, ou ele é apenas um jogo desinformacional da NSA para plantar evidências que estão vazando informações, quando na verdade está tudo bem, utilizando a mim como agente disseminador dessas loucuras e ignorando que na verdade sou um espião russo disfarçado usando o Wikileaks e o NerDevils justamente para espalhar uma desinformação da desinformação.

 

[Texto inspirado no panfleto subversivo As Leis Celinianas, escrito por Hagbard Celine, anarquista discordiano louco e personagem central da trilogia Illuminatus!, de Robert Anton Wilson]

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Comentários

  • Alliah  On 11/04/2011 at 13:43

    FNORD.

  • Guga  On 19/04/2011 at 14:49

    Excelente texto. Dificilmente me ocupo em comentar artigos que leio na net, mas esse realmente acrescentou algo em minha maneira de ver o mundo. Следите за хорошую работу!

  • vander  On 19/04/2011 at 17:34

    Porra, interessante demais isso ai, paranoia é a lei.

  • Gilmarzinho  On 19/04/2011 at 20:25

    Espetáculo!

    Fazia tempos que eu não parava para ler na Internet e me aparece este texto teu de surpresa.

    Valeu!

    Só te confundiu um pouco com a definição de OVNI… ou estava nos “desinformando” também, sei lá. hauhauhuahuahuhau

    Té.

  • Iury BAS  On 19/04/2011 at 21:44

    Porém, devemos aqui considerar também que o próprio Wikileaks pode passar informações que já foram distorcidas. Ora, se os documentos vazados pelo Wikileaks fazem parte das informações pertencentes ao topo da hierarquia (creio que maioria dos documentos se enquadram neste fato), tais informações já podem ter efeitos de omissão causadas pelo efeito SNAFU. Claro que isto não se aplica aos casos diretos, onde as informações saem da base diretamente para o Wikileaks como, por exemplo, no caso de vídeos de soldados enviados onde é mostrado a execução de inocentes.

    Belo quebra-cabeça. Bem complicado. Ótimo texto, cara. É muito bom ter conteúdo tão bom assim em português

  • ana paula ristof  On 30/08/2011 at 0:08

    oi kero participar da abin eu tenho disposiçao

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