Quem não se arrisca não pode berrar

Esse texto é uma singela homenagem ao dia de suicídio do poeta Torquato Neto.

Alô, alô, amizade, a mesma platéia que vaiava agora aplaude. Essa frase resume a trajetória de Torquato Neto após a morte. Chuva miúda não mata ninguém, mas mesmo assim vamos reclamar um pouco, como o anjo torto nos ensinou.

Antes o cara não podia nem entrar no Clube dos Diários, não era lugar pra cabeludo vagabundo, agora o auditório tem o nome dele. Ele que nem terminou o curso de jornalismo pra ficar fazendo música com os baianos agora é nome de campus universitário. De maldito poeta marginal virou herói do estado… Pobre Torquato. Grande Torquato. Muito se ouve o nome dele, é nome também de palco, de banda, de peça de Teatro, se duvidar até de rua, entretanto tão poucos sabem quem foi. Não esqueça, o fim no começo, como sempre.

Todo mundo sabe que foi amigo do Caetano e dos outros tropicalistas, só não sabe de todo o resto. Um dia vi na TV um cara perguntando “Afinal de contas, porque Torquato Neto é importante pra cultura piauiense?” e todo mundo ficou em silêncio. Quem vem de lá faça o favor de dizer porque é que veio.

Amizade, o cara é Herói Underground, como dizia Waly Salomão, é importante é pro Brasil milongueiro inteiro, não só pra esse estado do lado de dentro. Torquato foi precursor do jornalismo personalista em que o jornalista deixa de tentar ser inutilmente imparcial pra dar sua mais sincera opinião – alô idiotas! Aprendam como é que faz -, além de ter praticado uma linguagem experimental de se comunicar numa coluna impressa, misturando fluxo mental e malandragem. Torquato era polemista do cinema nacional, defendia a liberdade do cinema marginal em frente ao gigante esquerdismo do cinema novo.

Isso de tropicalista foi só a fase mais calma da vida dele, o cara era muito mais. Era um sujeito que intuitivamente acabou se tornando uma figura maldita, contracultural, não aceitava nem mesmo a gramática: Mandei meu dicionário as favas, pobre de quem só se comunica com as palavras. Foi um foco de luz, um sopro de liberdade, um delírio xamânico nacional, que inspirava os outros no período em que a ditadura militar havia se tornado fortemente violenta. Ele era pop, era o cara que sabia de tudo que acontecia na nossa cultura e só queria ser livre, numa espécie de anarquismo divino: quero que esse sonho seja liberado, seja livre, sem nenhum limite.

Torquato é símbolo de resistência. É uma amostra de que quando você quer, faz de qualquer jeito e se não der certo… adeus. Algo que inspira pessoas até hoje, inclusive a mim. Faça, amizade, faça, de qualquer forma o que der pra fazer. “Transe, não se tranque” ou “Mesmo que não seja nada, é preciso fazer de alguma forma”. É verdade que ele se matou, ou será que a sociedade o matou? Sei lá, só sei que ele era o bicho mais louco que passou por aqui e pra mim chega!

Obs: Sim, não, pode não ser, não é não, nem pode ser sim. Adeus-ão.

Anúncios
Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

Comentários

  • Alessio Esteves  On 10/11/2010 at 22:23

    Olha, conhecia o cara de nome só…

    Vou atrás do material dele.

Trackbacks

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: