Seja bem vindo a NHK!

Em 2010 a mídia ocidental passou a dar maior foco naquilo que ficou conhecido como “Hikikomori”, traduzindo para o português, seria algo próximo de “isolado em casa”, o fenômeno começou a surgir no Japão durante essa década e ele serve para ilustrar quando pessoas, de variados graus de inaptidão social e quadros clínicos psiquiátricos acabam se isolando em seus quartos, ignorando a rotina no mundo exterior e alienando-se por opção. O fenômeno é visto por um certo nível de tabu pela sociedade japonesa, em parte pela própria renda do Hikikomori, onde muitos são sustentados pelos pais após o início da vida adulta e até a associação destas pessoas com a cultura otaku, ainda mais quando a japonesa ainda se lembra de casos como o de Tsutomu Miyazaki, um otaku responsável pelo assassinato de quatro garotas, o que levou o país por um breve período de pânico social. O governo japonês tem investido em políticas de inclusão social e saúde pública, e obtido êxito de mínimo para moderado, por mais que seja uma preocupação por parte de seus governantes, os alicerces pelos quais a sociedade japonesa foi erguida precisam mudar para que o quadro dos Hikikomori alivie, muito destes vivem profunda depressão, enquanto outros apresentam tendências a agorafobia, Aspenger e até TEPT.

Antes dos holofotes da mídia ocidental darem atenção ao caso, em 2007 foi lançado o mangá  N.H.K. ni Yokoso (ou melhor “Bem Vindo a NHK”) pela autoria de Tatsuhiko Takimoto, contando a história do protagonista Tatsuhiro Sato, um hikikomori que há quatro anos não sai de sua residência, atormentando, ele vive incomodado pelas incessantes Anime Songs de seu vizinho Otaku, o consumo de medicamentos tarja preta e toda sorte de alucinações e paranóias experimentadas pelo seu isolamento e cansaço mental, um dia, após a visita de um grupo de ajuda, ele conhece Misaki Nakahara, uma garota que se interessa pelo caso e o incentiva a sair fora através de um programa de reabilitação.

O autor demonstra preocupação em desmistificar a figura do Hikikomori, Tatsuhiro, o protagonista, apresenta um certo grau de instrução e atualidades, conhece filmes de época e é versado em Freud – rendendo um hilário diálogo com Misaki – e aparentemente também é um ótimo escritor, mas em compensação, se encontra no principio da insanidade, suspeitando que a responsabilidade pelo fenômeno Hikikomori seja da NHK, uma grande emissora de televisão do Japão, Tatsuhiro, em meio a delírios, argumenta que a exposição das audiências a animes e outros programas leva as pessoas ao confinamento social, e chega a dizer porque alguns desenhos estão em faixas de horários cujo crianças estão ausente/dormindo mas hikikomoris não.

A intenção do autor sobre o personagem da trama me fez lembrar dos arcaicos “filósofos viscerais” da Grécia Antiga. Estudiosos – ou doidos de plantão – que buscavam não apenas a divagação mental, mas toda e quaisquer sorte de experiência sensorial, incluindo flagelo e consumo de substâncias alucinógenas, e é mais ou menos este o caso de Tatsuhiro Sato, em cada episódio ele é confrontado por um outro fenômeno ou novidade da sociedade japonesa pós-moderna, tome por exemplo o primeiro volume, onde ele conhece o lolicon, e acaba perseguindo garotas pré-adolescentes na saída da escola, posteriormente, ele experimenta o bairro de Akihabara, uma escola de mangá, o mundo dos Eroges, fóruns anônimos e até mesmo drogas de prescrição médica.

É interessante notar que, embora a atmosfera da trama é pesada, existe um fator cômico que muitas vezes mitiga o elemento chocante, seguindo o padrão dos animes e mangás, os personagens têm atitudes espalhafatosas, piadinhas e recursos de narrativas que amenizam o insalubre mundo de Tatsuhiro e seus conhecidos e até, por extensão – ou pieguice – você passa a questionar se perante essa sociedade esquizofrênica e dromológica, de hábitos cada vez mais estranhos e incapazes de acompanhar, se o isolamento do personagem principal não é na verdade uma solução plausível.

“Bem vindo a NHK” foi originalmente lançado em 2007 c/ oito volumes, rendendo um Anime e atualmente é distribuída aqui no Brasil pela Panini Comics/Planet Manga, se você está cansado de gêneros como lutas ou romances, e sempre teve curiosidade em entender melhor qual situação social um país como o Japão se encontra, eu recomendo a leitura deste mangá.

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Comentários

  • @WonderlandClara  On 10/01/2011 at 21:43

    Bom eu não escondo que gosto muito de NHK ni Youkoso. Assisti o anime sob a recomendação do meu primo e agora vou acompanhar o mangá pela Panini.
    Meus comentários são só baseados no anime já que o mangá ainda está no começo aqui.
    É genial, além de ir pegando por etapa os aspectos da ‘nova’ sociedade japonesa, como citado o lolicon, a cultura otaku, o suicídio grupal, vício em MMORPG, golpes em piramide entre outros.. o que mais me chama atenção nessa obra são as alucinações do Satou quando sozinho, acho elas muito mas muito reais é fácil se identificar com a personagem nessas cenas. Aliás apesar de doentio é muito fácil se ver no Satou ainda que não o tempo todo, para a minha felicidade.
    (Spoiler) A cena dele sozinho depois da partida doYamazaki para o campo é sem dúvida a minha favorita, quando ele tira a conclusão de que é um deus que criou toda a realidade para si mesmo (/Spoiler)

    Estou muito curiosa para ler o resto do mangá que logo na primeira edição já mostrou que vai ser bem diferente do anime.

  • Alessio Esteves  On 17/01/2011 at 21:47

    Fiquei curioso, mas não tô na pilha de comprar não… Me empresta, Synth??

  • melisa  On 17/02/2011 at 23:44

    é simplismente muito engraçado é 10,muito divertido eu amei!!!!!!!!!

  • karlos  On 09/04/2012 at 23:56

    Adorei o anime.Louco, engraçado,otaku e emocional.Esse eu recomendo.
    Quanto ao mangá, senti pressa em solucionar a trama nos 08 capítulos.A estória é a mesma com um novo final.Apesar disso eu recomendo.
    BEM VINDO A N.H.K.- Bem vindo a Conspiração.

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