Escuridão Eterna

 

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Alex Roivas, seu tatataravó Maximilian e seu avô Edward

Eu tenho uma relação bem estranha com videogames. Sempre fui fissurado em revistas sobre o assunto, tinha (e ainda tenho) pilhas e mais pilhas delas, quando bem mais novo comprava umas três todo o mês e minha mesada ia toda embora. Às vezes ia a sebos e saía com umas 30 revistas antigas de lá. Muito do meu conhecimento de videogames derivou do que lia sobre o assunto e não do que jogava, por um tempo fui como um tarado lendo livros sobre sexo ao invés de sair praticando por aí. Como bom nintendista, tinha algumas das primeiras Nintendo World, mas a EGM foi a minha preferida e a assinei por bastante tempo, até ver o triste fim dela. Recentemente também assinei a EDGE, provavelmente a melhor revista de games que já chegou às nossas terras, uma pena que tenha acabado tão cedo por aqui, acho que o público brasileiro não tava pronto pra algo tão ambicioso assim. Só aí já dá pra saber que sou mais jornalista do que gamer, na verdade. O lance é que meus videogames eram sempre de uma geração anterior a atual. Quando o PlayStation e o Nintendo 64 dominavam o mundo, Eu me alegrava com o meu Super Nintendo. Anteriormente, no reinado do Super Nintendo, Eu tinha um Atari. Na era PlayStation 2, Eu tinha um Nintendo 64.

Em 2009 me juntei (atrasado) a geração atual e comprei um Wii. O foda do Wii é uma coisa chamada Virtual Console, que dá acesso a uma vasta biblioteca de jogos de consoles anteriores da Nintendo, fora rodar jogos de Game Cube com os MiniDVDs, joysticks e memory cards do aparelho. Então, assim que comprei o maldito Wii pensei em uma miríade de jogos que perdi e agora podia jogar. Como de costume, no fim do ano, fiz uma lista de coisas (coisas = livros) pra comprar e coloquei no meio um espaço pra jogos. Não tinha dinheiro suficiente para comprar jogos do próprio Wii  – fora que tinha alguns comprados que não tinha zerado ainda – e resolvi comprar alguns de Game Cube. Como não tinha nada em mente a não ser The Legend of Zelda: Wind Waker, fui até a minha caixa de revistas pra ver alguma sugestão de jogos. Coloquei a mão na caixa e puxei duas revistas aleatórias… uma Nintendo World com a capa estampando a chamada Eternal Darkness e outra com a segunda parte do detonado do jogo. Me pareceu um sinal suficientemente forte e coloquei o jogo na lista junto com Zelda e Final Fantasy: Crystal Chronicles.

Pouco depois do Natal tava com todos os jogos em casa, nenhum calote e nenhum atraso na entrega. Comecei com Eternal Darkness. O jogo é o que se pode chamar de terror psicológico, com uma trama bem construída (ganhou diversos prêmios de Melhor História) e nível de dificuldade na medida. Logo nas cenas iniciais você é colocado no controle de Alexandra Roivas presa num quarto lotado de zumbis. Mas era só um sonho, ela acorda e recebe a ligação de um chefe de polícia, que a convida a ir a mansão da família dela em Rhode Island. O chefe de polícia é um cara sem nenhum tato e coloca Alex pra reconhecer o corpo sem cabeça do próprio avô. Depois da polícia mostrar que não tá muito interessada no caso de assassinato do avô dela, Alex decide investigar por conta própria… e é aí que as coisas ficam realmente estranhas.

Alex encontra uma sala de leitura secreta na mansão do avô dela e um livro: o Tomo da Escuridão Eterna. Toda a mecânica do jogo gira em torno desse livro e todos os que o encontram. Alex se põe a ler o Tomo, cada página é uma fase e a história de um protagonista do jogo, que se viu envolvido numa batalha secreta pelo controle do mundo. Ao fim de cada capítulo o jogo volta a mansão, onde Alex pode usar seus novos conhecimentos para caçar mais capítulos escondidos pelo ambiente. No início, essa mecânica de controlar um personagem por fase e ainda precisar procurar novos capítulos pra jogar outras fases pode parecer confusa, mas com uns dois ou três capítulos lidos logo se está profundamente envolvido com a história. Eu coloquei o jogo no Wii somente para ver se ele funcionava a contento e Eu não tinha sido vítima de calote de algum espertinho do Mercado Livre, e quando vi já estava no terceiro capítulo, completamente imerso. Se não tivesse envolvido nos atos finais de um clássico – The Legend of Zelda: Twilight Princess – provavelmente viraria a noite e o dia seguinte jogando.

 

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Um dos servos dos Anciãos, da Inquisição

Após matar Ganondorf no quinto Zelda da minha carreira – se bem que em Majora’s Mask ele não é o vilão – mergulho de cabeça definitivamente em Eternal Darkness. Nunca fui de ligar muito pra gráficos e inovações técnicas significativas (mas também não dispenso um game de encher os olhos) e Eternal realmente não é um primor nessas áreas, apesar da competência, mas compensa em jogabilidade e história. Esteticamente o jogo é um discípulo de Alone in the Dark, se distanciando de Resident Evil no fator clima genuíno de terror. Enquanto Resident é uma contínua busca obsessiva por sustos repentinos – cachorros quebrando janelas, alguém?! – Alone vai se aprofundando num equilibrado clima de horror genuinamente apavorante e dificilmente se aproxima do gore absoluto. Eternal segue essa cartilha muito bem e ainda dá um passo a mais: adiciona "sanidade" ao processo. Junto com seu medidor de vida e de energias mágicas, o jogo possui um medidor de sanidade. A falta dele causa inúmeros efeitos imprevisíveis no ambiente. Do nada você afunda no chão, jorra sangue das paredes, crianças rindo, gente berrando, seus braços caindo… qualquer tipo de merda pode rolar se sua sanidade tiver baixa. E os efeitos da loucura variam de acordo com os medos específicos de cada personagem. As alucinações chegam a transcender o possível dentro do ambiente do jogo e atingem camadas metalinguísticas tão marcantes quanto aquele momento em que Psycho Mantis "adivinhava" os games que você gostava, em Metal Gear Solid, simplesmente lendo seu memory card. Em alguns momentos de Eternal Darkness – cujo subtítulo não é Sanity’s Requiem à toa – rolam simulações de desligamento de videogame, de jogo resetando, de volume diminuindo, de joystick defeituoso… e acredite, por mais que esteja avisado, se rolar com você, a tensão do jogo não vai deixar você lembrar disso.

Fora isso a jogabilidade do jogo é a clássica dos discípulos de Alone in the Dark: cenários pré-renderizados, botão de ação pra interagir com objetos, armas de fogo e espadas. Os combates, aliás, têm uns aditivos interessantes. É possível mirar na cabeça, no dorso, ou nos braços do inimigo e isso ajuda pra caralho. Além de matar mais rápido, dar golpes mirados recuperam sua tão preciosa sanidade – quanto menos sanidade, menos dura sua energia e mais suscetível a morte você está. Arrancar a cabeça de um zumbi o fará dar golpes a esmo, às vezes atacando até outros zumbis, por exemplo. Quando o inimigo cai semi-morto, existe também a opção Finish Him, um golpe final que ajuda a recuperar a sanidade.

Assim que o personagem da fase encontrar o Tomo, ele tem acesso às magias, e puta que pariu, Eternal Darkness deve ter o melhor sistema de magias que os games já criaram. É um pouco complexo, mas logo se pega o jeito. Para se conseguir uma magia, é necessário possuir um Círculo de Poder (que pode ser de 3, 5 ou 7 pontas… quanto mais pontas, mais poderosa é a magia, mas isso também aumenta o tempo para ela ser completada), um Codex com as instruções do feitiço, as runas necessárias para completar a magia e uma pedra para alinha-la com as três entidades presentes no jogo (já explico esse lance). Então, tenha certeza que criar uma magia, ou mesmo conjura-la não é simplesmente apertar um botãozinho e tá tudo certo. Primeiramente é preciso ter energias mágicas suficiente para completar e em segundo lugar e mais importante: NÃO se mexer enquanto tiver completando o círculo mágico e usando as runas no seu devido tempo. Se mexer ou tomar uma porrada de algum zumbi enquanto completa a magia é vê-la não surtindo efeito nenhum e sua energia mágica ainda é gasta no processo. A Magia não é somente um adereço ao jogo, às vezes não ter energia mágica é pior que não ter sangue – embora correr um pouco ajude a recuperar sua energia mágica… se tiver com pouca sanidade, recupera mais rápido, pra ver que toda coisa ruim pode ter seu lado bom.

 

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Alex na sala secreta, de frente ao Tomo da Escuridão Eterna

A história de Eternal não está no centro das atenções à toa. O primeiro capítulo é confuso, você controla o centurião romano Pious Augustus, que comanda uma legião durante uma campanha na Pérsia. Depois de ser transportado para um estranho templo e matar uma horda de seres das trevas, Pious se vê numa sala e precisa tomar uma decisão: escolher o artefato de um das três entidades do jogo. São os três Anciões, seres transdimensionais (alguns diriam extraterrestres, mas pelo que o jogo mostra, prefiro a abordagem "de outra dimensão") que procuram um servo para abrir um portal que dê passagem para a entrada de um deles na Terra. Como são seres em guerra, a escolha que o jogador fará nesse capítulo – sem saber – é de suma importância durante o jogo. Existe Chattur’gha (Vermelho), Deus da Força Física; Xel’lotath (Verde), Deusa da Sanidade, da Força Mental, e Ulyaoth (Azul), Deus da Magia. Naturalmente, a escolha inicial no capítulo de Pious afeta todo o jogo. Tornar-se servo de Ulyaoth significa que você enfrentará uma multidão de servos dele durante o jogo, e servos de Ulyaoth têm o poder de arrancar suas energias mágicas somente olhando pra você. O mesmo vale para os outros, cada um associado a uma de suas energias. O psiquiatra Edward Roivas, avô de Alex, relaciona essas três entidades com os trabalhos dos três mais importantes psicólogos dos últimos séculos: Skinner estaria relacionado a Chattur’gha, Freud com Xel’lotath e Ulyaoth com Jung (analogia brilhante, por sinal).

Existe uma interação entre essas entidades: Vermelho vence Verde que vence Azul que vence Vermelho. Esse diagrama é de muita importância na hora em que o jogador for realizar os feitiços. Um escudo mágico contra um Horror servo de Chattur’gha só será efetivo se for alinhado a Ulyaoth. Parece confuso lendo, mas no jogo se torna bem instintivo. Porém Existe uma solução para essa relação, que é a runa de Mantorok, uma quarta entidade, misteriosa, supostamente mais fraca e chamada de Deus do Caos, mas cujo o alinhamento vence a todos. Usar magias alinhadas a Mantorok – é necessário achar uma runa bem escondida na quarta ou quinta fase – significa uma garantia de eficácia em 90% dos casos.

Os ambientes principais do jogo são quatro: o Templo dos Anciãos, na Pérsia; um templo perdido em Angkor Thom, no Camboja; a Catedral Oublié, em Amiens, França; e a mansão dos Roivas, em Rhode Island (e a Cidade Perdida de Ehn’gha, no subsolo da mansão). Como cada capítulo se passa numa época diferente, o ambiente explorado sempre vai variar. Se numa época o monge Paul Luther explora a catedral francesa em busca da Mão da Glória, 500 anos depois, durante a I Guerra Mundial, o repórter Peter Jacob explora o mesmo local onde enfrenta um poderoso guardião que protege um artefato que pode destruir a entidade a qual Pious serve. Cada personagem possui características únicas também. Um monge pode ser fisicamente mais fraco, mas possui mais sanidade e mais facilidade com a magia, enquanto um soldado não se cansa e possui mais resistência, mas a taxa de sanidade dele é bem menor.

 

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Meu envolvimento com o jogo cresceu a tal nível que as influências dele começaram a transcender aos "simples" efeitos (da falta de) de sanidade do jogo. Quando estava no sétimo capítulo e fui retoma-lo, uma coisa inédita aconteceu: quando fui tirar o MiniDVD da caixa e ele quebrou. Ah, você é um ogro barbudo e descuidado, não sabe nem tirar o jogo da embalagem, alguém já deve estar bradando. Me deixe explicar melhor pra todos entenderem que não foi bem assim. Eu tenho vários jogos de Game Cube e realmente a embalagem dos jogos dele são meio traiçoeiras, mais apertadas no centro do que deveriam (sem referências sexuais na frase). Mas é só apertar o centro que o disco pula, e isso não ocorreu naquela madrugada. Tirei todos os meus jogos de Game Cube da embalagem pra ver se não era Eu, e todos saíram. Confiante, tentei tirar mais uma vez o Eternal e ele quebrou de fora a fora, não tendo a mínima possibilidade de uso posterior. Ainda fui corajoso e coloquei o disco no Wii, mas o barulho que ouvi me encorajou a apertar Eject rapidamente. Mantive o save e recorri a única opção disponível: comprar outro jogo! Depois ainda coloquei dois MiniDVDs dentro da embalagem do jogo e todas saíram sem nenhum problema.

Dessa vez o jogo atrasou… mais de oito dias de enviado e nada de chegar. Reclamei do fato no Twitter e (sem brincadeira) cinco segundos depois chega meu pai com a caixa de Correio na mão. Interpreto como outro sinal.

Após ler todos os capítulos do Tomo, descobrir todos os segredos dos seus antepassados (seu avô havia sido devorado por um Guardião durante um momento de estudos) e estar de posse de todos os Codex mágicos, é vez de Alex fazer a sua participação derradeira na batalha sobre o controle da humanidade. Não coincidentemente, um alinhamento planetário se aproxima e esse é o último elemento que Pious precisa pra abrir o portal e dar entrada a entidade a qual ele serve (no meu caso, Xel’lotath). Cabe a Alex descer a cidade de Ehn’gha, fazer uso de um Círculo Mágico de Nove Pontas que está lá (e que seu avô usou a algumas décadas atrás) e enfrentar o próprio Pious, em um final razoavelmente épico (Eu ia contar o final, mas depois de matar várias surpresas do jogo nesse texto, deixo ao menos essa pra quem resolver jogar. Só posso dizer que não acaba quando termina, afinal, são TRÊS entidades na jogada). Como me empenhei, ainda fui recompensado com uma espada secreta com magia infinita durante o jogo, algo não muito fácil.

 

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No fim, Eternal Darkness se mostrou quase uma angustiante experiência espiritual, além de possuir uma poderosa construção mitológica que muito se inspira nos monstros de H. P. Lovecraft – não é difícil comparar o fator transdimensionalidade e o modo de invocação, e até a aparência dos monstros de Eternal com o clássico Cthulhu. É o melhor jogo de terror que já pus as mão, recomendo a todos (e bem que ficaria feliz com uma continuação, que o diretor Denis Dyack disse que rolaria, com mais histórias ambientadas no mesmo universo e tudo o mais).

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Comentários

  • Alessio Esteves  On 02/02/2011 at 1:55

    Caralho, sou muito mais Alone in the Dark do que Resident Evil. Fiquei curioso de jogar esse aí!

  • synthzoid  On 02/02/2011 at 16:08

    eu já joguei, um tempo atrás, o jogo é bom, a mecânica funciona, mas se torna um pouco repetitiva mais pra frente:

    Os feitiços tornam o jogo desbalanceado, ameançando muito o aspecto “sobrevivência” dos jogos de terror, o lance da sanidade é interessante, e você quase se sente convidado a degradar a mente do seu personagem.

    O lance é que os efeitos de loucura se repetem, então você passa a suspeitar e ficar mais esperto para as surpresas, levando em conta que poucas chegam a ser fatais para os personagems.

    Em contra-partida, a ambientação do jogo é FODA, os grimórios explicando as criaturas – e a narrativa típicamente lovecraftiana – impressionam, cada personagem, em habilidades e status é único e seus backgrounds justificam estatísticas como vida, sanidade e magia.

    O jogo é uma peça rara, mas soa incompleto em algumas partes, gostaria que a desenvolvedora – ou a própria Nintendo, em tempos de Wii, com um portifólio tão fraco para jogos de terror – explorasse melhor essa propriedade intelectual!

  • Monex  On 11/02/2011 at 20:28

    Eu estava decidido a dar um tempo na compra de novos jogos primeiro pela enorme quantidade de games que tenho ainda para jogar segundo devido ao preco astronomico que o dolar alcancou porem apos encontrar dois dos jogos que eu mais procuro do Game Cube tive que quebrar o porquinho.. O clima de Eternal Darkness e digno das melhores historia do mestre Edgar Allan Poe e o jogo possui uma series de inovacoes.

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