Marcuse, Hegel e Freud: Revolução Radical e Sensibilidade.

Tenho falado muito de Marcuse no twitter e pelos corredores da Universidade. Geralmente a reação das pessoas é de total desconhecimento e alguma curiosidade para saber quem foi. Verbalmente admito, não consigo explicar, então escrevi esse texto longo, complicado e exaustivo para servir de introdução para “quem é Herbert Marcuse?”. Na verdade o que apresento aqui é a parcial de um projeto de livro sobre contracultura que estou escrevendo, e sabem lá os deuses quando vou terminar. Um dos capítulos é sobre Marcuse e sua influência na contracultura dos anos 60-70. Aliás, encontrei o Marcuse percorrendo um caminho que começou com Torquato Neto, passou por Leminski, poesia marginal, Ginsberg, Kerouac, maio de 68 e yuppies de Chicago, andando entre todos eles via sempre a áurea de um velho alemão sentado, e observando as coisas acontecerem, um dia o identifiquei, era Herbert Marcuse, o ideólogo da nova-esquerda, o senhor da Grande Recusa (não falarei dessa teoria aqui, embora ela esteja implícita nas teorias freudianas de Marcuse).

A tradição psicanalítica até a década de 60 foi principalmente conservadora, já que desde a década de 40 a psicanálise deixara de ser novidade e se estabeleceu como ferramenta de controle social pela direita política através de seu uso exclusivamente clínico. O uso da psicanálise como uma crítica radical à sociedade era marginalizada, nisto temos que Reich foi oficialmente excluído da Associação Psicanalítica Internacional e Roheim, embora permanecesse leal a Freud, só pôde dedicar-se ao seu criticismo radical na disciplina aliada Antropologia.

Entretanto, existia outro Freud que era esquecido pela psicanálise estabelecida unicamente como tratamento clínico Era o Freud que alçava vôos meta-históricos em busca da origem da repressão do homem por outro homem e sobre si mesmo, que estava preocupado não em um tratamento terapêutico e individual do homem psicologicamente rejeitado pela sociedade, tentando reinseri-lo nela, mas na tentativa de encontrar uma cura para a civilização como um todo. Uma busca da liberação da neurose inerente do processo civilizatório. Esse Freud está nitidamente visível nos textos de sua fase mais madura, o final da vida, principalmente em “O futuro de uma ilusão” e “O mal-estar na civilização”.

O que se convencionou chamar de neo-freudianos foi uma reação à visão da psicanálise como conservadora, excluindo alguns caracteres da teoria de Freud que colaboravam para essa visão conformista do mundo. Entre tantas outras coisas, eles ignoravam a ultima fase da vida de Freud, onde ele escrevia sobre uma incapacidade de fuga da repressão e da inutilidade de uma revolução política, sendo considerado pelos neo-freudianos uma espécie de realismo pessimista inútil. Como nos aponta Paul A. Robison, os conservadores, em especial Rieff admirava, obviamente, o austero realismo de Freud.

Dois livros publicados durante a década de 50 bombardearam os castelos da psicanálise médica e recuperaram do calabouço o Freud meta-histórico e crítico virulento da sociedade ocidental, o colocando em oposição tanto ao conservadorismo como ao neo-freudianismo. Estamos falando de “Vida contra morte” de Norman O. Brown e “Eros e Civilização” de Herbert Marcuse. O Freud recuperado pelos dois era uma espécie de terrorista radical da sociedade ocidental, um revolucionário, nos deixando claro o preço enorme que tivemos de pagar até chegarmos ao atual estado de civilização. Particularmente, vamos acompanhar a trajetória intelectual de Marcuse até chegar à psicanálise.

Na década de 1930 Marcuse ingressou no Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt, que tinha um reduzido mas ilustre corpo docente que incluía Max Horkheimer, Frederick Pollok, Leo Lowenthal, Erich Fromm, Franz Neumann e Theodor Adorno. Após a tomada da Alemanha pelos nazistas, se viu obrigado a mudar para Genebra e posteriormente New York, onde se alojou na Universidade de Columbia de 1934 a 1950, enquanto trabalhou para o governo norte-americano durante e após a segunda-guerra mundial.

Ainda em Frankfurt na década de 30, Marcuse seria marcado profundamente pelo clima marxista heterodoxo das formulações coletivas e individuais dos colegas do instituto. Nesse período o principal projeto coletivo do Instituto era um estudo da função política da família européia, cujos resultados foram publicados numa imensa monografia, porém Marcuse não se sentia seduzido pela analise da família e sua relação com o autoritarismo. Então embora partilhasse em linhas gerais das mesmas convicções ideais e teóricas de seus companheiros de Instituto, Marcuse tinha uma perspectiva própria dos problemas abordados coletivamente.

Três nomes de grande peso na história intelectual ocidental marcariam de uma forma pungente os aspectos principais das formulações de Marcuse: Hegel, Marx e Freud, em ordem. O primeiro livro de Marcuse, ainda em Frankfurt, seria Hegels Ontologie que é um exercício filosófico de elevada competência, escrito, evidentemente, para um público de estudiosos e estudantes de filosofia. Já em “Razão e Revolução”, Marcuse voltaria novamente a comentar sobre Hegel, mas agora teve um caráter mais polêmico e ousado, pois mostrava como a teoria de Hegel era revolucionária, mesmo que o próprio Hegel se considerasse conservador. De certa maneira o livro foi feito para defender Hegel de acusações como as de Karl Popper, de que havia uma linha evolutiva que o ligava até Hitler. Marcuse ainda na década de 30 fixou as origens do nazi-fascismo não em pensadores excêntricos e marginalizados, mas na ideologia central do século XIX: o liberalismo. Notemos aqui a semelhança apontada por Paul A. Robison de que o que Marcuse faz com Hegel em “Razão e revolução” é equivalente a Freud em “Eros e civilização”, pois procurou resgatar dois intelectuais europeus de grande vulto das garras de interpretes que, favoráveis ou hostis, argumentavam que tanto um como outro inovador eram, fundamentalmente, conservadores (e no caso de Hegel, até proto-fascista). A tática usada por Marcuse tanto para resgatar Freud e Hegel foi ignorar os posicionamentos políticos explícitos declarados por ambos e se dedicar a uma análise profunda de seus pensamentos teóricos, encontrando um pulsar revolucionário em ambos, mesmo que revestido de pessimismo ou conservadorismo.

Karl Marx já estava presente na formação e desenvolvimento crítico de Marcuse desde o começo, mas tinha sido intensificado no seu contato com o Instituto, onde o marxismo era fortemente recorrente. Entretanto, em “Razão e revolução” ele tenta mostrar que Hegel antecipara uma crítica fundamentalmente marxiana da civilização moderna. Nesse sentido a influência dos manuscritos econômicos e filosóficos do jovem Marx recentemente descobertos nos anos 30 lhe deu novos horizontes de comparações. O resultado […] foi reduzir substancialmente a distância ideológica entre os dois pensadores.

O principal ponto de mudança da visão de Marcuse em relação a Marx com a leitura dos “Manuscritos filosóficos” foi uma nova compreensão do comunismo. Para ele o comunismo proposto por Marx deveria ser bem mais radical e complexo do que imaginavam seus “interpretes oficiais”, e só poderia ser efetivado com a completa abolição do trabalho. Não uma reorganização dos meios de produção, como se imaginava, mas uma abolição do sistema de vida presente. Não é a toa que alguns críticos da direita americana, como Eliseo Vivas condenavam Marcuse como niilista apocalíptico, negando sua formulação de uma nova vida e apreendendo apenas o caráter de destruição da sociedade atual. Em seu livro “Marcuse em julgamento”, escrito no furor revolucionário dos anos 60, ele brada violentamente:

“UM ESPECTRO ASSOMBRA O MUNDO em que vivemos – o fantasma do niilismo. O fantasma que Marx e Engels deixaram à solta, em seu tempo, foi uma temível ameaça, que, no entanto, tinha uma virtude a seu favor. Eles tiveram em mira a destruição de nossa sociedade a fim de construir – segundo diziam – um mundo sem exploração e sem injustiças, ao passo que o fantasma que nos assusta agora visa, pura e simplesmente, à destruição.”

Na visão de Eliseo, o termo “filósofo” não cabe para Marcuse, pois “seria desonrar uma nobre palavra” que como ele deixa claro nos últimos capítulos do livro, serve para designar aqueles que estão em busca da verdade (abstrata e conseguida através dum longo e exaustivo percurso puramente intelectual de prova e contraprova) e não duma submissão à práxis, modo através do qual Marcuse guia todas as suas obras, tendo em vista que tudo que escreve é para pensar uma revolução socialista, mesmo que seu socialismo seja extremamente peculiar. Mas voltemos para o objetivo do texto que é analisar Marcuse.

Para Marcuse, Marx não era o profeta de um capitalismo mais humano ou mesmo de um socialismo democrático que pudesse ser realizado através de uma gradual reforma constitucional. O próprio Marcuse era um revolucionário, participou do movimento espartacista na Alemanha entre 1918 e 1919. Além disso, depreende-se claramente de um certo número de comentários seus que tanto Marcuse como os seus colegas do Instituto permaneceram moderadamente entusiasmados sobre o destino da revolução já em plena década de 1930. Além de se desiludir com os rumos fascistas que a revolução Alemã da década de 30 tomou, Marcuse se decepcionou com a Guerra Civil Espanhola e os Julgamentos de Moscou, onde parte do alto escalão que participou da revolução de outubro foi condenada a morte por Stalin. Em busca do motivo para todas as revoluções e movimentos de esquerda terem falhado até ali na história, respostas não encontradas em Marx, Marcuse se dedicou a uma contemplação e análise profunda das obras de Freud. Não perdeu a fé na correção ou relevância da teoria marxista mas o fracasso histórico das forças a quem Marx confiara a revolução convenceram-no de que a sociedade européia atingira uma fase em que conceitos críticos ainda mais radicais eram necessários. Esse radicalismo profundo foi encontrado nos escritos do velho Freud, com suas visões negativas sobre toda a cultura criada pelo homem e corroborada pela visão do jovem Marx da abolição do trabalho, teoria rejeitada pelo velho Marx.

Paul A. Robinson analisa alguns preconceitos intelectuais de Marcuse presentes em seus primeiros escritos publicados e que se tornaram parte de seu pensamento até sua fase final. Entre outros o preconceito central é sua hostilidade para com o empirismo filosófico.

O principal alvo da crítica marcuseana ao empirismo é representado em sua visão do positivismo. Para Marcuse o positivismo apostava em descobrir através de analises empiristas leis inquestionáveis que governassem a sociedade tal como as leis das ciências naturais. Em busca da empiricidade existia um repúdio à metafísica e a razão, pois o positivismo levava o homem a aceitar os fatos, e em conseqüência, sua situação em relação ao mundo, sem possibilidade de modificá-lo pelas necessidades da razão. A visão de Marcuse de “razão” é devedora de sua própria perspectiva de Hegel como radical, em outros textos ele a chama de “razão crítica” e ela é caracterizada como a faculdade única que permitia atuar de acordo com idéias e princípios que transcendiam a ordem estabelecida. Outra visão marcuseana foi a crítica à neutralidade da ciência, na qual o cientista se submete incondicionalmente aos fatos, se neutralizando em relação aos seus valores e através de uma categórica abstração matemática ou filosófica onde se exime de participação. Tendo em vista esses aspectos Marcuse considerava que essa visão da ciência e sociedade impedia uma crítica radical e colaborava para o conservadorismo.

Nisso ele cria o conceito de cultura afirmativa, que pode ser caracterizado como a doutrina de um espírito livre e belo, dentro de um corpo escravizado¸ que servia para perpetuar a ordem social estabelecida. A cultura afirmativa seria aquele aspecto cultural que endossa a argamassa da qual a sociedade estabelecida foi construída, e que lhe defende a todo custo, uma cultura que faz a afirmação da sociedade que está posta como boa. Em oposição existiria a cultura negativa, fruto da razão negativa (a mesma razão crítica), que tentaria transcender o status de escravização do corpo (aquilo que ele considerava ser a filosofia hegeliana) e buscaria pela liberdade total, rompendo com o status quo. Para Marcuse a atitude verdadeiramente progressiva era a de negação. Mesmo antes de sua incursão profunda na psicanálise, Marcuse já dava atenção ao aspecto político do corpo e sexualidade, em que sua repressão ajudava a estabilizar a ordem social, pois numa sociedade em que o valor era concentrado exclusivamente no trabalho, o prazer gratuito como o sexual era hostilizado. O aliado freudiano que Marcuse encontraria para complementar a sua visão “negativa” do mundo seria o instinto de Morte. É bom deixar claro que a visão negativa corresponde a uma análise crítica do mundo que não se resume a uma factualização do mesmo. O que Marcuse buscava com suas metáforas negativistas era a ascensão de um novo tipo de ser humano dos escombros da sociedade estabelecida já em estado de deterioração. Era uma negação da sociedade atual para a afirmação de um novo homem mais completo no futuro.

O marxismo fornecera uma útil mas insuficientemente radical ferramenta de análise e necessitava, claramente, de algumas modificações importantes para que pudesse servir aos propósitos críticos de Marcuse na era pós-facista. Como já dito antes, esse reforço crítico foi encontrado por Marcuse numa leitura extensa das obras de Freud, embora antes tenha tentado uma incursão pelo existencialismo de Sartre e pela filosofia de Heidegger. O flerte de Marcuse com o existencialismo, principalmente diretamente as obras de Jean Paul Sartre, foi rapidamente interrompido. Para Marcuse o radicalismo extremo do existencialismo que parecia tão interessante acabava por perpetuar a cultura positiva, de liberdade interior e escravização do corpo: “o homem é livre até nas mãos do carrasco”.

Em “Eros e Civilização”, principal obra freudiana de Marcuse, a estrutura do argumento formulado foi do mesmo modo que “Razão e Revolução”, com a diferença de que se trata de resgatar Freud e não mais Hegel, do conservadorismo em volta de sua tradição. O objetivo do livro foi demonstrar o caráter extremamente crítico contra a civilização dos últimos escritos de Freud e formular um preceito revolucionário em cima deles. Os neo-freudianos podiam ter tentado formular uma crítica ao conservadorismo em torno de Freud, porém para isso ignoravam as críticas mais violentas do pai da psicanálise contra a civilização, que consideravam a priori conservadoras e pessimistas. O que Marcuse em “Eros e civilização” e Norman O. Brown em “Vida contra morte” fazem, é reforçar a visão meta-histórica e crítica de Freud e colocá-la como contraponto às preferências políticas explicitas, demonstrando o caráter revolucionário da metapsicanálise e formulando formas de escapar da situação “pessimista” do mundo, cada qual dando sua própria contribuição.

A primeira parte do livro é destinada a explicar os conceitos freudianos, como principio de realidade, principio de prazer, pulsões vitais e etc., além de mostrar as formulações de Freud sobre como a cultura foi construída no desenvolvimento humano. Na segunda parte do livro ele (Marcuse) se dedica à demonstração da possibilidade das pulsões percorrerem um caminho diferente sob a condição de uma realidade transformada. Para que isso ocorra Marcuse aponta principalmente duas coisas: o desenvolvimento da tecnologia na sociedade industrial e as brechas nas teorias freudianas que permitem apontar para um princípio de realidade diferente do usual.

O controle do homem sobre a natureza implicou no desenvolvimento de estruturas psicológicas através das quais ele se auto-controlaria, em outras palavras, o homem passou também a reprimir seus impulsos naturais em troca do engrandecimento da racionalidade. Nos escritos de Freud, a função social do trabalho é que garante a sobrevivência do ser humano em um mundo externo agressivo, em troca o homem precisa reprimir seus instintos e se adaptar ao outro e à sociedade. O progresso do homem até o estágio atual só foi possível pela sua perca da sensibilidade e repressão dos instintos. A repressão e a sublimação são as duas características peculiares da psique-humana civilizada, aliás, a cultura toda para Freud é construída na base da sublimação.

O que Marcuse aponta em “Eros e civilização” é que no novo-contexto histórico dos anos 60 com o desenvolvimento da tecnologia, era propicio para a criação de uma sociedade em que a repressão dos instintos não fosse mais a matéria principal da qual a civilização seria feita. O atual contexto histórico poderia ser o momento em que o principio de realidade ganharia uma nova conotação que não decepasse as multi-potencialidades do desenvolvimento humano e em que a razão se libertaria de seus preconceitos para ganhar uma nova forma. Vale notar que Marcuse não é um irracionalista, embora lute pela erotização da razão (ele chama isso de razão sensível, ou razão somada à sensibilidade, que seria a forma de unir a razão e o instinto que foram separados nos primórdios da civilização). Ele acredita que a razão é uma faculdade muito importante para a visão critica e liberdade do homem, porém, que deve servir a cultura negativa e crítica e não endossar a cultura afirmativa e submissa. O principal objetivo de “Eros e civilização” é provar que as “pulsões de vida”, que podemos chamar de instintos vitais, não são de natureza imutável, assim como o principio de realidade, e que um pode complementar o outro. No caso o trabalho se tornar principio de prazer, mas claro que um trabalho ressexualizado.

O impacto de “Eros e civilização” foi tão forte nos anos 60, que Paul A. Robinson, um dos mais célebres comentadores da obra o descreveu como de uma qualidade que, na minha interpretação, só se encontra em idêntico grau em O capital, de Marx.

Encontramos em “Eros e civilização” um apertar de mãos entre o pai do comunismo e o pai da psicanálise numa síntese brilhante e avassaladora contra o status quo da sociedade ocidental. Porém, o principal astro do livro é Freud, que apesar de relacionado com termos e formulações marxistas não fica reduzido ou sem voz. Um dos argumentos contra os neo-freudianos foi o fato de que Marcuse considerava Freud substancialmente sociólogo em suas obras meta-históricas em que não se limitava a uma análise clinica, então achava desnecessário uma sociologização das obras freudianas, embora tivesse como objetivo de sua empreitada uma historicização das características psicológicas e uma relação com conceitos marxistas.

Para se compreender o poder crítico de “Eros e civilização”, basta entendermos os dois principais conceitos criados por Marcuse na obra: mais-repressão e princípio de desempenho. A mais-repressão, proveniente de uma interpretação psicológica similar a mais-valia de Marx, pode ser caracterizada como uma repressão desnecessária e arbitrária à sexualidade do individuo, mas que conserva o sistema econômico e político em vigor. Desta maneira a sexualidade do individuo na sociedade industrial seria castrada para que ele permanecesse em constante produção, daí o conceito criado de Principio de Desempenho que vai delinear como uma espécie de alienação psicológica. Para Freud a psique humana funciona baseada no principio de prazer e no principio de realidade. O principio de prazer seria a satisfação do homem de todos os seus desejos e instintos, localizado na categoria psicológica chamada de inconsciente; já o principio de realidade seria a adequação do individuo ao ambiente físico-biológico a sua volta que impede a realização de todos os seus desejos e por isso reprime o principio de prazer. A saída que o homem criou na guerra entre seus desejos e o que a realidade poderia oferecer foi a “sublimação”, para Freud toda nossa cultura é sublimação, ou seja, uma realização limitada do principio de prazer pelo principio de realidade. Numa linguagem simples podemos dizer que o super-ego teria sido criado como uma espécie de guarda do id (inconsciente) e aliado do ego. Então o homem civilizado seria aquele com uma estrutura de principio de realidade tão forte que reprimia incondicionalmente os desejos inconsciente, portanto um homem neurótico pelas frustrações do principio de prazer. Freud era ambíguo quanto a função da arte nesse confronto entre Eros e Thanatos, ou vida e morte, como ele também caracterizou. Em alguns momentos ele considerava as sublimações (se cultura é sublimação, a arte é uma sublimação das mais elevadas) empecilhos para liberação do inconsciente e satisfação do principio de prazer, e em outros diagnosticava que a arte era o uso consciente do inconsciente e por isso uma arma poderosa na guerra contra o principio de realidade. Em geral Freud era pessimista quanto a possibilidade de acabar com a repressão, por isso foi abraçado pelos conservadores como defensor do sistema social estabelecido, porém, em alguns momentos extremamente ácidos ele parecia esperar que algo rompesse os muros da civilização e liberasse do calabouço os violentos desejos inconscientes, é este último Freud que Marcuse tenta resgatar e reforçar como um crítico radical da sociedade. O principio de desempenho seria a versão da sociedade industrial do principio de realidade, com características peculiares. O principio de desempenho regularia uma maior e mais especifica repressão do que o principio de realidade e estaria ligado as formas de produção da sociedade industrial. Um dos argumentos contra o principio de desempenho era sua deserotização do corpo humano, o que se chama “tirania genital”, pois no corpo adulto do individuo da sociedade industrial ocidental, apenas as regiões genitais são sexualizadas. Freud argumentava que os recém-nascidos e crianças em geral viviam sob total controle do principio de prazer, desta maneira todo o seu corpo era erotizado. Ver, tocar, cheirar, todas as sensações internas e externas eram alvos de energia sexual. Após diversos traumas psicológicos inerentes ao desenvolvimento e “amadurecimento” humano na sociedade, essa energia seria concentrada quase exclusivamente nas zonas erógenas, ou seja, nas genitálias. Lembremos que “energia sexual” para Freud era a busca de satisfação do principio de prazer, e não necessariamente sexo como interpretado pelos adultos. O principio de desempenho marcuseano, seria responsável justamente pelo processo de deserotização do corpo, o que faz parte da mais-repressão. A libido passou a estar concentrada numa parte do corpo, ou seja, os órgãos genitais, a fim de deixar o resto do corpo livre para uso como instrumento de trabalho. De certa maneira, Marcuse considera que por exemplo a homosexualidade é um protesto contra a tirania da genital.

Para depor contra a imutabilidade do principio de realidade freudiano, Marcuse chama a “imaginação”. A imaginação seria uma prática de conectar o inconsciente de modo consciente, por isso ela estaria a serviço do principio de prazer e não de realidade, e faria parte de carga muito importante da vida cotidiana das pessoas. A arte é um exercício profundo de imaginação, onde o principio de prazer é intensamente libertado e sentido, o outro tipo de manifestação da imaginação seriam as perversões, com suas conotações sexuais. As perversões iriam contra o principio de realidade pois elas priorizam atividades sexuais com fins em si mesmas, ou seja, prazer pelo prazer, e não com algum tipo de utilidade como o principio de desempenho (uma variante da sociedade industrial do principio de realidade) geralmente faz.

A imaginação seria importante na teoria de Marcuse, pois, ela evoca uma imagem de liberdade e felicidade que se opõe à realidade repressiva e que recusa a imposição de limitações. É valido lembrarmos especialmente deste último ponto para mais adiante, pois o principio de prazer nunca desiste de sua satisfação, por mais que nosso ego e super-ego o reprimam ele tenta realizá-lo nem que seja por via de sublimação ou neurose, junto com o inconsciente. A imaginação a serviço do principio de prazer também trabalha na mente humana sem nunca abandoná-la nem mesmo diante das impossibilidades.

Antecipando a crítica de que se todos na sociedade sucumbissem ao principio de prazer o progresso estancaria e a civilização por inteiro seria destruída, Marcuse argumenta que o que uma sociedade não-repressiva faria era conciliar o progresso ao principio de prazer e não uma abolição do progresso e da civilização, até porque sua teoria de desrepressão funcionava apenas com auxilio da tecnologia para aliviar a carga de trabalho mecânico. Ainda assim suas formulações parecem obscuras, mas, a possibilidade de eliminar apenas a repressão imposta pelo interesse exclusivo de dominação (mais-repressão, deve permitir a formação de relações de trabalhos novas e duráveis e não a eliminação do trabalho e da civilização. É justamente uma transformação qualitativa das relações sociais que Marcuse vislumbra, essa é sua visão geral de comunismo, ele imagina que sem a repressão e com o uso das máquinas a jornada de trabalho seria curta, além de que com a mudança da mentalidade (ressexualização do corpo) o trabalho poderia se transformar numa espécie de prazer.

Na parte em que Marcuse tenta diagnosticar o que a civilização ocidental deve fazer, ele propõe é claro a já dita ressexualização do corpo. O estado em que a criança está dominada pelo principio de prazer é chamada por Freud de “sexualidade polimórfica”, tanto Marcuse quanto Norman O. Brown apontam uma volta esse estado infantil como saída para mais-repressão e principio de desempenho. Norman O. Brown em seu “Vida contra morte”, identifica o principio de realidade (espécie de precursor da civilização) como a morte e o principio de prazer (espécie de satisfação de todos os sentidos) como a vida. Uma volta à infantilização do corpo, e portanto ressexualização do mesmo, seria uma fuga da morte e um abraço com Eros, o patrono do principio de prazer. Marcuse mais do que uma volta ao estado infantil, propõe uma reorganização social da tecnologia. Ele aponta que a tecnologia em breve será capaz de livrar o homem do trabalho cansativo e repetitivo, então ele terá muito mais tempo disponível para o cultivo de suas faculdades mentais e estará livre tanto da mais-repressão quanto da mais-valia. O conceito de comunismo de Marcuse é parecido com a do jovem Marx dos Manuscritos Filosóficos, não era meramente uma reorganização do sistema econômico e político, mas uma mudança radical qualitativa da vida dos indivíduos. Então além da reorganização da tecnologia, e em conseqüência do sistema econômico, ele propunha a busca de novas categorias de pensamento e valores sociais condizentes com a “sexualidade polimórfica”, que era desprezava na sociedade capitalista ocidental por não ser produtiva industrialmente. Se a civilização poderia ser identificada com a repressão e por isso Morte, Marcuse propunha uma mudança da tendência destrutiva da sociedade atual para uma civilização baseada no amor, e por isso, supressão da agressividade e extermínio, já que para ele a derrota de Thanatos só poderia ser assegurada através da libertação de Eros.

Marcuse só considera possível mudar para uma sociedade não-repressiva se as condições objetivas da sociedade permitirem uma mudança na estrutura psicológica, ou seja, se o momento histórico for passível de uma transformação da razão numa “racionalidade libidinal” e em que a dinâmica do principio de realidade e instintos vitais possam ser transformados.

Marcuse aponta dois principais problemas para a liberação do instinto sexual (instinto de vida) na visão freudiana: a necessidade de trabalho e a necessidade de relações duráveis. Para Freud, as supressões dessas duas necessidades acabariam com a civilização. Já Marcuse considera que se a jornada de trabalho for drasticamente reduzida e o tempo livro não for apenas uma complementação de descanso para a volta ao trabalho (ou seja, uma estratégia de produção), o corpo pode ser ressexualizado e não funcionaria mais como um instrumento de trabalho. A ressexualização do corpo seria a volta a sexualidade polimórfica, uma característica sexual pré-genital encontrada nas crianças, e assim a tirania genital seria superada.

O que Marcuse vislumbrava era que a auto-sublimação da sexualidade conduziria à transformação da sexualidade em Eros. O que essa transformação da sexualidade em Eros ocasionaria era a uma extraordinária superação de relações violentas dentro do âmago da sociedade, essas relações se tornariam bem mais humanas e civilizadas sem repressão de sentidos. Haveria uma ampliação tanto quantitativa quanto qualitativa de satisfação do impulso de prazer através das realizações dos instintos de vida. A sublimação freudiana também ganha outro caráter nessa sociedade, Marcuse considera que a sublimação tal como pensada por Freud era uma “sublimação repressiva”, pois ela implica a dessexualidade da pulsão, a inibição de sua meta sexual e o redirecionamento de sua meta para um fim não sexual. Marcuse acreditava que a sublimação de Eros representava uma sublimação sexualizada, e não dessexualizada como a de Freud. Para realização dessa nova sublimação a individualidade deveria ser modificada, para que os impulsos de Eros satisfizessem impulsos supra-individuais e não ameaçasse a destruição por completo da cultura e civilização. A proposta de Marcuse para uma sociedade não-repressiva consistia numa mudança do trabalho como esforço e renuncia para uma transformação do trabalho em prazer. Isso aconteceria não pela submissão do individuo ao trabalho e sua adaptação à labuta, mas na transformação estrutural da função social do trabalho, onde os esforços seriam direcionados para o bem-estar coletivo e não para satisfação unicamente de um outro individuo como na estrutura capitalista. A mecanização da produção permitiria uma diminuição no tempo desperdiçado na manutenção da sobrevivência, o que libertaria a energia sexual de sua limitação espacial necessária para o trabalho – e uma vez que a sexualidade transformada em Eros toma como objeto de satisfação a própria vida e sendo o trabalho parte integral na sua constituição e na sua auto-preservação, então ela também tomará o trabalho como fonte de satisfação.

Uma crítica violenta que Marcuse faz aos neo-freudianos é que eles consideram que através do modo em que o homem vê o seu trabalho, ele pode se tornar fonte de prazer. Desta maneira eles não contribuem para uma mudança da estrutura do trabalho, apenas deificam uma estrutura repressiva que já está posta e fazem com que o individuo se submeta aquelas relações sociais alienadas. Marcuse considera que um trabalho alienado (sublimado em termos psicológicos), nunca vai satisfazer os impulsos eróticos (de vida) do homem, apenas o fazem se adequar a estrutura já existente. “Associar o desempenho em linhas de montagem, em escritórios e lojas, com necessidades pulsionais, é glorificar a desumanização como prazer”, ele diz em ‘Eros e civilização’.

Após falar do instinto de vida (Eros, e principio de prazer), é o momento de vermos a visão de Marcuse sobre o instinto de morte (Thanatos, e principio de desempenho [ou realidade]). Se o impulso de vida pode ser libertado e modificado para uma obtenção do prazer, o que dizer do fascínio que a humanidade tem com a destruição e a morte? Marcuse se nega a tolamente acreditar no “empirismo” da metapsicologia freudiana, que considera o instinto de destruição e morte como inevitáveis e imutáveis, pois essas postulações tornam insensata e tola qualquer manifestação de oposição, algo similar ao que o positivismo tentava fazer em suas proposições. Contra esta ideologia, insisto que não há algo como uma natureza humana imutável. Além e acima do mundo animal, os seres humanos são seres maleáveis, corpo e mente, até mesmo em sua estrutura pulsional. O instinto de morte seria aquele que busca uma paralização total da tensão do corpo e da mente, um estado de ausência de tensão total, na medida em que a matéria viva se originou da matéria inorgânica ela tende a retornar a esse estado. Freud usou o principio de Nirvana, onde todos os sentidos cessariam, como um exemplo ambíguo de libertação e satisfação do desejo de morte. Marcuse em ‘Eros e civilização’ argumentou que talvez o instinto de morte buscasse não a cessação total da tensão, mas a fuga da dor, e isso poderia ser resolvido com a satisfação do principio de prazer, então principio de prazer e o principio de Nirvana convergiriam. Em termos simples podemos dizer que a liberação total de Eros acalmaria vertiginosamente os desejos violentos de Thanatos.

Uma das condições que Marcuse preconizava para a transformação da sociedade em não-repressiva era a liberação da memória esquecida. Freud considerava em “O futuro de uma ilusão”, que nossa memória nunca é apagada, embora seja sobreposta por uma nova camada constantemente. A metáfora usada para explicar isso foi a de um arqueólogo andando pelas ruínas de Roma, o psicanalista seria um arqueólogo da mente, com uma diferença essencial: o arqueólogo vai encontrar destroços de uma muralha de uma época debaixo de uma casa de outra época que agora é uma rodovia; já o psicanalista, no mesmo lugar teria a muralha, a casa e a rodovia por completo, ele apenas precisaria mudar o ângulo de sua visão e veria a outra coisa. No caso o psicanalista poderia ver todas as temporalidades diferentes em um mesmo espaço, o que é uma característica da nossa mente, onde o espaço e o tempo não existem como no mundo pragmático. Para Freud em condições normais da nossa sociedade, nossa mente se lembra apenas da ultima camada construída. Para Marcuse o esquecimento faz parte do mecanismo de dominação e repressão do indivíduo, por que o submete à realidade em que está inserido e faz com que ele reproduza constantemente experiências frustradas e insatisfatórias. Esta faculdade do esquecimento está ligada à submissão e à resignação, que são constantemente incentivadas pela ‘moral civilizada. Nesse momento do livro Marcuse diz uma de suas frases mais belas, que são um contraponto a um ditado popular mundialmente conhecido: “As feridas que se curam com o tempo são também aquelas que contêm o veneno”.

O tempo faz com que esqueçamos, e por isso continuemos mantendo a sociedade do mesmo modo, repetindo experiências frustradas. A força de Eros é justamente que embora ele possa ser reprimido o tempo todo para o inconsciente, ele nunca é esquecido, ele nunca desiste de se fazer pleno e livre. O que Eros deseja não é satisfazer dentro de um lapso de tempo e espaço alguma de suas faculdades, ele quer o prazer atemporal e sem limitação de espaço ou qualquer outro tipo. Eros quer a liberdade total para o prazer. O modo encontrado para fazer com que o tempo deixe de ser repressivo é a lembrança, só se pode construir uma sociedade não-repressiva quando o passado é resgatado, tanto do individuo quanto da sociedade.

Conclusão

As formulações de Marcuse podem partir de uma base marxista, porém, seu desenvolvimento das idéias são peculiares e confrontam o marxismo ortodoxo. O que Marcuse chama de comunismo, ou busca de uma sociedade socialista, é uma tentativa radical de transformar qualitativamente a vida dos indivíduos na sociedade. Em “Eros e civilização” o que ele faz é declarar abertamente a busca de uma nova subjetividade para a sociedade para que a transformação para uma sociedade comunista seja efetiva e não pare no caminho sob a face de uma burocracia como a sociedade soviética ou chinesa. Sua visão do comunismo soviético, fez com que ele compreendesse que não bastava uma mudança das relações de produção, ou a existência de possibilidades objetivas para realizar uma revolução se antes não fosse transformada a mente e cultura das sociedades. Marcuse não é um irracionalista, como já foi dito, mas ele acredita que essa transformação da cultura e da mente dos indivíduos da sociedade, vai ter que refundar a “Logos” (razão), lhe devolvendo um caráter de sensualidade, um pouco de Eros, conectaria novamente sensibilidade e razão. A razão aberta à sensibilidade e a sensibilidade aberta à razão levariam a um novo estágio da civilização.

Referência usadas (sim, eu tenho debito imenso com esses livros, por isso preciso citar):

Robinson. Paul A. A Esquerda Freudiana: Wilhelm Reich, Geza Roheim, Herbert Marcuse. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.

BROWN. Norman O. Vida contra a morte. Rio de Janeiro: Vozes, 1972.

PISANI, Marília Mello. Utopia e psicanálise em Marcuse. (esse achei pela internet, nem sei o link)

VIVAS, Eliseo. Marcuse em Julgamento. Edições Bloch, 1972.

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Comentários

  • Antonio marques  On 18/11/2011 at 3:17

    muito bem gostei mesmo, é muito bom saber as origens intelectuais do movimento revolucionário, obrigado pela colaboração, ninguém se pode deixar levar pelo pensamento anarquista, perdendo suas convicções de ordem transcendente que em suma, não nos leva a ser verdadeiramente livres, todo esta mentalidade revolucionária que quer esvaziar a realidade do amor como único capaz de fazer a revolução eficaz, iludiu, escravizou, já não posso pertencer a nada que me haja sido manipulado antes.

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