Japão: Um pequeno país covarde

Os leitores do blog puderam acompanhar nos últimos meses, algumas postagens sobre a lei 156, desde o início, quando escutávamos rumores na web sobre o surgimento dela, passando pelos seus efeitos iniciais e até o controverso histórico de seu maior defensor, o governador da província de Tóquio, Shintaro Ishihara.

Porém, o mais importante ainda não foi claramente explorado nessa série de posts, o que realmente inflamou essa escalada de censura e retrocesso artístico? O que motivou os políticos conservadores de um país como o Japão a escolherem justo o seu maior maior bem cultural pra exportação como bode expiatório?

Sim, crianças inquietadas e revoltas, é o bom e velho cenário político que conflagrou o início de uma era de prata na indústria de animação japonesa, uma prata fosca, fajuta e deselegante. Mediante a frágil e instável economia japonesa, outrora conhecida como “a bolha”, investidores e bancários japoneses não agüentaram o peso de sua vizinha gigante, a China, e perderam sua posição como uma das potências econômicas do planeta.

Acontece que Shintaro Ishihara, do partido Liberal Democrata Japonês, é um dos poucos políticos que tem o “guts” necessário para falar sobre a nação rival em rede nacional e nos palanques políticos, na tradição do cenário político de direita, “ataques” as nações rivais não são mais comuns e explícitos do que imaginamos!

Militantes de direita são conhecidos como “Uyoku Dantai”, e entre as atividades, podemos encontrar vans c/ caixas de som, transmitindo propaganda nacionalista, passando por manifestações organizadas, websites e mídia impressa, em suas passeatas é normal encontrar a frase “inimizade as nações estrangeiras” nas bandeiras e cartazes que acompanham os manifestantes, entre suas atividades recentes, houve as tentativas de lobby e protesto durante a exibição do documentário “A Cova”, sobre o massacre de golfinhos que ocorre todos os anos na costa japonesa.

O mais contraditório é que embora animes e mangás estejam sendo considerados pelos órgãos políticos como “nocivos” – e conseqüentemente, censurados – as crianças, a constituição japonesa defende o direito de expressão, mesmo que seja de grupos xenofóbicos e nacionalistas como os do Uyoku Dantai.

Outro fato, que levou a demagogia do discurso de Ishihara está no fato que com o passar dos anos, o PLDJ, o partido mais tradicional da política japonesa, tem enfraquecido sua representação parlamentar.

Quando confrontado contra os fatos, Ishihara alega que a censura justificada pela Lei 156 é oriunda da “pressão internacional”, o que, aparentemente aliena toda uma legislação doméstica.

A dita “pressão internacional”, aparentemente surgiu no incidente quando o eroge Rapelay apareceu a venda no ocidente pelo site de compras pela internet Amazon.com, o que trouxe – com um sério viés sensacionalista – os holofotes da imprensa ocidental sobre esse gênero de games.

A questão foi resolvida em dias, sendo que a assessoria da Amazon.com alegou que se tratava de um erro do fornecedor, coisa que infelizmente, não impediu as inúmeras notícias em programas de baixo critério jornalístico e noticiários vagabundos. Tanta polêmica concernindo a “proteção” das mentes de nossa juventude que agora o Rapelay pode ser encontrado em qualquer camelô de esquina.

Mas vamos ser francos, a internet trouxe o cenário perfeito para que fãs da cultura pop japonesa se organizassem e agregasse fãs de animes, culinária, moda, literatura e, porque não, também eroges? Inclusive com grupos de subbers similares há aqueles que buscam codificar e legendar animes.

O que Ishihara e seus companheiros políticos precisavam então era de espaço na mídia, de oportunidade para falar, desenvolver canais com sua audiência de simpatizantes e, sem muito esforço, não aplacar a fúria de ONGs, famílias e políticos de outros países, a “pressão internacional” surgida por este incidente foi a oportunidade perfeita para a ocasião.

O discurso de Ishihara é legitimizado através de um controverso relatório emitido pela ECPAT (“End Child Prostitution, Child Pornography and Trafficking of Children for Sexual Purposes”), durante um congresso no Rio de Janeiro em 2008, onde generaliza que todos os animes/mangás retratam pornografia infantil.

A idéia de pornografia infantil vem do conceito de “moe”, que numa tradução muito literal, vem a significar “florescer”, o que pode ser empregado para descrever arquétipos de personagens pré- púberes. Quase sempre, animes/mangas “moes” são acompanhados de histórias envolvendo romances cômicos, relações super-protetivas, incesto (levando em conta a idéia de “imouto”, irmã mais nova), platônicas e/ou de tensão sexual.

Embora, em protesto ao autoritarismo da Lei 156, diversos estúdios de animação se retiraram do COMIKET de 2010, a idéia de “moe” é criticada internamente, grandes nomes como Hayao Miyazaki (dos estúdios Ghibli) e Naoko Takeuchi se manifestaram contra o crescimento deste conceito.

Mas chega a ser contraditório, pois no último ano, o Ministério das Relações Exteriores japonês iniciou uma campanha onde embaixadoras “kawaii” (meigas),  um grupo de jovens realizaram um tour pelo mundo, apresentando desenho, modas e outras “novidades,” comissão que inclusive já visitou países como França e Tailândia.

Para censurar os meios, e principalmente, expandir sua auto-propaganda, Ishihara se monta em cima de uma suposta decadência da juventude e grupos intelectuais/artísticos, sendo alguns intimamente relacionados com desenhistas da indústria de animes/mangás, como o Superflat e o Ero-guro, ambos munidos de um forte teor crítico perante a sociedade japonesa.
A idéia é que aos poucos, a lei abra espaço político para Ishihara e seus colaboradores, a mídia nativa do Japão realiza uma política de vistas grossas, ignorando o impacto de uma lei autocrática, que inclusive passa a influenciar a população, limando oportunidades de empregos para jovens que são identificados como “fãs” e prejudicando um importante setor da economia japonesa.

Inúmeros blogs, sites e perfis de redes sociais já tomaram partido nesta briga contra a política retrógrada de Ishihara, quanto a nós, Brasileiros, precisamos contribuir, ainda mais por nosso passado de repreensão política e intelectual, cuja cicatrizes machucam até hoje, e pela constante presença de políticos “defensores da moral”, que procuram realizar lobby para censurar games, HQs e filmes, como os senhores João Bosco Rabello e Eduardo Azeredo.

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Comentários

  • sapao318  On 28/02/2011 at 21:34

    É…uma hora essa onda de censura ferrenha vai causar problemas economicos tão grandes que muitas empresas terão que fechar!

    No CANADA onde o HENTAI foi banido….

    Editoras e mais de 5.000 pesoas simplesmente ficaram sem rumo…pois tudo que vinha do japão tanto para venda como material a ser traduzido era barrado nas alfandegas e nos correios!

    Mas acho que onegócio não vai ficar tão sériocomo no Canada e nos Eua! Eu espero!

    Abraços!!

  • Pinguim  On 28/02/2011 at 21:56

    ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ

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