Apocalipse Semântico

“Uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada. Elas estão no mundo e portanto explodem, bombardeadas. […]o apocalipse, aqui, será apenas uma espécie de caos no interior tenebroso da semântica. Salve-se quem puder.

Quando eu recito ou quando eu escrevo, uma palavra – um mundo poluído – explode comigo e logo os estilhaços desse corpo arrebentado, retalhado em lascas de corte e fogo e morte (como napalm) espalham imprevisíveis significados ao redor de mim: informação. Informação: há palavras que estão nos dicionários e outras que não estão e outras que eu posso inventar, inverter. Todas juntas e à minha disposição, aparentemente limpas, estão imundas e transformaram-se, tanto tempo, num amontoado de ciladas.” – Torquato Neto

Esse é um post que não sei muito bem como escrever, porque se trata de um opinião contra a linguagem usando justamente uma de suas formas manifestas: a escrita; mas que precisa ser escrito, nem que seja para expurgar algumas agonias da minha mente.

Muitos esperam pelo fim dos tempos, o grande apocalipse universal redentor de todas as almas; illuminatis espancando velhinhas na rua; naves-alienígenas atacando São Paulo, etc., porém, não percebem que mais do que um conflito entre anjos e demônios ao estilo nórdico do Ragnarok (ou qualquer outro tipo de conflito dual, ou multilateral com cargas opostas), o Apocalipse será uma destruição semântica da humanidade. O fim dos tempos vem sendo construído há muitos milênios, principalmente com o aperfeiçoamento do uso da linguagem oral e posteriormente escrita, que teve como condição o redirecionamento e controle dos signos por grupos sociais dos mais diversos ao longo da história. Se como diz os semitas, “no princípio era o verbo”, seu reverso, no caso o fim, será a aniquilação total da ação através do cessar da linguagem.

Quando falo de linguagem não me refiro apenas à escrita, ou a fala, mas a todos os tipos de signos dos mais diversos gêneros de manifestação: sonoro, visual, celular, olfativo, palativo, sensitivo e todo o resto. TUDO que existe para nós seres vivos, de alguma maneira passa pela linguagem. Os nossos próprios neurônios se comunicam numa linguagem própria de cargas elétricas (ou seja lá o que for) para nos transmitir as sensações, os pensamentos, para solidificar uma idéia. Ou seja, indubitavelmente a linguagem sempre está presente, o que faz por exemplo, que aquela ciência por mais objetiva que possa se considerar, acabe sendo limitada em sua pretensão de conhecer o real per si. Isso acontece justamente porque para descrever um objeto de estudo a ciência atravessa os sentidos de alguém que além de já receber uma informação decodificada pela linguagem da sua mente, vai ter que decodificar a informação dentro de um sistema de linguagem socialmente aceito para ser entendida por outro individuo similar a si. Dessa forma, aquela cisão de Descarte entre “sujeito e objeto” acaba recebendo um headshot. O individuo e o objeto se confundem, não se separam para pesquisa racional, como ele se orgulhava de dizer. Para alguém descrever um objeto precisa vê-lo, para isso precisa receber informação visual (que é linguagem), que vai ser transmitido ao cérebro pela linguagem dos neurônios, que vai ser transformada em uma linguagem verbal ou escrita ou seja lá o que for. Sendo assim, o limite da ciência, de toda forma, é a linguagem.

Vivemos uma guerra que talvez seja inconsciente, ou não, mas que não tem como ser analisada ao todo, só podemos perceber alguns sintomas.

Em “1984”, Orwell nos mostra a importância que uma linguagem livre tem na sociedade humana e como a manipulação lingüística está diretamente ligada com o domínio social. Aquele que domina a linguagem tem domínio sobre as pessoas e sobre o princípio de realidade (aquilo que diz o que é o real ou não).

Já outros grupos, como os poetas marginais (Torquato Neto e Leminsk por exemplo), consideravam a linguagem um demônio que por si só já é uma prisão. Torquato durante seus últimos anos de vida na década de 70 se dedicou a mostrar as limitações das palavras escritas, abandonando a poesia e partindo pro cinema marginal, porque considerava que a linguagem fílmica era bem mais próxima da representação do real do que a poética, porém, depois também se desiludiu com o cinema e acabou se matando em 1972. Torquato marcou uma época em que poesia era vida porque era linguagem, como tudo mais, e muitos dizem que seu suicídio foi porque tentou pular para fora da linguagem, tentou buscar uma via de existência fora da comunicação. Não seria o próprio apocalipse que ele buscava?

Afinal, o que somos se não os diversos modos de comunicação psicológico, social, biológico, celular, espiritual, enfim, o que somos se não criadores de informação? Ao sentirmos a luz, a textura da roupa que usamos, ao fazermos tudo isso estamos criando informação! Por mais que tenhamos lido que o ferro se comporta de tal maneira no calor, quando vemos e sentimos o ferro no calor estamos criando informação nova através das células, dos neurônios, da interpretação e fixação da idéia. Era por isso que esses caras da década de 70 privilegiavam a experimentação à informação dada. Por isso experimentavam drogas, sexo, uma religião muitas vezes estranha, e etc., provavelmente estavam em busca de uma informação final sobre algo, de uma fuga da linguagem, mas não conseguiram. Se um dia todos os signos deixassem de existir o que seriamos de nós? Nada. Mas não é tão claro quanto isso que toda nossa limitação também é ocasionada pelo uso da linguagem?

Wiliams Burroughs, escritor drogado e beat da década de 50-60, considerava que a linguagem é uma espécie de vírus limitando a existência humana e que se desenvolveu de forma tão violenta que uma hora vai matar o seu hospedeiro ( a humanidade). Também dizia que uma palavra pode prender uma civilização por séculos. Seria o Apocalipse de novo isso da linguagem matar o homem?

Seu amigo Kerouac em um livro sobre budismo disse algo similar a: ‘Buda ao meditar sobre a arvore sagrada não esvaziou a mente, a preencheu de vácuo cósmico. Por isso venceu a morte, venceu a linguagem.” Em outro momento ele disse que “tudo simplesmente ‘é’, livre de interpretações”. Muitas pessoas, entre eles os beats, perceberam a seriedade desse conflito e tentaram ficar de um lado, do seu próprio lado. Já que falamos de um conflito caótico no universo e não de antagonistas, vilões e heróis.

Defender uma linguagem libertária não acaba sendo defender as grades da prisão virando amigo do guarda pra amenizar o sofrimento que é inevitável? O Apocalipse semântico talvez ocorra do exarcebamento do uso da linguagem, como diziam os rebeldes da década de 60-70, ou talvez ocorra pela limitação da linguagem através do controle por parte de alguma espécie louca de autoritarismo, mas vai acontecer. Ninguém sabe quando, porque, o que vai desencadear, mas quando todos os homens se calarem, ou por não conseguirem falar ou por não ser possível um entender o outro, o Apocalipse Semântico vai acontecer. Assim como o grand finale do universo vai ser uma versão reversa em milésimos de segundos do filme de milhões de anos de desenvolvimento cósmico, o Apocalipse semântico vai ser uma regressão ao infinito em milésimos de segundo de toda civilização e seus códigos, úteis ou não.

“Se a história fosse outra coisa se não um ‘sistema universal de paixões e erros’, o homem deveria ler da mesma maneira com que Goethe aconselha ler seu livro Werther, ou seja, como se a história exclamasse: ‘Seja homem e não me siga!’” – Nietzsche

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Comentários

  • Leôndidas Júnior  On 12/01/2011 at 17:39

    ““no princípio era o verbo”, seu reverso, no caso o fim, será a aniquilação total da ação através do cessar da linguagem.” Pertinentíssima essa observação, no próprio livro “Apocalipse” nos fala de monstros e outras feras que virão no fim dos tempos, e todos soltarão fogo e outros artificios, a maioria pela boca, como exemplo o dragão que emergira do mar, (ou sei la não me lembro bem agora), basta lembrar também que os Judeus de outrora em vez da condenação de Barrabás, que cometera crimes físicos, e visíveis, preferiram condenar a Cristo que “somente” tinha a palavra. Na conturbada contemporaneidade, cada vez mais estamos nos esbarrando em opressoes e repressoes, pelo uso da linguagem, a liberdade de expressão vem como uma cortina da sociedade neoliberal, desfarçar a lógica do poder dizer, fundador do wikileaks sendo preso, a Hungria declarando a proibição de liberdade da imprensa, os EUA proibindo contato, filmagens dos prisioneiros de Guantanamo, as mídias brasileiras omitindo informações e imagens,etc. e muito mais. No entanto esses mecanismos se fazem e mais facilmente podem ser burlados pelos revolucionarios de plantão, no entanto nos vemos em uma prisão psicologica do falar do expressar, como seres sociáveis gostemos ou não, necessitamos de trocas de afetividade em um modo mais ampliado até amizades, no entanto dependendo do dito, ou o que ele queira dizer se intaura automaticamente uma guerra, a guerra talvez mais poderosa de todas, uma espécie de rotulagem, por exemplo é como se eu fosse falar sobre o flamengo ter conseguido o ronaldinho gaúcho, e de 5 amigos que me escutam, 4 apos minhas 2 primeiras palavras já vetam minha linguagem, e pensam “la vai esse pau nu cú falar de luta de classes denovo, puta ki pariu”. essa prisão cerca os que vão bombardeando, e destruindo o caos tranquilo que o sistema maior tenta nos impor, essa é a nossa verdade, uma verdade que não incomoda estranha… muito estranha… por isso e outras coisas continuemos falando nossas merdas…

  • Alessio Esteves  On 19/01/2011 at 23:36

    Mas o conceito de glossolalia nesse caso seria uma evolução ou involução?

    • agrt  On 20/01/2011 at 16:05

      Não creio que seja uma involução, tá mais pra ‘mudança’/’evolução’ , mas que nem por isso vai deixar de desencadear o apocalipse semântico. Quando escrevi esse texto eu tava meio fora de mim, então nem me considero capaz de avaliar o que eu mesmo escrevi, agora que olho racionalmente, já não mais extasiado comigo mesmo, me parece um pouco exagerado, e etc, mas isso é apenas porque voltei a me reprimir com o que é a ‘realidade’ e a impossibilidade dessas coisas acontecerem. Diria que passado um tempo voltei a me iludir com o ‘realismo’, com o que é aparente e com o que meus sentidos que captam o ambiente me dizem. Tem gente que se orgulha de ser realista, considero mais um tipo de neuroso psicologica do que outra coisa… Não tô negando o que eu disse no texto, pelo contrário, estou dizendo que quando escrevi estava em estado alterado de consciência, embora de modo totalmente natural.
      Glossolalia coletiva artificial talvez seja um bom indicador da explosão do apocalipse semântico, só que se essa lingua for realmente forjada através da experiência pessoal sob extase divinatório considero que talvez o efeito até seja mesmo o apocalipse semântico artificial, mas vai ser bem diferente, sei lá, vai ser menos doloroso.

  • Eduardo de Andrade Machado  On 27/01/2011 at 4:35

    Bom. Não sei se mereço ser cruxificado ou não, mas, não acredito no fim de coisa nenhuma. Ou, mais apropriadamente à discussão, da linguagem em si. O referido apocalipse semântico não é senão o estranhamento do ininteligível, dado um certo padrão conveniente a toda uma hierarquia cultural. Digo isso sem os academicismos da vida, seja dentro ou fora de instituição. Acredito que o lance é olhar para a vida. Ser realista não é ser neurótico. Se uma pessoa tem que se preocupar em viver e o faz com dificuldade, ela não é neurótica se, às vezes, colocar a mão na cabeça e planejar um assalto pra sanar suas dívidas sendo que em caso contrário possa vir a perder o pouco que tem, de um jeito ou de outro. Neurose talvez seria que nos preocupássemos em viver na função do fim da linguagem, mas, como o conceito de linguagem é muito abstrato e pode fagocitar tudo, poderia muito bem engolir, sem dó, o dinheiro como uma linguagem, o que não deixa de ser verdade, afinal, é um meio estabelecido pelo qual se infere algo – no caso, a troca de bens, o que garante uma certeza material de alimentação, de transporte, de possibilidades de consumo -, mesmo que para o consumo de uma essência – seja de tipo religiosa, transcendental por meio de alucinógenos, por meio de outra experiência pessoal, ou de acesso a cultura – o inverso seja também verdade. Ora, então o dinheiro é relativo e você anula tudo por que o que interessa não é o dinheiro, mas, experimentar a vida e isso derruba todo argumento realista? Não. Acho que isso é ser severo demais e criar um realismo em cima da transcendentalidade da pessoa. Existem várias coisas pra se viver na vida. A linguagem é forma de vários poetas terem vivido algo, seja em função do prazer que escrever lhes proporciona, seja pela vontade quase involuntária que a escrita impera sobre um autor pra chegar ao papel, seja pela necessidade de escrever pra se manter, seja pra fazer tudo isso e não se contentar, ou mesmo pra fugir da linguagem pela linguagem. Mas, seria um pecado para um libertino, acho que posso chamá-lo assim, da linguagem, perceber que a vida concreta, digo, cotidiana, em que os hábitos e as rotinas materiais se exercem, é uma realidade tão mais simbólica, ao tempo em que também é concreta, que a linguagem, porque aqueles que tentaram viver sem a necessidade, só em busca de essência, viveram de uma forma, quase imperiosamente, introspectiva? Mas aí vem o argumento: tá mas vai da vontade cada qual…num sei o que…o sexo tem outras formas de ser alcançado, a própria religião oriental de num sei aonde leva o cara a uma experiência e o líquido ou o cogumelo, tal, tal, e o ‘superego’ da sociedade com suas tradições malditas e limitadoras da realização além do convencional no ser humano…blá blá blá. Certo, será tão difícil amar uma pessoa e, numa relação sincera, alcançar tanto o êxtase das sensações pelo sexo, quanto o sentimento de preenchimento interno, pelo amor àquela pessoa, de forma tão pura, como se fizesse, tal como me lembro de ter lido o Huxley, o sexo ser uma coisa desnecessária e que, de tal forma, pudesse não satisfazer à sociedade e nem ser um macaco dos costumes, mas, satisfazer aquela vontade própria, que também pode ser encontrada de várias outras maneiras? Acho que não. Às vezes eu vejo que essa conjunção alucinante de linguagens, que deve ser interessante pra quem as vive, sem ser por meios livrescos e sim por meio de experimentação verdadeira, acaba se sobrepondo de maneira tal às condições efêmeras das pessoas que, quando elas se veem de forma ou ameaçadas a se encontrarem numa certa situação de um fingimento, tentam voltar àquele padrão que consideram como o seu. Mesmo que, nesse processo, as respostas para as oposições já estejam pensadas ou que não apresentem formulação pronta mas se confeccionam em frente a uma objeção. Não acredito que o apocalipse seja a questão de um sujeito perder a sua crença na vida material e não mais vivê-la também no plano simbólico, isso é, pelo contrário, buscar, de uma forma sedutora, estabelecer causa e efeito, ainda que de uma forma em que se pense não constituir uma lógica, mesmo que operando por meio dela. Mas aí é o ponto chave, o desuso usando uma linguagem, mas, a linguagem sempre vai existir. De outra forma, sempre. Mesmo que o não entendimento cause segregação dos que tem certeza de tudo, do seu ponto de vista parcial de expressar as convicções pessoais em linguagem. E o processo sempre reinicia-se. É o que se chama de vida como processo. É a densidade interna da dialética. Não pra fechar com um conceito dado. Mas pra entender de onde o conceito vem, pra onde ele vai e como ele pode enganar o próprio raciocínio, ou simplesmente, não ter pretensão e se fazer diverso em situações não analógicas mas sempre conservando sua essência.

    Quanto à consciência dos marxistas…vou até me calar porque eles são ‘muito inteligentes’ e já sabem de tudo, não sabendo de nada, não conseguindo se livrarem da sua prisão ideológica, achando que agem com uma clara consciência. É uma linguagem autodestrutiva. É o apocalipse que cria novos intérpretes e que não conseguem ler ao menos uma coisa qualquer sem achar que aquilo seja a complementação da resposta que eles pensaram te encontrado.

    Acho que H Dobal, e aqui eu formulo meu argumento, sim – estabelecendo minhas causas, querendo que o efeito seja feito por quem se sentir tocado de alguma forma com a leitura do argumento -, descreve em outra situação, um pouco da atmosfera que pode ser o apocalipse semântico, entendendo toda a universalidade de sentidos que este implica. Refiro-me à sua poesia chamada “A Resposta”, que se encontra no seguinte em meio à seguinte postagem (http://dudumidia.blogspot.com/2011/01/via-lactea.html).

    Enfim, tal como o próprio Agostinho falou, esses estados de contato consigo expressos por meio de linguagens, em estados de linguagem diferentes, são um apocalipse, que por destruir tudo constantemente sem serem infinitos, nem temporários, apenas sendo, são a negação do próprio apocalipse, que o confirma logo em seguida. Sendo assim, não existe apocalipse.

    Ou seria isso uma neurose realista? Não sei. Quem sabe deve ter sorte de compreender tão bem as coisas com uma segurança de saber que compreende…na sua linguagem.

    • agrt  On 27/01/2011 at 16:51

      Todos nós merecemos e devemos ser crucificados, desde que não fiquemos pregados na cruz eternamente, que tenhamos coragem de sair de lá de cima e de deixarmos de ser mártirs de nós mesmos.
      Tu fala que devemos deixar de neuroses, porém considero isso impossível porque parte da neurose está intrinsecamente ligada a nossa incapacidade de conhecer a realidade física tal qual é dada. Aliás, se é pra falar com efeito e causa, a civilização é por si uma doença e nesse caso não excluo a oriental, digo, todas as civilizações e seus sistemas simbólicos são sublimações da realidade, está que é inatingível por completo, podemos perceber apenas parcialmente. Um dos pareceres do velho Freud, em final de vida e extremamente pessimista, foi que a sociabilidade é uma neurose, a necessidade de precisarmos de alguém é uma neurose, por tanto, todas as civilizações são neuroses particulares de uma comunidade e que claro, tem suas características peculiares de acordo com o contato que mantém com o mundo.
      Já fui realista, existencialista e ateu, e de qualquer maneira isso não me dava uma sensação melhor do que ser utópico, secundarista e cristão, (não estou dizendo que um é melhor ou pior que o outro, pra mim são ilusões humanas de toda forma que encontram maneiras de manifestação diferente) então encontrei um modo de expressão mais sincera numa espécie de auto-religião, que, aliás encontrei numa mistura de Edgar Allan Poe, Torquato Neto, Beowulf, Jack London e Orwell, não que eles de fato tenham dito algo, mas liguei meus próprios pontos entre todos eles e encontrei aquela noção que tanto uso de individualidade coletiva e de linguagem mais como problemática do que resposta. Ela sempre é nosso limite para o que formos fazer.
      O apocalipse semântico não existir não tira o fato de que não é real, está acontecendo, mesmo que não exista. É às vezes muito fácil limitar o conceito de realidade para aquilo que temos substancial e materialmente, ignorando que mesmo o que existe no mundo passa por nossas percepções então é também linguagem, e por tanto limitada, e que se quisermos expandir o conceito de realidade devemos ou nos sublimar ainda mais na linguagem ou acabar com ela, e qualquer uma das duas coisas vai dar no tal apocalipse, não que ele vá destruir com a humanidade, isso é uma questão mais de efeito textual do que um fato que vai abalar com o ser humano. O apocalipse semântico pra mim é um fato, que pode acontecer da maneira que Orwell disse em 1984, com a manipulação da linguagem ou com o que Gibson por toda sua obra expressa como a super-exposição à informação num mundo tecnicizado, que faz com que as pessoas se tornem apáticas. Vendo assim, o apocalipse semântico não vai acontecer, está acontecendo desde que o homem criou a primeira forma de linguagem, mas ele pouco importava e foi se tornando mais e mais hierarquizado, o homem foi se aprofundando na sua própria doença, em sua neurose e seu ápice é considerar que aquilo que ele percebe no mundo é real quando não passa de interpretações sensoriais e portanto linguagem.
      Não tente ler esse post ou essa resposta com o conceito de tese e antítese para depois fazer uma síntese. Não se trata disso, se trata justamente de apagar a idéia de contradição que paira como um fantasma na mente do ocidental desde os gregos e que se expande até as eras moderna, se exarcebando novamente no iluminismo. Os gregos tinha o conceito de contradição, mas ele ao menos era mais aperfeiçoado e não excluía a incapacidade de suas cosias serem não sendo nenhuma delas. Aconselho a ler “Acreditavam os gregos em seus mitos?” do Paul Veyne, que entre tantos lindos vôos filosóficos ele chega a conclusão de que acreditavam, alguns de uma forma racionalizada e outros simplesmente acreditavam mesmo.
      Pois bem, só faço essas observações quanto ao teu comentário, e também sou realista, só que considero que o realismo materialista não me satisfazia, não me aplacava os sentidos, então parti pro meu próprio realismo, daquilo que percebia no mundo, foi ai que entrei num confronto com a linguagem e que encontrei um interlocutor principalmente nos poetas marginais, que entenderam como ela é uma espécie de destruição completa, uma prisão, uma grade, mas que cerca todos nós. Estou consciente de que linguagem é prisão, mas sei que estou preso nela, a minha diferença para os outros no máximo é que posso identificar brechas, saídas e entradas ocultas onde enfio o dedo pra descobrir outra coisa, para me descobrir! Enfim, é isso, sou o realista das utopias, poderíamos dizer, porque na minha cabeça não consigo admitir que a realidade é apenas o que existe per si, que aliás, somos incapazes de perceber per si!
      De qualquer forma, pode sair da tua cruz, que eu estou em breve saindo da minha. Não se sinta o único crucificado, como Nietzsche fazia, seja mais dionisico, mais apolíneo, viva mais o lado Eros e o Thanatos da vida. E quando possível leia Eros e Civilização do Marcuse ou aquele Vida contra a morte de Norman O. Brown, falam de como a civilização, a linguagem, a sociabilidade são neuroses. E o realista, é o mais neurótico dos neuróticos, porque se nega a compreender que tudo passa por sua mente e que por isso não existe objeto e observador, existe apenas observador, tudo parte do observador. Os poetas, esses tolos inúteis que fingem que vivem de alma, comem carne, é claro, e não são mais especiais que ninguém, a diferença, é que são deuses despertos, encontraram a brecha e enfiaram os dedos nelas muitas vezes até entenderem como tudo funciona e que principalmente se auto-conhecem, já que tudo a principio vai partir de suas mentes mesmo, o principal, é isso.

  • Eduardo de Andrade Machado  On 27/01/2011 at 18:32

    É muito engraçado interpretar o que quis chamar de Dialética como se fosse uma coisa contígua em relação a Gregos e tarará (ou, em relação às pseudointelectuais das Letras que aprendem no livro didático esse lance de tese, antítese e síntese). Ora, isso que tu fala, o Derrida já falava, aliás, o próprio Descartes falava, a verdadeira Dialética é que, por mais ocorram apocalipses semânticos, sempre existe algo que continua indefinido, funcionando como uma interpretação efêmera que logo logo ‘se desmancha no ar’ pra que outra se instaure, não num processo retilíneo, mas, justamente como você fala, são milhões de situação extemporâneas que corroboram num único processo e quando a pessoa entende interpretar um processo, ela esquece aqueles vários outros que a circundam. Ora, ser neurótico. É muito arbitrário dizer isso, penso. Se o ser humano é neurótico por sempre ter tido, em sua vida, falta de coisas que o completassem, a neurose passa a substituir tudo o que seja um sinônimo de necessidade – concreta, seja material, seja simbólica, seja outra coisa que não se consegue explicar mas que se sente, fundindo várias coisas ou simplesmente não fazendo algo pensando que está fazendo. Digo, fazer algo com a cabeça em outra sintonia é desvirtuar um caráter de uma ação e driblar seu contato como objeto e sua subjetividade, o que nem por isso deixa de se estabelecer numa base racional, com uma dada subjetividade e uma realidade externa, entenda-se algo incompreensível ao indivíduo. Husserl, antes de Sartre, e o Kant, antes de Husserl, conceberam interpretações da relação entre sujeito e objeto como sendo – o que é apenas um insight, não sendo a complexidade das suas teses – uma relação que nunca se completa. Ora, nunca o objeto é totalmente apreendido pelo sujeito, pois este se utiliza de um meio específico, uma linguagem determinada para explicar aquele objeto. Caso se apresento o mesmo objeto de uma forma diferente, o sujeito tem ali um conflito de interpretação, o que o pode levar a pensar que tudo aquilo que concebia como a descrição pode ser facilmente descartado e que não é pertinente ter entendimento daquilo. Mas, para além disso, o necessário que se compreenda é que, nunca essa relação é uma relação limítrofe, sempre há algo do subjetivo que não se explica observando a objetividade externa a si, ou per si, e muito menos não se pode explicar (um sujeito, com suas convicções e experiências) uma situação subjetiva com sua própria realidade, sua própria linguagem. Ele nunca é completo. O objetivo não tem esse domínio. Descartando-o, o sujeito nunca completa o entendimento de si, portanto, quando ele configura sua realidade e sua linguagem, ele se entende num período, quando ele passa a ver diferente, ele altera sua visão de si, o que, querendo ou não, interfere, em algum sentido, na forma que ele vê o mundo.

    Não consigo, por mais que eu queira, explicar o que eu penso, porque a própria mão me trai, e como o próprio Lev Vygotsky falou, existe pelo menos uns três pensamentos, sendo uma idéia realmente inerente a uma expressão do sujeito, outra que ele formula,seja para censurar aquilo que primeiramente queria dizer, até que ele diz, de uma forma incongruente, ou não totalmente, com sua idéia original. Tá, existe compatibilidade com alguns mecanismos do Freud, mas, eu não vou estabelecer, necessariamente que a ideia de um veio do outro, isso é ridículo. O que eu entendo é que isso perpassa, parecendo-se à ideia de outra pessoa, mas, não é a de outra. Ora, que seria então a tua teoria de teia, senão isto? As pessoas tem pensamentos iguais em pontos diferentes e tudo mais, só que não necessariamente, penso, deve existir uma estabilização de escrita, isso é coisa de acadêmico, pra querer quantificar as leituras que fez. Isso me lembra aquela conversa que tivemos a respeito de Jung.

    O que quis dizer e, agradeço pelas indicações, mas, peço também que volte para o comentário, é que, simplesmente, sempre existiu esse apocalipse, não como sinal do fim, tal como um certo exegeta aqui comentou, mas, como uma discrepância, que não é motivo para ser explicada pela dialética grega, e que nem deve ser dada como crédito de Derrida, mas, a última interpretação, carregada de todo um aparato do pensamento também oriental que tenta driblar a herança escolática ocidental, seria uma mais sensata, a de não estabilização das coisas. O que faz, tal como Hegel o diz em sua Lógica, existir uma discrepância entre as coisas e seus significados, elevando a aparência como uma superfície que é complexa e que, ao mesmo tempo não diz muito referente ao processo que sempre se recompõe dentro do sujeito, e que, não necessariamente, volta àquela superfície. Uma falha de linguagem, sempre criou outras linguagens, e esse apocalipse é contínuo, tal como o movimento que existe na vida da humanidade, tal como as ficções científicas que são tão mais reais que tratados e teses acadêmicas vivem explicando, tal como os Invisíveis demonstra. É possível viver várias realidades numa dimensão, num estado de sensibilidade e nunca estabelecer um padrão certo da configuração das coisas. Mas, o que falo quanto à materialidade das coisas é que, muita gente, não vive esse mundo o qual tentamos abordar. Não que sejam mais felizes por isso, mas, suas necessidades e suas formas de entender o mundo não são as que contemplam essa desconfiguração, pelo fato de terem outras preocupações, e assim, seguirem em sua linguagem no desafio de prosseguirem suas vidas.

    No fim, é muito difícil enraizar, em termos práticos, toda essa coexistência das coisas, mas, isso é uma falha inerente à ‘neurose’ que é, por si só, ser humano. Imperfeitos e neuróticos, por causa disso? Não. Talvez essa neurose seja e não seja coisa alguma. Para além de discursos que afetam leitores. Estes precisaram de muita coisa externa pra externalizarem suas coisas internas, mas, como tu falou, tem que colocar o dedo na ferida pra saber se condiz com a superficialidade de um discurso publicado ou em anotações ‘pessoais’.

    • agrt  On 27/01/2011 at 19:14

      Nosso pensamento funciona geralmente como na escola mesmo, tese, antítese e síntese, e eu não escrevo geralmente nesse sentido! Derridá, Derrida, bla bla bla, cara, eu já li ele , alguns textos, mas não devo nada disso a ele, mas sim da minha experiência na incapacidade da dialética explicar as coisas, não estou negando que ela possa explicar outras tantas, mas meus problemas mentais ela não resolve e nem pretende.
      Os gregos, sim, sempre eles vão estar na maioria das nossas origens, assim como o cristianismo. Porque? Simples, olhamos para os escandinavos e celtas e chamamos seus sábios de bruxos ou sábios, no caso dos druidas celtas chamamos de filósofos. Existia filosofo nos celtas? Sábios nórdicos?Bruxas nórdicas? Tudo isso é interpretação romana, primeiro pagã (filósofos e sábios) e depois cristã (bruxos e feiticeiros). Bebemos diretamente do rio que corta a terra helênica, aliás, a maioria das conclusões que chegamos hoje, de certa forma, são apenas percursos pessoais que também já foram andados pelos gregos. Considero que quase tudo que se originou da nossa idéia de real, vem em partes dos gregos.
      Quanto a Descartes, ele diz:
      “O que não parecerá de modo algum estranho aos que, sabendo quantos autômatos, ou máquinas moventes, a industria dos homens pode criar, utilizando poucas peças em comparação com a grande quantidade de ossos, músculos, artérias, veias e todas as outras partes existentes no corpo de cada animal, hão de considerar esse corpo como uma máquina.”
      E depois, para meu desprezo:
      “Pois, enquanto a razão é instrumento universal que pode servir em todo tipo de circunstancia, esses órgãos tem necessidade de uma disposição qualquer para cada ação particular; do que resulta ser moralmente impossível que haja disposições bastantes diversas numa máquina para fazê-la agir em todas as ocorrências da vida, da mesma maneira que nossa razão nos faz agir.”
      Ele privilegia a razão incondicionalmente, aliás se prestamos bem atenção, sua noção de Deus é quase uma noção de deus como Razão. Não que isso seja mentira, um dos deuses não-despertos do homem é a razão, mas se entregar totalmente e apenas a ela é o que construiu a tecnocracia. Quando falo de romper a dialética é a completa destruição da noção de objeto e sujeito, pra mim o objeto fora do sujeito existe, porém, só pode ser capacitado através do sujeito, então, em termos profundos só existe o sujeito. Sem essa de método cartesiano de uso da razão para distanciamento da emoção.
      Quando falei que somos neuróticos, isso independe de qual nossa postura ideológica ou faceta em relação à realidade. Libertários e reacionários, todos somos neuróticos psicologicamente. Era isso que Freud queria dizer em seu final de vida. É meio complicado pra mim tentar explicar aqui o que ele dize em mal-estar na civilização e em O futuro de uma ilusão. O próprio Dr. Freud era particularmente vindo de duas gerações aparentemente antagônicas, se sentia atraído pelo romantismo (e dizia claramente que os românticos perceberam o inconsciente antes dos cientistas, sendo que a grande descoberta da psicanálise era o inconsciente) e ao mesmo tempo se sentia inclinado a trabalhar com métodos positivista. Ao mesmo tempo em alguns textos ele fala da religião e sublimação como ruins, e em outros ele já diz que melhor do que fazer terapia é fazer parte de uma religião, que sana os problemas psicológicos da melhor forma.
      A verdade é que na tal conversa sobre Jung, antes eu falei que somos inclinados a negarmos o que lemos, sei lá, quando estamos fora do lado acadêmico, mas a verdade é que nossas leituras as vezes nos ajudam a organizar idéias que já pensávamos, no caso do Freud tive isso. Para ele (em sua fase final de vida, digo) desde que nascemos somos reprimidos, essa é a diferença entre seres humanos e os outros animais, porque reprimimos nossos instintos sexuais (que não são exatamente sexuais). O que difere o ser humano é sua capacidade de se reprimir através da cultura e principalmente da linguagem, e enquanto crescemos somos inclinados a eternamente e inconscientemente querermos voltar ao nosso estado de criança recém nascida! Para ele os bebês vivem em mais atividade sexual do que o adulto, porque para o bebê tudo lhe dá prazer, ver, tocar, cheirar, sentir, tudo que ele possa fazer lhe dá prazer, o bebê é auto-suficiente, até que tem que sugar o leite da mãe e tem sua primeira decepção, ver que ele não depende apenas de si, que o peito não aparece sempre que ele quer! E quando crescemos por causa de vários traumas que são inevitáveis no desenvolvimento humano (um deles é aprender os signos e significados da cultura, ou seja, a linguagem e a sociabilidade) vamos perdendo nossa capacidade de sentirmos prazer em tudo, e concentramos nosso prazer em uma única e limitada coisa, a sexualidade, o pênis, a zona erógena do corpo. Desta maneira, todo ser adulto é neurótico e a criança é uma criatura em processo de neurotização. Ele considerava que toda cultura é uma sublimação da neurose criada para tentar sentir de alguma maneira aquela sensação infantil que nosso inconsciente.
      Sublimação é o seguinte, existe o principio de realidade e o de prazer, o bebê vive apenas o principio de prazer e nega o principio de realidade, quando crescemos vamos sendo habilitados e inseridos na realidade e nossos pais e a existência material a nossa volta nos limita, nos censura, nos impossibilita de fazer certas coisas, crescer e “amadurecer” quer dizer se submeter à realidade, que não é satisfatória para a mente. No nosso inconsciente fica aquele desejo infantil, de voltar ao principio de prazer (a criança vive por muito tempo no principio de prazer pq os pais cuidam dela o tempo todo! Então ela não precisa estar em constante contato com o principio de realidade, mesmo que este esteja sempre presente é fraco), e quando vamos crescendo, sublimamos cultura para satisfazer esse desejo. Sublimação é uma adaptação que fica meio termo entre principio de prazer e principio de realidade, é a realização do principio de prazer de uma forma que o principio de realidade não seja afetado, tipo, você vai realizar seus desejos instintivos até certo ponto, até onde o principio de realidade permitir.
      É arbitrário, e Freud de certa forma era pessimista em relação a isso. Ele considerava então que seremos eternamente desequilibrados psicologicamente, e que a psicanálise por tanto em sentido geral era inútil! Porque? Porque a psicanálise só poderia transformar uma pessoa fora de um sistema social, que vive outros valores, em uma pessoa dentro dos valores daquela sociedade, ou seja, ela só servia para “cura” individual e não coletiva, já que restaurava o destoante a uma sociedade que por si é doente. Daí uma frase que uso muito, de que se o mundo é doente, só sendo doente pra se ser um pouco saudável. Acho que ficou confuso, mas é mais ou menos isso a idéia do Freud, a solução, as vezes ele dizia que era fazermos arte e termos religiões para aplacar nosso desejo inconsciente, outras vezes dizia que era nos libertarmos de tudo isso, o que eu interpreto como um cair fora da civilização, que é representada principalmente da linguagem.

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