O Uivo que não é apenas de Ginsberg

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“Eu vi os gênios da minha geração, destruídos pela
    loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada
    em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo
    contato celestial com o dínamo estrelado da
    maquinaria da noite,[…]

Como resenhei por aqui uma HQ sobre os beats, resolvi fazer o mesmo com tudo de “novo” (aspas porque tem muitos livros e outros materiais que nunca foram lançados por aqui) que for lançado sobre eles, por isso recomeço falando sobre o filme “Howl” (Uivo), lançado no ano passado.

Sou uma espécie de admirador dos beats, mas não exatamente um babaca apaixonado por modismo, isso eu sou com outras coisas. Quanto aos Beats conheço profundamente, tanto que apresentei no ano passado um minicurso no Encontro Regional dos Estudantes de História do Nordeste (EREH-NE) chamado “Rebeldes sem causa: sexo, drogas, rock’n roll e política”. O engraçado sobre o minicurso é que teve no primeiro dia umas 30 pessoas e foi diminuindo. O título, é claro, atraiu a atenção de um monte de posers metaleiros e etc, que não entenderam a proposta do minicurso, que era mostrar o que foram os beats e sua influência na cultura ocidental. O não entendimento da proposta talvez tenha sido pelo fato de que entender os beats não é tão simples, às vezes simplesmente vagabundos e outras completamente santificados são personagens que costumam ser contraditórios para análises, e perigosos por não se lançarem a um significado de classificação satisfatório.

Kerouac, “the king of beats”, como às vezes é chamado, é muito conhecido por estas bandas pelo seu romance “On the road”, já Ginsberg é aquele tipo de cara mais louvado como “fodão” do que lido. Uma vez falei no twitter pro PdePinguim que o Ginsberg era o Alan Moore da literatura norte-americana moderna, talvez a verdade seja o inverso, não que Alan Moore deva a Ginsberg, só que não tenho dúvidas de que ele serviu de referência para o Moore.

O filme Uivo passou um tanto batido pelo Brasil, sendo no máximo citado que havia terminado sua pós-produção, ou qualquer coisa assim, em alguns sites cults. Mas por parte da crítica o filme colecionou umas varias avaliações negativas. Sua nota no IMDB foi 6,7.

Após refletir sobre qual teria sido o motivo pelo qual Uivo foi tão mal recebido pela crítica e público, cheguei à conclusão de que o modo como ele “foi vendido ao público” falhou. Como assim? Se dizia de Uivo que era sobre a vida de Allen Ginsberg. E o filme, após 20 minutos decorridos nos deixa claro que o personagem principal não é o poeta que criou o poema, mas o próprio poema!

O núcleo do filme não é a vida de Ginsberg, ela é o terceiro plot, misturado a outros dois mais centrais. O segundo plot é o julgamento em cima do livro “Uivo e outros poemas”, que ocorreu nos Estados Unidos e foi um marco nas causas pela liberação das restrições impostas pela censura à linguagem artística. Talvez se o resultado daquele julgamento tivesse sido diferente os beats nunca teriam lançados seus livros, e é claro, se o julgamento nunca tivesse existido, Allen Ginsberg nunca teria chamado tanta atenção para si e seus companheiros, o que também poderia ter minado a maior parte das publicações da geração beat.

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Entretanto no filme tudo isso é como um segundo plano que vai costurando os trechos separados do poema que são narrados áudio-visualmente, com uma animação que me deixou extasiado! Essa interpretação em animação é misturada com a famosa noite de recital poético na Six Gallery, onde “Uivo” foi lido pela primeira vez. Aliás, essa noite foi o dia em que a poesia renasceu nos Estados Unidos, é chamado de “renascimento poético de São Francisco”. O dia em que a poesia, um simples “adorno sem sentido prático” do pós guerra, encontrou vida em corpos bêbados de vagabundos drogados amontoados num galpão. Mais do que um renascimento da poesia do século passado, era uma volta à poesia sonora, para ser declamada e gritada às outras pessoas sem nenhuma vergonha. Foi também naquela noite que a mística do oriente encontrou um forte aliado para romper os muros da razão ocidental. Lá estavam Kerouac, Burrough, Ferlinghetti, Ginsberg, Neal Cassady, entre tantos outros beats.

O problema não é o filme em si, que aliás nem sei se é um filme, é mais como uma performance interpretativa do poema “Uivo”, com pausas para explicações conceituais e psicológicas para aquele trem de imagens que Ginsberg faz correr freneticamente com sua poética descontrolada. Jorrando paz, amor, ódio, comunismo, capitalismo, homossexualismo, pederastia e consumo de drogas ao som de jazz pelas ruas de São Francisco, adoçando trepadas com milhares de garotas pelo Adonis de Denver, e sobre o louco Carl Salomon andando a pé pelos Estados Unidos com os calcanhares sangrados, na procura de um emprego, até encontrar o deus Moloch sobre as milhares de janelas dos prédios de Nova York.

“Uivo” é um poema comprido, e eu tive o disparate de lê-lo no final do minicurso que falei no começo do post – li só as 7 primeiras páginas. Estava exausto quando terminei de ler, mas senti aquele tipo de elevação cósmica que era um dos próprios temas do poema. Afinal, “uma bunda é tão sagrada quantos os anjos dourados do céu”. Tudo é sagrado. Por outro lado, quando olhei para a cara daquele pessoal que estava assistindo a apresentação, fiquei triste, eles bateram palmas, mas estavam horrorizados com o palavreado do poema. Nas suas caras estavam estampadas mais do que o simples “que porra é essa?” que poderia ser uma reação normal em frente a “Howl”, alguns ficaram com nojo da linguagem, outros de trechos que falam de homossexualidade, e daí por diante (coisas como “que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do/ telhado sacudindo genitais e manuscritos,/ que se deixaram foder no rabo por motociclistas/ santificados e berraram de prazer,/ que enrabaram e foram enrabados por esses serafins/ humanos, os marinheiros, carícias de amor/ no atlântico e caribenho”). Não que eu tenha me arrependido de ler o poema, além de fascinante lê-lo em público foi um exercício para o meu próprio espírito, mas me senti frustrado pela incapacidade das pessoas entenderem o que eu estava querendo dizer, mesmo depois de 6 horas de ambientação histórica e explicação conceitual.

Talvez esse seja um problema de “Uivo”, talvez por isso o filme tenha sido considerado negativo pela crítica. Não é um filme que você vai acompanhar uma história, o que você vai ter é uma fascinante declamação de um poema, talvez o mais representativo da rebeldia do século passado. De certa forma, Uivo é um filme bem simples, para quem simplesmente deixar de raciocinar e sentir as imagens que nos são metralhadas, não exatamente na tela, mas pelo som, pela voz que declama o poema. Considero um filme indispensável de se ver, porque além de discursos sobre censura, algo que importa muito nos dias de hoje em que a censura é bem mais sensível, também fala da arte em seu estado primitivo, sei lá, quando ela era simplesmente feita, puramente um exercício consciente do inconsciente, auto-expressão e não algo criado para se vender. Quem sabe um dia vou criar coragem e escrever um post para haters, sobre o porquê da arte genuína não ser feita para venda, ou melhor, o motivo pelo qual ela perde muita coisa quando pensada para um público e não para auto-contemplação do artista.

“[…]que foram queimados vivos em seus inocentes
ternos de flanela em Madison Avenue no meio das
rajadas de versos de chumbo & o estrondo contido
dos batalhões de ferro da moda & os guinchos
de nitroglicerina das bichas da propaganda &
o gás mostarda de sinistros editores inteligentes
ou foram atropelados pelos taxis bêbados
da Realidade Absoluta,[…]
que exigiram exames de sanidade mental acusando
o rádio de hipnotismo & foram deixados com sua
loucura & mãos & um júri suspeito,
que jogaram salada de batata em conferencistas da
Universidade de Nova Iorque sobre Dadaísmo
e em seguida se apresentaram nos degraus de
granito do manicômio com cabeças raspadas e
fala de arlequim sobre suicídio, exigindo
lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da
insulina metrazol choque elétrico hidroterapia
psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue
& amnésia,
que num protesto sem humor viraram apenas uma
mesa simbólica de pingue-pongue mergulhando
logo a seguir na catatonia,
voltando anos depois, realmente calvos exceto por
uma peruca de sangue e lágrimas e dedos
para a visível condenação de louco nas celas das
cidades-manicômio do Leste,[…]
que sonharam e abriram brechas encarnadas no
Tempo & Espaço através de imagens justapostas
e capturaram o arcanjo da alma entre 2 imagens
visuais e reuniram os verbos elementares e
juntaram o substantivo e o choque da consciência
saltando numa sensação de Pater Omnipotens
Aeterne Deus,
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa
humana e ficaram parados à sua frente, mudos e
inteligentes e trêmulos de vergonha, rejeitados
todavia expondo a alma para conformar-se ao
ritmo do pensamento em sua cabeça nua e infinita,[…]”

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