Lei 156: O início da Era de Prata no Anime/Mangá

Eu dediquei os últimos quatro meses para ver o anime Mobile Suit Gundam 0079, pra quem não sabe, esta foi a primeira série da franquia a ser televisionada, tem uma animação bem característica da época (animação que eu curto chamar de “Speed Racer”) robôs com design cartunesco, refletindo muito a inspiração/design daquela época (Guerra Fria, Sci-Fi) claro que em trinta anos de série, uma coisa ou outra mudou.

É legal ver que naquela época já existia uma mentalidade de fan service, em um dos episódios, a personagem Frau Bow toma banho junto com o trio de crianças refugiadas, em meio a bagunça, ela acaba se deparando com o protagonista, Amuro Ray, ficando encabulada e criando um clima chato.

Clima chato…

Desde a semana passada, eu tenho acompanhado a escalada da “Lei 156”, uma lei, que entre tantas outras coisas, define que é proibido qualquer tipo de relação pseudo-sexual ou sexual cujo seria considerada criminosa no mundo real, ademais, também é proibido qualquer relação intima fora do normativo convencional (ou seja, incesto e outros artifícios como plot device foram severamente machucados).

Esta lei abre uma série de vias para a interpretação: ela é nociva ao processo criativo? O que nós podemos definir como “relações criminosas”? Esta lei, por extensão, apresenta caráter homofóbico? Quantos clássicos, principalmente do filão feminino, nós vamos marginalizar em detrimento da lei? Só pra dizer alguns exemplos: Angel Sanctuary e Gravitation

E o mais interessante, será que Frau Bow não poderá mais tomar seu banho? E a equipe de censores vai retirar de uma continuidade c/ mais de 13 anos de série, um capitulo? Outros títulos, com anos de mercado, como Berserk e Gantz, ou até mesmo as reimpressões de Dragon Ball vão ser prejudicados? Mestre Kame nunca mais atazanará a paciência da pobre Bulma.

Sente o impacto? Não apenas sob o meio e seus artistas, mas na indústria, nos comerciantes, e principalmente, na cultura que cada um de nós ajudou a construir.

O Japão na cultura pop ganhou espaço graças a uma geração que cresceu junto, apreciou e consumiu este tipo de mídia e seus ícones, em tempos de super-flat, reverter ou amenizar o processo me parece meio improvável, como toda censura, antinatural, tanto quanto o próprio Anime/Mangá.

Eu me lembro de comentar aquilo que Alan Moore falou sobre o progresso de culturas sexualmente permissivas, no caso do Japão, agravantes: a libertação do anel peniano fascista e misógino, da Bomba a Bolha.

(Quem não se lembra do Shunga-e clássico “A Noiva do Pescador?”)

Como no passado, no ramo das artes, o Ocidente Europeu viveu na Renascença uma de suas épocas mais rebeldes e sexualmente progressivas, camareiras portando pseudônimos escreviam sobre os escândalos da corte francesa, Marques de Sade expandiu os horizontes de nossas mentes, Franz Von Bayros uniu feérico, onírico e sexual em uma composição só. (Qualquer semelhança com inúmeros doujins não é mera coincidência).

A mídia ocidental, em tom de deboche, tem alegado que este é o início da “Era de Prata” no meio Anime/Mangá, vale a pena entender que nem tudo são flores (ou Watchmen), a presença da Era de Prata nos fortaleceu, abriu mão para roteiristas continuarem e expandirem seus trabalhos, hoje, muito do que se criou na época é aceito c/ nostalgia.

Mentira? Então nos explique as inúmeras retomadas de elementos da Era de Prata? Eu pude comprar a Ed. De luxo da saga “Batman RIP”, por Grant Morrison, onde encontramos elementos como a Liga dos Heróis, o Bat-mite e até mesmo o Batman de Zur-En-Arrh, lembre-se, imaginação é a quinta dimensão.

Muito se discute hoje em dia sobre a transição do Imperialismo cultural a aquilo que vem sendo denominado de “Soft Power”, da imposição oriunda de uma diplomacia beligerante para a gnose consumista, estamos falando de diplomacia via robôs gigantes, alternativas culturais, tentação.

Sabe-se que boa parte da pressão sob o Partido Democrata do Japão vem de lobbystas ocidentais, após o mais-do-que-passado escândalo sobre a venda de Eroges na Amazon.

Não gosto de viver sobre a sombra iminente do malfeito de um possível inimigo, paranóia não me convém, não é saudável, mas a Lei 156 é o primeiro passo da censura, sua aceitação plena abre espaço para um congresso, de uma geração senil e distante, impor novas sanções criativas ao todo meio, qual será o próximo passo? O Fim da violência gráfica? A retratação de estrangeiros? A amenização do tom antipatriótico? Faça a sua aposta…

(E no próximo post “Anatomia nas HQs: Rob Liefield e Paródias Pornôs”, pra fechar o ano com classe!)

 

 

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Comentários

  • Lucas  On 20/12/2010 at 16:18

    Vejo que você é mesmo fã de Grant Morrison………..

    Foda-se as referencias !

    Não sei metade do que é citado….

  • Clara :3  On 20/12/2010 at 23:16

    De início achei que a grande motivação fosse adaptar o mangá aos padrões ocidentais (EUA, Europa) mas não acredito mais nisso, ao que parece o governador de Tokyo, que é a cabeça por tras de lei, é homofobico, racista e ufanista, então não acho que ele queira agradar qualquer mercado estrangeiro.
    Eu sou a favor de uma certa censura, censura não, “classificação indicativa”, acho que revistas como Shonen Jump não deveriam publicar Ichigo 100%, DNA² , Video Girl AI ou outros títulos considerados “Ecchi” já que o público alvo é composto de crianças bem novas.
    Por outro lado penso que obras que fazem apologia ao estupro e pedofilia também deveriam ser revistas, muitas vezes esses temas são tratados simplesmente como ‘naturais’ não sendo o assunto principal da obra e por passarem assim despercebidos tornam-se conceitos aprovados e irrelavantes pra sociedade, mas esse tipo de coisa não pode ser censurada, tem que vir do bom senso do mangaká e dos editores, para não ferir a liberdade artistica.
    O que seria de Vladmir Nabokov se tivessem censurado a sua Lolita? (particularmente apaixonada por esse livro).
    Não dá pra imaginar animes clássicos como os citados Dragon Ball e Berserk sendo censurados! Evangelion sem cenas de nudez, que são importantes para o entendimento da obra já que o protagonista é um garoto na puberdade, ou mais Kaworu, o último anjo, não tendo a forma de um garoto e ensinando ao protagonista pela primeira vez e de forma absolutamente delicada, o que é ser amado.
    Essa lei é absurda sob qualquer aspecto e não precisa ser fã de Boys Love para sentir que vai perder uma coisa, difícil será ver um título que não vá ser prejudicado…

    • Clara :3  On 20/12/2010 at 23:27

      Quero poder assistir Sailor Moon e seu Tuxedo Mask namorando, Sasuke e Naruto se beijando acidentalmente, e mais do que isso, o que acontecerá com títulos Josei e Seinen? (Meus favoritos)
      Só se pode esperar que as consequencias não sejam tão grandes quanto aparentam.

  • Alessio Esteves  On 18/01/2011 at 21:03

    Mas que bosta, hein?

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