Resenha: Lobão 50 anos a mil

O primeiro contato que tive com a colossal obra musical erigida por Lobão ao longo de seus mais de 30 anos de carreira foi no segundo ano do ensino médio, através de um colega da escola. Por volta dessa época, eu ouvia poucas bandas e apenas coisas estrangeiras: Led Zeppelin, System of a Down, Nirvana, Pink Floyd e etc., então não via com bons olhos a produção local. Talvez porque como sou nordestino o forró sempre foi algo maciço nas rádios e nas festas, enquanto na TV só via o lixo musical produzido em todo território nacional.

Esse colega – que depois se tornaria um grande amigo no terceiro ano -, se chama Márcio e desde os seus 15-6 anos já era uma espécie de Neal Cassady! Um verdadeiro Adônis de Denver – ao menos em pose -, como comentava Allen Ginsberg no poema “Uivo”. Ele gostava de coisas estranhas, um dia me botou pra ouvir um cara que a princípio achei totalmente desafinado, mas que no fim da música havia me deixado completamente embasbacado! A letra era de amor e mesmo assim forte, pulsante, sincera, violenta, não sei direito o quê, um turbilhão de sensações passaram pelo meu corpo, e entendi que não era desafinação, era o modo próprio do cara cantar! Eu havia sido apresentado ao Lobão, com a música “Essa noite, não”.

Depois disso me tornei um fã e admirador de toda a discografia do Lobão e acompanhava todas a polêmicas que ele causava no mainstream brasileiro. Recentemente ele lançou sua auto-biografia, num volume imenso com mais de 500 páginas! É uma leitura interessante pra quem quer entender o cenário do rock progressivo brasileiro no fim dos anos 70, ver como eram os bastidores do rock-pop nacional e principalmente, é claro,  entender a versão do Lobão sobre a influência dos acasos da vida na formação das suas músicas.

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Sempre vi Lobão como um punk nato, mesmo com seus discos de samba-rock que eu já havia escutado. Pois bem, descubro na biografia que Lobão na infância era caretíssimo e manteve isso até mais ou menos uns 15-6 anos! E outra, ele era um proto-hippie que fazia uns progressivos legais numa banda chamada Vímana, composta pelo Ritchie (garoto “menina-veneno” pra quem não sabe), Lulu Santos e no teclado e baixo ex-integrantes do módulo 1000. Além disso o tecladista Patrick Moraz (ex-Yes, uma das bandas mais conhecidas da época) que quis se juntar a banda em projetos que acabaram levando a dissolução do grupo e o retorno de Moraz à Europa.

Em outra época eu ficaria assustado com os rumos que Lulu Santos e Ritchie tomaram na música, no entanto não tenho mais 15 anos e sei que as pessoas podem mudar completamente. Foi este o caso… Lobão na biografia diz que ficava impressionado com a velocidade e técnica de Lulu Santos na guitarra, quem diria isso dele nos dias de hoje? Aliás, a 10 anos atrás enquanto rebolava na TV? Pois é.

Ficamos sabendo no livro que Lobão fez sua mãe fumar maconha quando estava em depressão… que bateu com um violão no pai o deixando completamente ensangüentado, porque o pai o estava prendendo, lhe deu um soco na cara e queria arrumar mais confusão. Esse episódio é um típico ritual de passagem (como ele mesmo diz no livro), porque o pai está puto com o filho por ele não ter se tornado aquilo que ele imaginava, e o filho puto com o pai por ter maltratado sua mãe (ele a estava traindo), sua irmã e a si mesmo.O pai o expulsou de casa, ele só entrou lá pra pegar os violões… então seu pai o surpreende quando saia do banho lhe dando um soco covarde. Lobão ainda tem tempo de escolher entre o violão com cordas de aço ou o de nylon, quebrando um deles (o que menos lhe interessava musicalmente) no pai até deixá-lo acabado no chão. Talvez vendo assim pareça algo absurdo, mas lendo na biografia é como uma cena passando na nossa frente e entendemos mais ou menos porque ele fez aquilo, se não fizesse, ficaria preso em casa psicologicamente frágil para sempre. Seria um “virgem existencial”, como o próprio Lobão costuma dizer.

A biografia é cheia de fatos interessantíssimos sobre a formação do cenário de pop-rock BR. Passam pelas descrições do Lobão: Ultraje a Rigor, Cazuza, Bnegão, Gang 90, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, e ainda o confronto entre a galera de Brasília e a do Rio, enfim, mostra muita coisa sobre o desenvolvimento desse tipo de música por aqui. Os festivais e shows que viu ou participou junto com O Terço, Os Mutantes, Raul Seixas, do próprio Vímana, Módulo Mil, Julio Barroso entre outros. Ah! Só pra titulo de nota: o rock progressivo foi assassinado pela força do punk, ao menos é assim que descreve Lobão e desta maneira está justificado porque o Vímana acabou decaindo… o ex do Yes voltou da Inglaterra desolado: Sex Pistols e Ramones haviam demolido o rock rocócó e substituíram pelo punk.

O próprio Lobão mudou muito, começou com um pop-rock descarado, passou por uma fase mais pesada que estava atrelada diretamente a sua prisão lá pela segunda metade dos anos 80. Foi nesta fase que produziu o “Vida Bandida”, seu disco de maior venda! Na época ele havia sido preso de forma injusta por carregar quantidades irrisórias de maconha e cocaína. Foi este fato também que o elevou no imaginário popular a um estereotipo que existe até hoje: Lobão é drogado, homosexual aidético e imbecil. Minha mãe mesmo ao me ver lendo uma biografia com a cara do Lobão estampado na capa disse: TÚ TÁ LENDO ESSE DROGADO! RUM UM! (mal sabe ela que leio caras mais barras pesados que o Lobitcho)! Depois da prisão Lobão ficou amigo de traficantes nos morros do RJ, visitava muito as áreas e tal, até tentou organizar uma invasão do morro ao Palácio da Guanabara, mas os traficantes estavam muito divididos, em rixas internas, então amarelaram. Tem uma cena fantástica no livro, que é quando os policiais entram na favela e o Lobão estava tocando um sambinha com os chefes do tráfico por lá, rola bala pra tudo que é lado e alguém lhe dá uma pistola, Lobão sai atirando pra tudo que é lado e se esconde dentro de uma casa de uma conhecida. Ele disse que foi uma das maiores sensações da sua vida, mas que depois ponderou e viu que ele era artista e não traficante… então abandonou aquela prática de sentar em mesa com traficante e etc. Claro que ele também fala que tinha policial que chegava no morro e faltava pedir bença pro líder do tráfico… isso é de praxe.

Um disco que me marcou muito foi “Sob o sol de parador”, e Lobão o gravou nos EUA enquanto sob habeas corpus fugiu de uma possível revogação do privilegio! No livro tem explicado de forma mais clara porque ele fugiu. Em suma, estavam o julgando pela imagem de drogado e inconseqüente que foi criada em cima de seu nome e era debatida nos jornais, e não pelas suas atitudes em si. Consideravam que ele era um mal exemplo pra juventude e deveria ser punido como exemplo. Lobão era réu primário e as quantidades de drogas apreendidas o enquadravam em consumo e não em tráfico, mas isso não impediu que fosse preso por uns 3 meses, com a pena real de 1 ano. Esse disco tem uma levada punk pesada e umas letras politizadas pra caralho! Era um outro Lobão, não pior ou melhor que os da fase posterior, apenas diferente. Nas fases pós-rock in rio, ele se preocuparia mais com questões de transcendência, poética e de amor, e não algo exatamente social, se voltaria para o humano, pro individuo e não mais pro coletivo.

Sob o sol de parador pra mim é da mesma qualidade que O rock errou (disco que chamou atenção da crítica e o elevou ao nível de um roqueiro tão bom quanto os de fora do Brasil) e Vida bandida, mesmo que cada um bem diferente do outro. Além disso existe o disco de samba-rock Cuidado que sinceramente, nunca consegui ouvir completo de tão chato que achei, junto com O inferno é fogo… já o samba-rock de Nostalgia da Modernidade é de outro nível. É complexo, é tocante, é simplista e universalmente humano, tudo de uma vez só, é um dos discos mais fodas da fase pós-rock in rio do Lobão.

No Rock In Rio I, chamaram Lobão pra tocar, mas semanas depois cancelaram o contrato sem lhe dizer o motivo. Okay. Na segunda edição do evento Lobão já era um “roqueiro” bem conhecido e polêmico, comia criancinhas… dizia o Diogo Mainard na Veja de uma forma mais polida. Então foi convidado e ele mesmo fez questão de se apresentar no dia do Heavy Metal! Pois bem, ele iria entrar com a bateria da mangueira e sabia que a galera shiita do metal ia ficar doida de raiva, por isso pediu um palco de uns 24 metros de altura… tudo combinado, acataram seu pedido e ele ensaiou no palco certinho. No dia do show haviam contratado em cima da hora o Judas Priest, que entrava de moto na apresentação, eles tocavam antes do Lobão e… o palco que havia sido montado a 24 metros foi reduzido a uns 7 metros (se não me engano ou eram 14), e era bem exprimido, um palquinho dentro do palcão e bem mais baixo! Quando Lobão viu aquilo já estava na hora da sua apresentação, sem dúvidas ele deve ter pensado “FUDEU”, mas resolveu entrar e tentar tocar, depois de brigar com todo mundo da organização. Pois bem, o resultado foi a galera jogando lata cheia de areia, moeda e o que tivesse por perto na banda:

É bom deixarmos claro, que pelo que mostram as imagens, havia um grupo maciço de pessoas que gostavam da apresentação do Lobão. No entanto a linha de frente era dessa galera que gostava de heavy metal mais do que do próprio cérebro ou alma, e fizeram essa cagada histórica!

Depois disso Lobão reviu suas atitudes completamente quanto a música, ele já não era um roqueiro no sentido tradicional do termo (estranho “rock” ser tradicional… mas não é? Se for levado ao pé da letra, como um certo estilo sonoro dentro de padrões, é algo tradicional, mas se for uma atitude de rejeição à cristalização/status quo (musical e/ou social), como Lobão sempre viu, pode ser algo profundamente fecundo por toda a nossa futura história! Como Lobão disse “ninguém nunca foi mais punk que William Burroughs!), depois disso caminharia mais pra uma experimentação com: samba/eletrônica/rap/MPB.

Sua música continuou fantástica, mesmo que de uma forma totalmente diversa a cada CD. Depois de uma paralização de 4 anos após o Rock In Rio ele volta a lutar pela sua carreira musical, lança CDs de forma independente, vendendo nas bancas. Lutou contra a industrial fonográfica que se aproveitava da falta de numerações dos CDs para lucrar ilegalmente e etc. Manteve sempre seu tom polêmico, embora mais maduro e indo de forma direta ao cerne das questões, não mais esperneando infantilmente como antes.

Uma coisa que me frustrou ao ler, foi não ver NENHUMA descrição das relações homossexuais que em outras situações ele já havia declarado que teve… principalmente com o Cazuza, que em um show no Maranhão (com áudio disponível em algum lugar na internet) ele falou que fez amor loucamente com o Cazuza depois de serem assaltados no seu próprio apartamento. E existem partes incoerentes, principalmente algumas datas, algo compreensível, pois a memória não é algo tão limpa/pura quando se imagina, ela é uma pequena devassa (pra não perder a piada do mês com a Sandy/ TUN TUN PÁ *bateria*) do tempo, escolhe para ficar apenas aquilo que não vá lhe prejudicar lá na frente.

Apesar de ser uma biografia quixotesca em volume e conteúdo, recomendo fortemente para aqueles que têm curiosidade ou paixão pela música brasileira ( ou só pelo Lobão mesmo, já que ele mete pau no rock descerebrado) e por uma personalidade de contestação radical! Lobão é um cara que se reinventou musicalmente a cada CD e vale a pena ser ouvido, tanto em música, quanto em questões mesmo intelectuais! O cara é foda.

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Comentários

  • Pinguim  On 03/03/2011 at 16:04

    Mais loko foi a parte do vídeo da Globo falando sobre os metaleiros MASUAHUSHAUSHUA

    • agrt  On 03/03/2011 at 16:50

      HASUOSASAHUASA FOI MÍTICO MESMO, ESSE PESSOAL DA GLOBO FALA MERDA PRA CARALHO

  • TsuNami KinG  On 03/03/2011 at 22:40

    Não sou fã da musica brasileira até 2000. (=.=) Mas o rock brasileiro sempre teve participação nos movimentos e decisões importantes desse país, merece mais crédito do que certas bandas que tem por aí…
    Bem, até onde eu li é uma ótima resenha Agrt, falta eu terminar de ler um pedacinho ali (^^)

    • agrt  On 04/03/2011 at 16:19

      Já eu não curto muita coisa pós-90 no Brasil. Dessa época pra frente só ouço mesmo o Lobão, Dazaranha, Pato Fu, Matanza, Velhas Virgens e Jupiter Maçã.
      A década de 80 eu ouço MUITO Barão Vermelho, Cazuza, Lobão, Ira!, Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Patrulha do Espaço, Belchior, Rádio Taxi, Os Novos Baianos, etc etc até mesmo RPM tem coisa boa. 70 então… coisa pra porra, desde Módulo 1000 e Som Imaginário (progressivo br) aos tropicalistas: Tom Zé, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé, Os Mutantes, Rita Lee, entre outros que não consigo lembrar agora.
      Não ouço essas bandas porque “são brasileiras”. Mas porque são boas mesmo! Não levo em conta a nacionalidade do grupo/cantor, e sim a proposta que ele quer passar e se ele consegue atingir esta proposta, e muita banda brasileira é foda em atingir aquele nível de non-sense e sensibilidade que propõe ao mesmo tempo!

  • Alessio Esteves  On 11/03/2011 at 15:55

    Nussa, a música do Lobão mais marcante pra mim também é “Essa noite não. Na época da minha facul tive uma namorada com fortes tendências suicidas e meio que era nosso mantra…

    Não li o livro, mas eu sei o que é sair na mão com o próprio pai pra proteger alguém da família e apesar de tensa, a situação não é tão absurda não.

    No mais, apesar de não acompanhar muito a carreira musical dele, sempre acompanhei sua trajetória “política” e admiro pacas o fato dele dizer o que pensa mesmo estando “dentro do sistema”, já que ele teve programa na MTV, recentemente deu entrevista pra Joven Pan e como ele mesmo diz, “bate o pau na mesa”.

  • leonardo  On 28/04/2012 at 18:08

    bem tenho 16 anos e é obvio não nasci no berço explêndido da música brasileira (anos final 70 começo 80) mais tenho pais com ótimo gosto musical e eles me ensinaram o q é bom e eles me apresentaram cazuza,zero,herois da resistência,legião urbana,barão vermelho etc. meu tio me influenciou muito em músicas,cantores,bandas mais atuais como exemplo: lenine, jorge vercílo,flávio venturine,marisa monte,djavan,aerosmith,kings of leon,etc.no meu tempo poucas bandas cantores se salvam por exemplo: oasis,pitty,(kings of leon é do meu tempo mais foi meu tio que me apresentou acho que são esses atualmente muitos lixos aparecem na mídia falando que são cantores por exemplo : michel teló,justin bieber,cine,restart,rebeldes,luan santana,fresno,nx zero;sertanejos universitários ex:fernando e sorocaba,joão bosco e vínicius etc…..mais de quem eu sou fã mesmo pracaz é o grande lobão fui apresentado a sua voz,sua música me chama mais a música q eu mais adoro dele é a vida é doce, e vou te levar muito massa valeu.(lobão você é a razão pra me deixar alegre ,feliz,bravo,motivado)

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