Resenha: Ghost Dog – The Way of the Samurai

As vezes eu gostaria de saber se alguém mais se lembra do momento que viu um filme, o local, o clima, a companhia – ou falta dela – dia da semana, horário, isso é algo muito freqüente comigo, parte da experiência em aproveitar o filme se encontra fora da “fita”, e sim no local, na sua acomodação e pré-disposição. Foi num final de tarde de domingo, lá nos meados de agosto de 2009, quando eu assistia na sala da minha casa o Telecine Cult, foi nesta atmosfera que eu pude apreciar Ghost Dog: The Way of the Samurai, dirigido e roteirizado pelo excêntrico Jim Jarmusch, o filme narra a trajetória do personagem homônimo ao titulo, um assassino de contrato afro-americano, interpretado pelo Forest Whitaker, em uma paisagem urbana e desolada que é um misto de Nova Jersey e Michigan, típica da cultura dos anos noventa, o personagem molda sua vida em cima da filosofia do Hagakure, um livro escrito pelo samurai Yamamoto Tsunetomo, onde os preceitos do Bushidô são expressos.

“Live by the code. Die by the code.”

Jarmusch adapta, em um mashup nada “Tarantinesco” o submundo do crime americano através de várias óticas, sejam elas artísticas, remetendo a estilos de filmes ou até mesmo da antropologia, mostrando gangues uniformizadas, mafiosos de meia idade, imigrantes, whitetrash. Nela, a relação de vassalagem de Ghost Dog com os mafiosos é explorada através de uma escalada de eventos e intrigas.

É legal observar as conseqüências deste intercambio do submundo, de forma tão explicita, um dos personagens mais marcantes, o mafioso quarentão Sonny Valério (interpretado pelo falecido Cliff Gorman) comanda um decrépito restaurante chinês e aprecia as rimas do Public Enemy.

O argumento sincrético do filme fica claro na trilha sonora, na música “Samurai Showdown”, o backvocal do rapper RZA – que faz uma ponta no filme – fala “Rashomon! Rashomon!”

Para aqueles que não sabem, Rashomon foi um conto escrito pelo japonês Akutagawa, onde um serviçal e uma velha discutem a moralidade ambígua que representa o ato de roubar para sobreviver, demonstrando assim um paralelo com a cultura marginal dos Estados Unidos, ainda traumatizada pelas revoltas populares de Los Angeles em 1992.

Outros personagens marcantes incluem o anônimo vendedor de sorvete, haitiano, mesmo sem conseguir formar uma sentença em inglês decente, conserva fortes laços de amizades c/ Ghost Dog.

Em outro momento, questiona-se a relação de alcunhas e nomes de guerra das gangues americanas e dos indígenas do passado e em diversos momentos do filme, aparecem atores trajando as cores dos Bloods e dos Crips, duas das maiores gangues que assolaram os Estados Unidos na década de noventa.

Segue a transcrição hilária do diálogo do filme (em inglês):

Louie: Ghost Dog.
Sonny Valerio: What?
Louie: Ghost Dog.
Sonny Valerio: Ghost Dog?
Joe Rags: He said Ghost Dog.
Louie: Yeah. He calls himself Ghost Dog. I don’t know, a lot of these Black guys today, these gangster-type guys, they make up names like that.
Ray Vargo: Is that true?
Sonny Valerio: Sure. He means like the rappers, you know, All the rappers, they got names like that: Snoop Doggy Dogg, Ice Cube, Q-Tip, Method Man. My favorite was always Flavor Flav from Public Enemy. You got the funky fresh fly flavor.
Ray Vargo: I don’t know about that, but it makes me think of Indians. They got name like, uhh, Red Cloud, Crazy Horse, Running Bear, Black Elk.
Sonny Valerio: Yeah. That kind of shit.
Joe Rags: Yeah. Indians, Niggers, Same thing.

Mostrando diversos universos interagindo, é difícil assistir Ghost Dog e não se lembrar de clássicos do Akira Kurosawa, como Kagemusha, Ran e Shichinin no Samurai ou até mesmo o cinema Blaxploitation no auge do Kung Fu de Bruce Lee na década de setenta.

O filme é rico, e não se preocupa em apressar este fato, filmagens panorâmicas intercalam com interlúdios envolvendo citações do Hagakure, e pra quem espera cenas carregadas de ação, como nas histórias de Quentin Tarantino, a estética do filme é outra proposta, serena e meticulosa, mas ao mesmo tempo, impactante no momento certo, como caminho do samurai…

“The end is important in all things.”

 

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