A origem do Geek Pride no Brasil

No começo da semana teve início em São Paulo a 4º edição do Campus Party Brasil, e para alguém como eu, que tem seus contatos aqui e acolá, o que a gente presencia é uma verdadeira migração de geeks que vem de todo o Brasil para desfrutar uma semana de internet de alta velocidade grátis, tecnologia de ponta, palestras e o convívio com semelhantes. É interessante notar que isto representa o ápice da maturidade desses vários fenômenos que convergiram e foram chamados de “cultura geek” por alguns jornalistas, blogueiros e etc. Convenções de “Geeks”, não podem ser consideradas eventos incomuns ou esporádicos, claro, a magnitude – e agentes envolvidos – de um CPBR4 chama a atenção da mídia e garante espaço na agenda pública, mas ao menos no município de São Paulo, a verdade é presenciamos um grande “evento” por mês.

Um pouco de perspectiva histórica, não de uma pessoa que protagonizou os fatos, mas que acompanhou e esteve lá, antes mesmo do Geek Pride ter ganhado a projeção que nós observamos hoje, é complicado triangular onde isto inicialmente começou no Brasil, da minha parte, dou muito crédito ao editorial da extinta Dragão Brasil, não apenas por se tratar da primeira – e única, eu acho – revista sobre Role Playing Games do país, mas por ter se articulado com seus fãs, a revista não tinha apenas pretensão jornalística, mas abrangia estilos de vida e consumo, a revista acompanhou o primeiro e tímido boom da cultura pop em solo nacional, em uma só edição, podíamos encontrar matérias sobre Pokémon, contos de H.P. Lovecraft e Cyberpunk, uma das primeiras empreitadas de HQ nacional nascera nessa revista.

A questão não era mais “traduzir” conteúdo, mas torná-lo acessível ao leitor, fazer com que o mesmo desenvolvesse intimidade com a matéria, outras publicações e grupos ajudaram a contribuir com isso, Animangá e Anime-Do – e foi neste que eu encontrei meu interesse por Mobile Suit Gundam – tivemos a fatídica Herói e até mesmo no lado dos gamers, revistas como Gamepower, todas com seu universo de leitores, personagens característicos e até piadas internas.

Em tempos que acesso a internet ainda era considerado um luxo, e os meios de importação de artigos estrangeiros eram raros, tais publicações, em meio a dificuldades editorias e de mercado, ajudaram a estabelecer um canal de comunicação muito importante com o público. Claro, esta foi apenas a 1º fase do processo no Brasil. Claro, o segundo passo, é pensar no tão estimado público, se tivemos publicações pioneiras, o que dizer do público? Quando a internet chegou, podíamos ver os primeiros indícios de uma cultura colaborativa, fansubbers se reunindo no mIRC, antes do scanner, cheguei a ver pessoas reescreverem na raça livros de RPG inteiros no Microsoft Word, em um caso mais notável, conheci no colégio um grupo de RPG que comprou uma máquina de Xerox usada e utilizava ela pra copiar os livros que compravam juntos, na base da vaquinha. Foi freqüentando esses meios, por exemplo, comunidades de Orkut para Góticos, que eu sedimentei toda minha educação musical, sem eles, eu não poderia ter a moral pra vestir minha camisa do Kraftwerk que estou usando hoje, enquanto escrevo essa pieguice.

O que nós tínhamos – e ainda temos – pelos canais oficiais era apenas uma fração daquilo que ambicionávamos, acredito veemente que o comodismo de esperar um Anime no Cartoon Network no fim da tarde e/ou um livro pela Devir já não era o bastante, era um público com fome.

Me lembro de eventos específicos, como as primeiras edições do EIRPG, autores convidados e estandes vagabundos, e até mesmo eventos de anime/mangá no Colégio Arquidiocesano, em um destes, cheguei a ver a Sabrina Sato (sim, a do Pânico), a convite dos realizadores, fazendo cosplay de Mai Shiranui. Eu gosto de ver a projeção das coisas, hoje, a Yamato – responsável pelo Anime Friends – realiza mega-convenções e inclusive assina contrato com a AVEX, um puta selo musical japonês, alias, ano passado, em um evento deles, conheci minha namorada e presenciei um show do Aural Vampire.

Acredito que pelo bem, vivemos em tempos mais fartos e acessíveis, ok, não sou mais adolescente, tenho responsabilidades e um emprego estável, o que me permite desfrutar de certo nível de consumo: HQs importadas, Garage Kits, Consoles last-gen, mas é preocupante ver essa galera “nova”, adentrar neste universo, em seu momento mais marcante, e encarar como um fogo de palha ou algo superficial, ou, por ingenuidade ou ignorância, desconhecer o passado tão rico desta cultura aqui no Brasil, e olha que este artigo foi escrito por uma pessoa cuja a vivência se resumiu apenas a São Paulo, quem sabe o que ocorreu país a fora naquela época. O Nerd Pride sempre existiu? Sim, em manifestações mais tímidas que outras, e muito provavelmente, quando essa glamourização explorativa e efêmera ter terminado, ele vai persistir, mais maduro e coerente.

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Comentários

  • Trenton Mendez  On 18/01/2011 at 16:01

    O canal teve que ser repaginado deixando inclusive de passar desenhos inserindo em sua programacao series australianas americanas e ate mexicanas tornando-se mais proximo do publico que assiste canais como Disney Channel e Nick. Nao preciso comentar que Boomerang saiu do vermelho deu certo e ate pouco tempo Rebeldes exibido anteriormente no SBT era o programa mais assistido do canal.Com certeza os fas de Boomerang se revoltaram porem o canal afirmou que colocaria seus desenhos antigos de madrugada e na teoria problema resolvido. A questao do Animax e mais delicada porque o Animax veio ocupando lugar de um canal trash porem excelente como Locomotion que dosava animacoes do mundo inteiro passava animacoes dos anos 80 como He-man She-ra e G-Force enquanto a noite era dedicada aos animes como Evangelion Cacadores de Elfa e Bubblegum Crisis Tokyo 2040.O primeiro ano do Animax veio com alegria para os fas porque era um canal japones de animes e bom parecia que ganhariamos um canal de anime de verdade.

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