HQs Alternativas: questão de ótica.

Quando acessamos o hotsite da Panini Vertigo, encontramos a seguinte definição, logo na primeira página:

No último post eu propus a idéia que uma HQ, por ser explicita quanto ao seu conteúdo não pode ser considerada necessariamente uma HQ “Adulta”, mostrando que, pelo contrário, muitos dos roteiristas dentro deste rótulo flertam com uma mentalidade adolescente.

Porem, foi no âmago de grupos sociais caracteristicamente adolescentes que a inclinação para o pensamento contracultural viria a surgir, e dali, o termo “alternativo” seria cunhado.

Talvez seja isto que justifique que um quadrinho “adulto” é aquele propenso a violência e erotização excessivas, da mesma forma que grupos de moleques, sobre uma premissa niilista, trocam sopapos, chutes no estomago e porradas na cabeça, lembram do livro “Mate-me Por Favor”? Mais ou menos por ai…

Mas, será? Eu vejo os Quadrinhos da Turma da Mônica – tá, chute alto – tratarem de forma natural sobre assuntos ditos como “contemporâneos” que afetam a rotina de seu público leitor: histórias sobre internet, divórcio, necessidades especiais, coisas,  que sim, são densas, mas onde se encontra ausente a “plasticidade” que muitas vezes os escritores anglo-americanos projetam.

Então em suma, poderiam ser os quadrinhos da Mônica, dignas de deter o selo da Vertigo? Não. Seria então, A Turma do Mônica, um gibi adulto? Sim. Seria esse gibi, algo “alternativo”? Questão de ótica.

Claro, existem exemplos menos extremos: Tony Stark, vulgo, Homem de Ferro, encarando o alcoolismo, Ororo Munroe (Tempestade, do X-men) e sua claustrofobia, a tragédia familiar de Bruce Wayne, todos são fatos marcantes, mas que não caem no vício “explotativo” que os quadrinhos adultos comumente fomentam.


É curioso o posicionamento do termo “alternativo”, muitas vezes, por parte do público, falta a seguinte reflexão: “o produto é alternativo a…?”, é comum, no marketing como ciência, a questão do produto alternativo, por exemplo, de um produto capaz de suprir as mesmas oportunidades que outro, então, neste caso, poderíamos falar que Marvel é alternativo a DC? Tenha isso em mente.

Fazia parte do vício ideológico de trinta anos atrás “polarizar” aquilo que seria alternativo, novamente, limitando a questão de perspectiva, a noção de “Tribo Urbana” viria a derrubar a alienação insular da “sociedade alternativa”, como Maffesoli bem posicionou o aspecto trans-locação dos membros da tribo urbana permitia que ambos vivessem os dois mundos, de dia executivos, a noite, punks, ou melhor, nesse caso: de dia leitores DCnautas, a noite, leitores da Marvel.

Então, antes de entender a “alternativa”, alegada pelo departamento de marketing dessas editoras, precisamos entender a “opção” e como a indústria de HQs se posiciona (quadrinhos adultos, lembra?).

E é ai que mora o erro das alternativas “adultas” que as grandes editoras oferecem, em trazer para dentro do seu universo intermináveis releituras e reinterpretações, ou jogando personagens clássicos em situações de violência e erotização, que em muitas vezes, tem em seu único impacto a descaracterização.

Crítica válida tanto para Vertigo quanto para a MAX, quem se lembra dos primórdios da Marvel MAX e títulos como Cage, Black Widow: Pale Little Spider e US War Machine? Os leitores ainda estavam presos aos mesmos personagens, ao mesmo universo e até em obras autorais (como Transmetropolitan, Kick-Ass e Sandman), onde maneirismos criativos de roteiristas e artistas “consagrados” se repetem sucessivamente.

Então, tendo em vista esta situação – e tantas outras! – eu te pergunto leitor, o que há de alternativo nisto tudo?

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Comentários

  • Pinguim  On 22/09/2010 at 20:38

    Pode crê, lia turma da mônica

  • agrt  On 23/09/2010 at 1:36

    Particularmente só considero “alternativa” obras autofinanciadas pelos autores, vendidas de mão-em-mão ou distribuidas gratuitamente pela internet, em que não tenha nenhum tipo de censura exterior ao conteúdo e forma. Ninguém dizendo que tem que ser intelectual demais, menos violento e blá blá. Sei que não é exatamente disso que trata o texto, mas isso é o “alternativo” mais radicalizado e utópico, mas que ainda estimo muito, mesmo que raro, embora a internet tenha expandido essas questões.

    • synthzoid  On 23/09/2010 at 16:04

      Não é do “alternativo” radical e utópico que estamos falando, e sim do posicionamento da HQ como “produto”, se ela é alternativa, então, ela é alternativa em relação a que opção? Qual é o diferencial dela perante outras HQs?

      E se esse diferencial é o “adulto”, então, que maturidade é esta em relação ao status quo criativo da indústria de HQs? Violência e sexualidade – cujo, pelo contrário, eu não tiro o mérito fun factor inerente em ambas – é terreno comum, elas existem fora do ramo “alternativo/adulto”.

      E alem da narrativa/exploitation, onde uma HQ alternativa pode surgir, apresentando outros metodos de diagramação, arte, diálogo?

      A história se aprofunda cada vez mais!

  • Alessio Esteves  On 23/09/2010 at 18:57

    Hum… A HQ tem que começar a explorar seu próprio método narrativo. A houve aquele boom com a invasão britânica nos anos 80, mas de lá pra cá pouca coisa realmente inovou.

    Alternativo nesse caso seriam histórias que levam a HQ a outro patamarm ou saiam da mesmice, não o #EPICFAIL que foi “Cachalote”, mas coisas como “Fracasso de Público”, “Asteirous Polyp” ou “Jimmy Corrigan”, até “Scott Pilgrim” está dentro disso, mesmo com o hype em cima da obra.

    No momento me faltam exemplos em mangá e europeus…

  • Ericson  On 06/10/2010 at 20:02

    Eu considero Vertigo alternativo. Só quem gosta muito de quadrinhos conhece personagens desse selo, não é popular como um Homem Aranha ou um X-men da vida, que todo mundo conhece.

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