Papo Rápido: A falha experiência democrática no Brasil e as manifestações populares no Oriente Médio

A família toda estava reunida na mesa de jantar, comendo a famigerada pizza da sexta-feira, televisão ligada, o Jornal Nacional da Globo entra no ar, discutimos as notícia que passavam, cada um com sua opinião borderline ao senso comum, como esperado, uma hora o âncora do jornal anuncia as manifestações políticas no Oriente Médio, em meio ao “debate” (entre aspas mesmo), alguém fala com um certo tom de deboche “até que outro ditador vem e assume o poder”.

Como se a nossa experiência democrática, com menos de uma década, tenha progredido tanto de lá pra cá, vide PMDB e seus políticos jurássicos.

Isso foi no mesmo dia que a polícia paulistana novamente entrou em confronto com estudantes contrários ao aumento da passagem no transporte público (agora o metrô),  até agora ainda não claramente justificado a população do município de São Paulo.

E pra piorar, os rumores de que Gilberto Kassab entrará para o partido citado acima, querido por todos nós, ameaçam se concretizar.

Embora exista uma multidão de dedos políticos nesta onda de manifestações, realizar vistas grossas para a panela de pressão econômica e social que tem conflagrado o Oriente Médio é uma idiotice sem tamanho, é um início saudável começar a conscientizar que monarquias plutocráticas que enriqueceram sob o dinheiro do petróleo não são boas para a população ou melhores do que fundamentalistas islâmicos, que toda aquela suntuosidade apresentada a nós como mera “curiosidade ocidental” não atinge sequer uma ínfima parcela da população.

Isto não é novidade, desde a visita de Reza Palahvi a Berlim, há mais de 40 anos atrás, a jornalista Ulrike Meinhof (sim, aquele Meinhof…) tentou denunciar através de um artigo o abismo social existente na região e a vista grossa por parte da imprensa ocidental.

Não foi apenas política que inquietou as mentes da população no Egito e na Tunísia, foi a fome, foi a inacessibilidade, foi o alto custo de vida, a ausência de luxo, a necessidade de se reintegrar a uma malha social global.

Mais importante do que especular se um novo ditador assumirá ou não, é perceber que o status quo foi alterado, a população, que a muitos já não é aquilo que “intelectuais” da classe média jocosamente chamam de “massa” se articulou e vivenciou uma das primeiras grandes experiências sociais e políticas da década, maldita inclusão digital, não?

E para nós, Brasileiros, mais especificadamente, paulistanos, somos terrorizados pelo silogismo que nos faz confundir “autoridade” e “funcionário público”, se, na questão do transporte público, muitos temem confrontar um “cobrador de ônibus” – um cargo, que, sinceramente, sequer deveria existir – quiçá teremos convicção para questionar uma força policial retrograda, fundamentada na violência e repreensão ou nossos órgãos políticos, que em um nascimento aberrante, trouxe do seio de uma ditadura uma democracia acéfala.

(cujo até hoje o STJ discute a constitucionalidade de seu aborto…)

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Comentários

  • agrt  On 19/02/2011 at 15:23

    Acho engraçado as pessoas aqui no Brasil nem saberem direito o que ta acontecendo no Oriente Médio (nem eu sei pra falar con segurança, admito) e ficarem com um temor de aquela região do Egito se tornar alvo um governo teocrático! Como se isso fosse motivo pra uma espécie de contra-revolução ou das “massas” não terem se mobilizado! Não que isso seja impossível, pode acontecer tanto quanto um governo teocratico tanto quanto um militar que pode se prolongar indefinidamente, mas… há sinais disso tanto quanto de que pode voltar a uma espécie de democracia capenga como as nossas.
    Sinceramente eu não vejo na mídia nada disso que ta acontecendo em São Paulo, deve ser algo minimamente falado, mas mesmo com o fator negativo de ter pessoas apanhando, tem que se ver que ao menos existe alguem resistindo ao ponto do estado ter de reprimir de forma direta. Esse uso da força fisica é o unico meio de deixar as pessoas mais revoltadas e aumentar numericamente os manifestantes, então se os manifestantes forem organizados e o governo continuar assim, em breve o efeito deveria ser o contrário, aumentar e não diminuir a confusão. Aqui onde moro ( Teresina – Piaui) todo ano o aumento de passagem tem até marcado no calendário… e o que nós estudantes fazemos? Vamos só uns 30-40 no meio do sol quente falar com o prefeiro marchando pelo centro da cidade, sei lá, não temos apoio nem dos estudantes e nem dos trabalhadores que são os mais prejudicados! Que aliás, ainda zombam de quem tá na manifestação. Além disso, o modo de manifestação é sem tática, sem agressividade estratégica, é do século XIX, não incomoda ninguém!
    Enfim, acho que no ocidente o meio que mais tem incomodado as autoridades é a internet. Talvez o potencial revolucionário desesperado pouco tenha sobrado no plano fisico, embora numa fase de manifestação seja o mais necessário.

    • synthzoid  On 19/02/2011 at 20:14

      Agrt, é algo realmente velado, ocorreram pelo menos uns três confrontos com as autoridades e isto teve pouca – ou nenhuma – relevância por parte da imprensa local. Muito se deve ao suposto fato da criminalidade em São Paulo ter reduzido na gestão Kassab.

      Cenários de abusos derivados da política higienista que o PSDB/DEM empregam na cidade são freqüentes, mas não chegam a atingir o âmago da população, estamos falando de um “combate” a favelados, homossexuais, tribos urbanas e artistas alternativos, entre outras minorias da malha social urbana.

      Outro fator forte pra essa vista grossa é que a população que apoia o Kassab é aquela que não pega transporte público, estamos falando de classe méida, que tem condições para manter um automóvel e um horário flexível para suportar o trânsito sufocado da cidade.

      Mas é triste, ver que de pouco em pouco, nada aparenta afetar, mas quando essa situação de conta gotas estourar, principalmente nas próximas gestões, não serão apenas grupos específicos que acabarão prejudicados.

    • synthzoid  On 19/02/2011 at 20:15

      As manifestações tiveram alguma articulação na web 2.0, convocações foram feitas pelo Twitter e principalmente Facebook, sem contar que os vídeos das passeatas – e o infeliz episódio de confronto com a polícia foram parar no Youtube.

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