Liberdade de depressão

Hoje vivemos a ressaca pós-eleições, infelizmente ainda temos o segundo turno para nos fazer obrigatoriamente sair de casa, mas durante as últimas semanas do primeiro tempo da pseudo-democracia tupiniquim uma palavra que ficou em destaque foi: CENSURA. Transcritos de discursos recortados do seu contexto original foram veiculados pela mídia. Era latente entre os conservadores a divulgação de que o PT e seus aliados estavam atacando a liberdade de expressão da mídia, por tanto censurando a liberdade de denunciar. Por outro lado os da “esquerda brasileira” – entre aspas porque não se configura verdadeiramente como uma esquerda – em seus protestos denunciavam um cartel midiático que manipula informações. Em suma, ficamos semanas ouvindo pronunciamentos rasos de candidatos, acessórias e companheiros de partido – além de twiteiros inúteis como eu – sobre mídia, liberdade de expressão e censura.

No período da ditadura militar brasileira, a censura ocorria de modo direto sobre os meios de comunicação e expressões artísticas. No Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) existia a Divisão de Censura e Diversões Públicas (DCDP) responsável por analisar todas as notícias, eventos e obras, dando um parecer positivo ou negativo quanto a sua circulação. Sem dúvidas esse é o pior tipo de censura, por que pune fisicamente o individuo quando este tenta mandar alguma mensagem que é considerada subversiva pelo status quo paranóico, porém, uma coisa que os opressores aprenderam é que não podem obter uma sociedade relativamente estavel apenas repremindo os individuos discordantes. Eles precisam cooptar para seu lado os que estão na oposição, ou no mínimo tornar seu discurso rebelde em enfadonho e sem sentido para a população em geral. Por isso o governo militar começou a investir em eventos como Festival Internacional da Canção (FIC); buscou cooptar as emissoras de TV como feito com a Rede Globo; começou a financiar a produção de Filmes; e etc.

Apesar de grande parte da cultura rebelde ter sido veiculada nos Festivais, os vencedores quase sempre eram as canções mais bestinhas possíveis o que levava grandes figuras undergrounds como Torquato Neto a dizer coisas como: “Chico também se recusou a participar da FIC da TV Globo, a festa da mediocridade oficializada (e retardada) desta província”; “nota zero para a música que é horrível e idiota, zero para o FIC aí e pra quem gosta dele e de tanto atraso, de tanta província, de tanta repetição, de tanta permissão controlada, de tanto carnaval de mentirinha, de tanto engrupimento, de tanto atraso, atraso, atraso. Nota zero, embora isso não valha nada. Só pra não dizer que não falei de flores”.

Quanto ao financiamento cultural aos filmes brasileiros, eles passavam por uma censura de argumento central, conteúdo das imagens e público, ou seja, só eram financiados os filmes que não ameaçassem a ditadura, muito pelo contrário, tinham que ter amplo público, ser muito visto. Mais uma vez peço a palavra de Torquato sobre o Cinema Novo de Glauber Rocha que se institucionalizava: “Exibicionismo otário de novos ricos à beira da falência: é isso. Quanto custa um filme desse Jece Valadão? A pergunta interessa porque esse reencontrar o povo, segundo compreendo a partir do que afirmam os ideologos da industria, deve ser por aí mesmo. Um cinema experimental, aberto, livre, não anda mais nas cogitações da moçada (Gustavo Dahl, para a Revista Vozes: A liberdade não me faz falta). Querem faturar o mercado interno, é o que dizem. Na verdade estão gastando milhões de cruzeiros para cavar a sepultura em que se enterram. Tremendo programa, bichos. Uma loucura. Quero ver.”

Só que o povo vendo que o governo está tão “preocupado” com a cultura e sua circulação não percebe que na realidade os verdadeiros artistas contestadores vão perdendo espaço: eles NUNCA ganham um festival, seus filmes NUNCA vão ser financiados e eles NUNCA vão se apresentar na TV; ou seja, aos olhos da população geral eles não vão passar de meros incompetentes que não conseguem ser melhores que os outros, rebeldes sem causa, subversivos inúteis que não vencem um festivalzinho. O discurso dos artistas livres de verdade são neutralizados pelo povo, perdem efeito explosivo, e eles começam a ser censurados pela mediocridade geral.

Com o tempo a censura vai se tornando mais eficiente, branda, deixa de ser diretamente opressora e transforma os artistas em conformistas, concede espaço ao medíocre tirando o espaço do genial e contestador, e assim foi evoluindo até chegarmos nos dias de hoje. Sou um ativista cultural, filiado intelectualmente aos poetas marginais e a cultura underground brasileira da década de 70. Faço fanzines e estou tentando organizar um evento de culturas excluídas e etc, etc, etc, etc. Mas digo a todos os filhos da puta da grande mídia que se acham ameaçados e “CENSURADOS” que EU sou um dos que é verdadeiramente censurado!

Vocês tem milhões de reais para investir em suas revistinhas quase sempre medíocres, alimentando sempre o mais do mesmo e ainda recebem “prêmios” pelo lixo que divulgam. Eu tenho uma edição do fanzine cultural Meus Bagos no computador concluído a mais de 3 meses, o zine tem ilustrações cedidas gratuitamente por dois ilustradores e poemas de uns oito poetas locais, mas mal consegui tirar quatro impressões! Por simples e puramente falta de dinheiro.

Liberdade de expressão garantida por lei é muito boa! Dá uma falsa ideia de igualdade, por que ela na realidade custa caro aos bolsos e só quem tem pra gastar são os que menos se preocupam com liberdade de expressão. De que adianta a Liberdade de expressão para dizer ao seu colega algo contra o governo se quando a opinião da “mídia” se manifestar ele vai dar mais crédito aos “especialistas” que são pagos pra isso e por isso está pseudo-garantido que são melhores? De que adianta Liberdade de expressão se você não pode concorrer com os gigantes da imprenssa? De que adianta a bosta da Liberdade de expressão se você não consegue apoio pra um fanzine culturamente necessário enquanto uma revista de múmias literária com mais da mesma bosta todos os meses tem tiragem de 10.000 mensais pago pelo governo? Liberdade de expressão existe apenas para quem pode pagar, quase nenhum de nós pode.

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Além da censura financeira, temos a censura moral e a de déficit cultural. Não podemos nos expressar de qualquer maneira que as pessoas se ofendem, mesmo quando é uma mera bobagem. Nossa sociedade é tão paranóica que o processo judicial virou quase como uma recurso do ego a qualquer coisa que ele se sinta mínimamente mal. E déficit cultural é muito complexo e tenho muita preguiça de discutir isso, mas duas coisas podem dizer um pouco da sociedade brasileira em que vivemos:e o funk é considerado patrimônio cultural e Ivete Sangalo a representante da música brasileira. Pergunto: Será que não tem coisa mais relevante pra ser tombada como patrimônio, tipo, as cavernas pré-históricas descobertas no Piauí? Será que a música brasileira vai tão mal que Ivete seja nossa melhor cantora? Claro que não, existe muita coisa boa sendo feita musicalmente no brasil, mas… são censuradas, atacam a moral da sociedade, fazem questionar valores, o ocidente, ás vezes até sua própria existências, e etc. Muita banda pequeno por aí faz um som do caralho mas não tem dinheiro, não é abraçado pela mídia grande mesmo com sites quase abandonados na internet por falta de visita. O exemplo atual de falta de influência é o twitter, onde um famoso diz que solta um peido e sua mensagem repercute em toda a bolha virtual, enquanto alguém que fale coisas minimamente interessantes morre sem receber uma mensagem se quer.

Enfim, o público brasileiro não é educado para uma cultura de verdade, sua cultura é excessivamente populesca, do tipo puramente carnavalizante, circense. E do outro lado os “intelectuais” só possuem conhecimento livresco, engessado, múmificado, vivendo em suas tumbas piramidais de conhecimento inútil, com seus corpos apodrecendo inutilmente.

“HÁ, PARA DE BESTEIRA TEM A INTERNET”. A internet para nós usuários comuns ainda funciona como se tivessemos falando com um amigo ao lado… quantas pessoas no Brasil usam internet? Quantas dessas tem cultura o suficiente para lerem coisas além do G1 e R7? Quantas pessoas usam a internet para adquirir informação e não pra ver pornografia ou conversar com seu amigo que vê o dia todo enquanto estiver em casa? Não estou dizendo que não devemos fazer essas outras coisas, mas sim que a internet ainda tá longe de ser uma mídia que ameace o controle da informação, quando de fato as pessoas obtiverem a cultura de se informarem por várias fontes na internet e etc, não tenho dúvidas de que essa censura sensível vai chegar nela. Por enquanto ela serve apenas de discurso para apoiar a falsa Liberdade de expressão. Na internet você é livre pra dizer o que quiser, exatamente porque ninguém vai te ouvir, somente um número ínfimo de pessoas à sua volta.

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Blogs abandonados por falta de leitores e twitters falando coisas interessantes sendo esquecidos por não serem de uma grande personalidade. Isso tudo é fruto de uma censura intelectual que se dá na nossa raiz mental, desde que começamos a ser educados e não percebemos. Somos educados a ver censura apenas na interrupção direta das coisas e não no fracasso. O fracasso de um projeto, quase sempre é fruto de uma censura. Toda sociedade que não desensolve plenamente a capacidade de seus individuo s de realizarem algo, por mais felizes que eles se considerem vivendo na medíocridade, é uma sociedade de censura.

Termino esse texto com trechos lindos de Torquato Neto, escritos na sua coluna “Geléia Geral” no jornal “Última Hora” numa terça-feira, no dia 2 de novembro de 1971, chamado “mais conversa fiada”:

1 – E agora? Eu não conheço uma resposta melhor do que esta: vamos continuar. E a primeira providência continua sendo a mesma de sempre: conquistar espaço, ocupar espaço. Inventar os filmes, fornecer argumentos para os senhores historiadores que ainda vão pintar, mais tarde, depois que a vida não se extinga. Aqui como em toda parte: agora.

4- Chegue e me diga: eu te amo mesmo assim. Eu devo responder igual, como sempre. Chegue e me aperte na parede, grite comigo: Babilônia. E depois se esqueça de mim e continue. Vamos transar, vamos pintar, vamos gritar.

6- Eu quero muita alquimia, eu quero muita magia negra, amizade. Eu quero morrer cansado: não quero. Rogério Duarte estava me dizendo que na rua dos alquimistas todo dia explodia uma casa. Pum! Pum! Pum! Isso também é um batuque, tambores, tambores. A palavra subterrânea viu Uvigs? se escreve com i e não com e, manda me dizer, de Nova York, Hélio Oiticica. Waly está por ai revendo amigos, graças a Deus. Todo mundo se viu direito no show de Gal e se insisto nesse tema, calma, morena: me envenenou. O que é que eu posso fazer? E agora?

9 – Parece brincadeira e também é: se quiser grilo, tem. Se quiser samba, faça. Se quiser culpa, curta. Mas assim: abaixo a psiquiatria. Leiam as cartas de Artaud na Flor que é linda. João Gilberto é o melhor guru. Gal é a melhor cantora. Poetas do Brasil: POESIA! O romantismo é um neo-romantismo.

11- E o fim no começo, como sempre.

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Comentários

  • synthzoid  On 04/10/2010 at 18:20

    Resultado direto da censura sequer é a cooptação dos meios, mas a dissimulação do impacto da mensagem, como você mesmo disse, melhor que vetar, é transformar algo em insensato, enfadonho e até mesmo infantil.

    Herança da ditadura, não só o obscurantismo intelectual, mas também o imediatismo ideológico e pragmatismo que assolam a classe média, não é que falte conteúdo para discutir, esse até existe, mas o nível informacional dele deixa a desejar.

    Algo que foi pertinentemente aproveitado pela cultura corporativa no país e pelo sistema de educação particular.

    Enfim, na esfera de idéias, se você não é legitimado pelo capital (simbólico ou não), tua mensagem, de forma inversamente proporcional, perde valor.

    Como você mesmo disse, existe muita coisa boa por ai, infelizmente, eclipsada pela grandeza institucional e sua capacidade de pulverizar informações medíocres na rede.

    Cabe a nós estabelecemos modos alternativos de contato e network, para que idéias relevantes ou contrárias ao status quo possam alcançar sua audiência.

  • Jônatas  On 04/10/2010 at 19:12

    eu li o texto, gostei, a idéia da censura por meio do fracasso é uma realidade, o lance é mesmo jogar todos os holofotes pra cima do que não é relevante e deixar as pessoas que fazem algo de novo no breu

  • Marcelo Vera  On 05/10/2010 at 14:06

    Não conhecia o Blog, gostei muito, divido as mesmas opiniões politicas, sociais e culturais aqui descritas.

    Obrgado (ja favoritei)

  • Alessio Esteves  On 06/10/2010 at 15:01

    Nem tem muito o que comentar… Texto fudido. Parabéns mesmo!

  • eddie  On 18/10/2010 at 13:29

    ontem à noite minha mãe veio falar q o possivel governo do PT vai tirar a liberdade de imprensa. eu olhei seriamente pra ela e disse: ‘vc tá acompanhando alguma coisa, qualquer coisa, q se diga na imprensa?’
    ela negou, obviamente, sei q ela nem ao menos assiste jornal nacional, o q ela faz o tempo todo é se alienar vendo apenas desenhos e dvds, nao busca noticias em nenhuma outra forma de midia (impressa q seja) e de repente vem me falar sobre um futuro pseudo-governo sem liberdade de imprensa.

    diante sua negativa apenas disse: ‘se vc nao vê o q tá acontecendo na midia agora, pq vc tá preocupada com o q pode acontecer ano q vem? já tá tudo bloqueado, flor, nao me vem com essa.’

    por nao saber o q acontece, e por nao entender o q acontece, ela julga q algo ruim está por vir, qdo, na verdade algo ruim já vem acontecendo desde o meu nascimento…

    mas como alguém q ela julga importante lhe trouxe essa ‘novidade’ ela se preocupou… isso é ignorancia pura, de uma mulher q no presente momento está fazendo faculdade de pedagogia… e isso me preocupa.

    tudo no texto faz todo o sentido, pq, obviamente, muitos tb enxergam as coisas dessa maneira e nao podem, ou nao tem como, dizer nada a esse respeito…

    triste, mas é um fato…

  • vander  On 11/11/2010 at 23:37

    muito bom o texto, me fez lembrar dos anos 80 quando bandas de heavy metal underground trocavam fitas k7 pelo mundo inteiro, eu não fiz parte desse cena mas só de poder ouvir a herança que esta perdida por ai me emociono em saber que jovens de todo o mundo se reuniam em favor de um ideal que não era patrocinado pelo estado nem pela midia, e claro que esse exemplo serve para outras areas como literatura e etc; fico feliz em saber que mesmo sendo em menor numero, os verdadeiros criadores de conteudo perduraram para sempre no coraçao dos que se importam.

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