LSD e Vazamentos… a repressão é previsível

 

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Ele [Timothy Leary] é o homem mais perigoso da América

Richard Nixon

Devemos tratar o sr. Assange da mesma forma que outros valiosos alvos terroristas: matá-lo

Jeffrey T Kuhner, no Washington Times

 

No verão de 1960, Timothy Leary, em viagem de férias ao México, recebeu de Anthony Russo,um amigo antropólogo, um presente: alguns cogumelos alucinógenos conhecidos como Psilocibina. Leary, após pegar o título de PhD em Psicologia, estudou o cérebro humano e a relação dele com o comportamento por 10 anos. O efeito dos cogumelos durou 5 horas, e Leary disse posteriormente que essas horas foram mais importantes que toda a vida acadêmica anterior dele, com mais de 15 anos. Foi o tipo de transformação iniciática que toda pessoa deveria experimentar, que joga num caminho doido e sem volta. Ele agora tinha a convicção que o mundo visto pelos humanos – com aparência concreta, absoluta – era apenas uma projeção mutável do cérebro, extremamente maleável e manipulável. É o que os hindus chamam de maya.

Depois de voltar das férias, Leary pôs se a espalhar seu evangelho psicodélico, inclusive entre pesquisadores de Harvard, onde dava aulas. Ele convenceu o Departamento de Psicologia a permitir que ele fizesse testes com a substância em alunos voluntários. No mesmo período ele conheceu o LSD, descoberto pelo suíço Dr. Albert Hoffman, nos anos 40. A substância seria a chave para a intensificação das suas pesquisas com seus próprios alunos, auxiliado na tarefa pelo também professor Richard Alpert.

Entretanto, parece que os anos 60 realmente tinham certa propensão ao Caos, já que as coisas começaram a sair do controle. Professores não estavam gostando do uso livre de drogas em Harvard, mesmo com fins científicos. Alunos que não conseguiram se inscrever nas pesquisas, se puseram a arrumar alucinógenos de outras formas, aumentando ainda mais a desconfiança de certos setores de Harvard para o trabalho de Leary e Alpert. O polícia foi chamada e convocou o departamento anti-drogas, que avisou a CIA. No fim das contas, Leary foi pressionado, e junto com Alpert, acabou deixando seu cargo de professor e pesquisador em Harvard.

As igrejas americanas também não gostaram das pesquisas, nem da parte teórica. Leary dizia que o LSD e outras drogas psicodélicas ativavam partes elevadas do cérebro humano, o que geralmente conduzia a visões de religiões mais calcadas no politeísmo… e como é de se imaginar, a rigidez do monoteísmo não cabe nessas mudanças cerebrais. Governos, igrejas e corporações perderam seu poder, pois os macacos amestrados tomariam consciência de seu amestramento, tendo condições de imprimir uma nova forma de viver, livre de amarras mentais auto-impostas.

"Viver é surfar o caos. Você não pode modificá-lo, mas pode aprender a lidar com ele surfando seus limites. Tem mais, meu caro: ninguém é realmente místico por mais de cinco minutos. Não está contente ainda? Te digo uma coisa que aprendi na minha vida, aprendi muito profundamente: toda a realidade que nos cerca não passa de uma opinião".

Foi a citação dele que provavelmente melhor sintetizou sua crença nas drogas psicodélicas como libertação.

Em 1962, Leary e Alpert continuaram suas pesquisas por conta própria, numa fazenda em Millbrook. Toda sorte de gente foi pra lá, de artistas importantes da época, até hippies que só queriam se drogar um pouco. A condição para receber o ácido era relatar toda a viagem detalhadamente. Com a grande popularidade da Fazenda, o governo Nixon achou que era uma boa idéia usar Leary e suas pesquisas como bode expiatório para uma mudança cultura profunda na época. Uma série de batidas violentas começou, e logo as pesquisas terminaram. O governo anuncia que as pesquisas dele eram “muito perigosas” – estranhamente, as pesquisas nucleares nunca foram classificadas assim. A imprensa naturalmente acompanhou a sanha paranóica do governo, e publicou várias reportagens de psiquiatras que rosnavam que o LSD e a maconha eram as maiores ameaças a humanidade.

 

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As acusações vinham de tantos lados, que certos setores da sociedade o acusaram de ajudar a CIA com seu infame projeto MK ULTRA, que queria exercer o controle mental pleno através de privação dos sentidos e uso de drogas psicodélicas. Como estamos falando de sujeira da CIA, é difícil dizer se Leary participou ou não, afinal é tudo secreto por lá. Mas uma prova que refuta essa afirmação são os resultados da participação de Leary no projeto de reabilitação de presos da penitenciária de Massachussetts, de 1960 a 1962. A prisão era conhecida pelo alto índice de reincidência e pela violência de seus presos. Segundo dados da própria cadeia, 80% dos presos tratados por Leary – usando um misto de LSD, com terapia em grupo (terapia essa que seus professores de Harvard disseram ser anti-científica e impossível de ser aplicada) – jamais retornaram às grades, mesmo 15 anos depois. Os presos entrevistados falaram que tiveram uma compreensão tão ampla da vida durante o tratamento, que perceberam como o crime era patético por si só – enquanto isso, os tratamentos no MK ULTRA eram conduzidos por agentes secretos, e geravam bad trips e suicídios.

Como qualquer ferramenta, o LSD poderia ser usada para o “bem” e para o “mal”. Mas segundo dados de Leary e Alpert, ela agia num nível cerebral anterior a Cultura – é como programar um computador num nível abaixo do sistema operacional – se mostrando como um poderoso agente que pode ser usado para lavagens cerebrais. O que muda são as técnicas e a vontade de quem está usando LSD. No caso do tratamento de Leary em presos, o desejo deles de nunca mais voltar ao crime está documentado, eles eram voluntários. No MK ULTRA não havia voluntários, muito pelo contrário. A idéia da CIA era desenvolver técnicas de ministrar as drogas sem que as pessoas soubessem.

 

Em 1965, Leary enfrenta a lei de frente: foi preso na fronteira com o México com um cigarro de maconha. Pena? 30 anos, mas uma apelação resolveu o problema. Em 1968 outra prisão, também por posse de maconha. Mais uma apelação. Em janeiro de 1970 ele é novamente preso e sentenciado a 10 anos de cadeia – por algo que pela lei só deveria no máximo dar seis meses de grade. Ele é resgatado pelo grupo radical The Weather Underground e foge pra a Argélia e se reúne com os Panteras Negras. O próximo destino é a Suíça, onde busca asilo. O governo suíço lhe nega asilo e denuncia sua posição para os EUA. Ele voa para Viena, Beirute e depois Afeganistão, onde é preso pela CIA no aeroporto e mandado para os EUA, em 1972. Ele só sairia da cadeia em 1976, libertado pelo governador da Califórnia Jerry Brown, na época que Watergate mandava abaixo o governo americano. Depois dessa libertação, ele dedicaria a vida a programar computadores.

Timothy Leary morreria em 1996, vítima de câncer de próstata. Em seu leito de morte, as dores eram tantas que chegava a inalar óxido nitroso (gás hilariante) direto do bocal do cilindro. Após o óbito, sua cabeça é separada do corpo e congelada (pedido dele, esperando que as tecnologias de ressurreição progridam no futuro) e suas cinzas são jogadas no espaço, junto com as de  Gene Roddenberry, criador de Star Trek.

 

As personalidades influenciadas diretamente por Leary e pelo LSD são várias, e os resultados obtidos por elas parecem mostrar que as pesquisas dele não deveriam afinal, ser tão perigosas assim. Um sem-número de bandas – das quais se destacam os Beatles e The Who – disse ter desenvolvido melhor sua criatividade sob efeito de LSD. Bob Dylan e Brian Wilson, dos Beach Boys, disseram mudar seus estilos para melhor após experimentarem drogas psicodélicas. Poetas como Allen Ginsberg e  Lawrence Ferlighetti e escritores do naipe de Aldoux Huxley e William Burroughs, disseram alcançar seu máximo com o uso do ácido lisérgico. Grant Morrison disse ter escrito muito de Os Invisíveis sob efeito de LSD. Bill Gates disse ter sido muito influenciado por Leary em seus anos em Harvard, e que usou LSD. Com Steve Jobs é a mesma coisa, ele disse que o LSD foi uma das coisas mais importantes da vida dele. Francis Crick, ganhador do Nobel, só percebeu a feição de dupla hélice do DNA após uma viagem lisérgica; o mesmo para Kary Mullis, que levou o Nobel de Química em 1993 por criar o sistema de detecção de DNA, em material ancestral, hoje conhecido como exame de PCR.

Não são poucos depoimentos para mostrar que ao menos alguma influência que pode ser taxada de positiva, vem do LSD. E Leary nunca quis a liberação total da droga, mas sim seu uso clínico, por psicólogos e médicos experientes. Porém, o governo botou uma tampa em cima das pesquisas para sempre.

 

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Percebe o paralelo? Temos um dissidente social – querendo mostrar que o mundo que vemos não é tão simples assim – acusado por um crime menor após ser caçado pelo mundo, suas atividades são consideradas uma ameaça a vidas inocentes – substitua por establishment – mesmo apoiadas por uma vasta camada da população. As conspirações não ficam de fora, e chovem acusações de que ele trabalhou para o governo (a CIA, mais especificamente). Não, Julian Assange não é o primeiro que enfrenta o governo com um pouco de subversão, e nem será o último. A diferença é que hoje temos algo chamado internet que conecta as informações numa velocidade ultra-rápida, escancarado uma série de tretas governamentais como nunca. Hoje, como previu o próprio Leary, existem hackers, ataques anônimos contra instituições poderosas, a balança não está mais pra um lado, a velha mídia de massa não é mais única no mundo.

Assim como o caso de Leary, muitos estão sendo levianos com o Wikileaks, se focando unicamente nas revelações recentes sobre a diplomacia americana, e se esquecendo que o Leaks mostrou ao mundo detalhes de torturas feitas pela ONU no Quênia e na Somália, procedimentos criminosos em Guantánamo, e operações escusas de petrolíferas na África, fora o já famoso massacre conhecido como Chacina Colateral.

Não sei se Assange é estuprador, se é autocrático e ditador como afirmam dissidentes do Wikileaks… assim como não sei se tudo que Leary escreveu sobre o LSD e o condicionamento cultural. Aceito que essas são possibilidades, e sei que a figura simbólica dos dois transcende o tipo de acusação que recebem. Não sei como será o desfecho dessa caçada a Assange e seu Wikileaks, mas sei que o mundo depois desses dias nunca mais será o mesmo – assim como não foi depois que que o LSD invadiu o mundo; e como não foi depois que uma força policial sueca apreendeu os servidores do Pirate Bay, em 2006!

 

Galileu [Via Cogumelos Mágicos e Aldeia dos Insurretos Furiosos Desgovernados]

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Comentários

  • Andrei Fernandes  On 10/12/2010 at 16:55

    Adorei a matéria, não concordo com o que o Wiki Leaks está fazendo, mas só de ver os EUA agindo dessa forma, me faz simpatizar com a causa do Assange. Bem, com a internet, não sei como as coisas irão daqui pra frente. E espero estarmos chegando numa época, aonde segredos e manipulação sejam mais difíceis de acontecer.

  • Goethe  On 13/12/2010 at 13:50

    Transparência é tudo, Wikileaks e os seus defensores estão de parabéns!

  • Velho da Montanha  On 13/12/2010 at 16:58

    Informe-se!! Não caia nas mentiras da mídia corporativa!!

    Acompanhe a CAMPANHA ANTIWIKILEAKS!!

    http://ahoradosassassinos.blogspot.com/search/label/ANTIWIKILEAKS

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