Crônica de Uma Morte Anunciada

O expediente finalmente acaba. Calor insuportável, ainda mais para quem tem que trabalhar de roupa social. Pelo menos tem um lugar para sentar no ônibus. E ainda é um dos meus favoritos, daqueles logo atrás do banco em cima da roda, onde você fica escondido do mundo. Portanto tiro da mochila meu “Mago: A Ascensão” e me aprofundo nos estudos da campanha que estou mestrando.

Eis então que começa a tocar pagode.

A princípio pensei que o motorista tivesse ligado o maldito rádio e neste caso só me restaria praticar minha abstração ao máximo. Mas noto um filho da puta com o celular ouvindo o maldito som no talo. Levanto e me digo a ele, tentando parecer calmo e educado:

– Você pode abaixar o som, por favor?

O sujeito me encara por alguns segundos. Estamos medindo forças. Quem desviar o olhar primeiro define as ações daqui em diante. O sujeito não dá sinal de que vai ceder e aponto para o adesivo acima dele:

– Tá vendo este adesivo aqui?

Ele responde sem tirar os olhos de mim:

– Isso sempre teve aí e ninguém nunca reclamou.

– Mas estou no meu direito de reclamar.  – a resposta sai na lata. – Ainda que só pedi pra você abaixar, porque o certo mesmo era desligar isso aí.

Ele abaixa o volume, mas continua me encarando. Então diz:

– Tô te reconhecendo… Cê já reclamou comigo disso uma vez…

– E toda vez que você estiver ouvindo som alto e eu estiver no busão, vou reclamar. – nem espero ele acabar de falar e começo a voltar ao meu lugar.

– Marquei sua cara, maluco! Marquei sua cara. Cê não me conhece , não sabe com quem tá falando…

– Cê também não. Tamo na mesma.

E volto à minha leitura. Menos de um minuto depois o babaca desliga o som e alguém sentado no banco ao lado puxa papo com ele. Os dois falavam alto. A princípio achei que era por causa do barulho do ônibus, mas levanto o olho rapidamente e noto que depois de cada frase eles olham de relance para mim. Então percebo que na verdade a conversa era uma espécie de “alerta” sobre meu comportamento. Devido ao barulho do ônibus não consegui ouvir tudo, mas reproduzo trechos aqui.

“Cara acha que só porque está mais bem vestido pode falar como quiser com a gente.”

“Folga com quem não conhece. Não sabe de onde eu vim, quem eu conheço, o que posso fazer.”

“Depois acontece alguma coisa, vão chorar que era pai de família, que era pessoa de bem. Mas sabem que não ficava quieto?”

“E esses caras são burros. Pegam o mesmo busão todo dia, se alguém quiser fazer algo com ele, é fácil. Depois acontece algo e não sabe porque.”

E ouvi essa ladainha ridícula por quase meia hora. Antes eu tivesse apanhado e pronto. Ia ser mais rápido. Desde que comecei a trabalhar em periferia uma coisa que me irrita muito é que muita gente é metida a malandro porque conhece algum bandido da área. Aí passa a folgar com todo mundo e pagar de bandido porque fuma um baseado e conhece os traficantes da região. Acham que vão dar um telefonema ou fazer um pedido e os caras vão cair matando ou que se folgarem com alguém e apanharem os caras vão se vingar como o fossem o Espectro.

Vão se foder.

Primeiro que já apanhei nessa vida o suficiente pra saber que quando o cara vai bater ele fala duas palavras e vai pra cima, não fica de mimimi eterno não. Ficar falando e falando e falando é coisa de cuzão que quer pagar de bandido e desculpem, a gente aprende a diferença.

Se fosse assim eu seria intocável, já que conheço usuários, traficantes, policiais, políticos, padres, pastores, carteiros, deuses, demônios…

Citando um exemplo prático, na antiga unidade do meu trampo tinha aquela típica molecada que fuma maconha e acha que são os traficantes da região. Eles começaram causar comigo e o resto da equipe. Nos ameaçavam, ficavam jogando pedras no lugar, coisas do tipo. E aí nossa reação foi muito bem calculada. Chamamos a polícia duas vezes pra dar um coça neles e com isso a vigilância no local aumentou nos dias seguintes.

O problema é que tinha um ponto de venda de drogas lá perto. E o que os moleques não sabiam é que a gente TAMBÉM conhecia os “donos” do lugar. É questão de estratégia: você cola no boteco umas vezes, pega uma bebida, arruma um cigarro, coisas do tipo. Você não vira amigo de ninguém, mas ao menos impede assaltos e tal, já que você passa a ser da área. Aí um deles veio nos perguntar se tava acontecendo algo, já que a polícia tava indo lá direto. Explicamos a real: nossa segurança pessoal e patrimônio estavam ameaçados e recorremos ao recurso que temos. Ele disse que ia falar com a molecada e que se algo do tipo acontece de novo não era pra chamar a polícia e sim falar com ele direto. Sei lá o que ele fez com a molecada, mas viraram uns anjos. Essa é a prática, meus caros.

Voltando ao busão, os dois malas desceram no mesmo ponto e ficaram me encarando DEPOIS QUE O BUSÃO COMEÇOU A ANDAR. Qual era a idéia? Me deixar com medo? Dois caras ficam meia hora me ameaçando, não fazem nada e só me encaram quando descem da busão, e aquela cara de “fica esperto’” e tal. Mandei um beijinho para os dois e voltei pra minha leitura.

Portanto se eu aparecer morto ou for agredido em algum ônibus na Avenida Sapopemba, é culpa desse dois…

Anúncios
Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

Comentários

  • Fera  On 15/09/2010 at 1:24

    Ainda bem que o problema não é só comigo, e as situações não desenrolam somente no meu dia-a-dia. Mas, além de reclamar, sempre somos assombrados pelo funk/pagode/sertanejo em locais públicos graças ao bendito e amado crediário e suas malditas prestações que trazem o acesso a aparelhos sonoros e outras quinquilharias das Casas Bahia pra esses malditos cabeçudos. E malandragem por malandragem, sou mais enfiar o sopapo e depois dizer que eu avisei pra desligar…

    Ah! E pra não dizer que não fiz: First! kkkkk

    Ótimo texto, Aléssio… Como sempre!

    • Alessio Esteves  On 15/09/2010 at 12:32

      Sou contra essa visão de “maldito crediário e tal”, porque antes dos celulares haviam os diskman e antes haviam rádios de pilha e não tínhamos esse problema.

      Na verdade a questão é que o celular nos coletivos assume o mesmo papel de um carro nas ruas: símbolo de status. Assim como o playboy ouve funk e pagode no talo em seu carrão com um som caríssimo as 3 da matina, os manos e deruvados fazam o mesmo no transporte coletivo.

      O problema é que cada vez mais temos mais pessoas ouvindo som alto e cada vez mais temos mais pessoas irritadas com isso, tanto nos carros quanto nos coletivos. Isso é um barril de pólvora que vai explodir em breve.

      Pensem comigo: são pessoas estressadas voltando do trabalho em transporte público lotado contra pessoas que se acham no direito de ouvir um som alto só porque pagaram pro ele. E só vão ser tomadas medidas cabíveis quando alguma tragédia acontecer.

      Ontem mesmo no Twitter havia um grupo de cinéfilos nerds discutindo sobre a possibilidade de ir em grupos grandes ao cinema ara agir de maneira mais taxativa contra idiotas que falam ao celular durante os filmes.

      Se os donos de empresas e o Poder Público não fizerem nada, alguém vai fazer. Simples assim.

  • sandra  On 15/09/2010 at 1:32

    Sou a favor de criar uma lei que permite a todo usuário de ônibus incomodado com as musicas de celulares alheio, fazer o proprietário engolir o mesmo, sem engasgar.
    Agora que fiquei sem carro, e pego ônibus para ir e voltar do trabalho estou sofrendo, ah, pode acrescentar cigarros? Odeio ficar nos pontos com fumaça.

    E quanto as ameaças, quem quer faz, se el fosse o bonzão mesmo, nem abaixava o som, nem desligava o celular, ele é que está com medo de vc!

    Beijão

  • coringa138  On 15/09/2010 at 1:33

    Como eu moro no velho oeste, se eu abrir a boca para mandar algum filha da puta desligar o celular no ônibus, antes de eu terminar a frase já terei de 3 a 4 buracos de bala na testa.

    • Aline Cavalcante  On 15/09/2010 at 19:44

      Aqui no NOVO OESTE ninguém faz isso no ônibus. Mesmo porque, pra ouvir música, vc tem que relaxar e tudo o mais – como é que relaxa se 6 em cada dez usuários de ônibus FEDE QUE NEM CACHORRO MOLHADO? ¬¬
      Enfim, sento perto da janela e rezo pra ninguém sentar do meu lado.

  • synthzoid  On 15/09/2010 at 13:45

    Ninguém leva a sério essa lei porque, de fato, não existe educação cívica quanto o espaço público, ou até mesmo, num argumento de “direitão”, punição aplicável em relação há esse tipo de prática.

    Já pedi mais de uma vez, pra que o som fosse desligado, não apenas no ônibus, mas também em situações como trabalho, faculdade e, pasmem, cinema.

    O cara te ameaçar, por te ameaçar, por mim beleza, ele vir e tirar satisfação são outros quinhentos, isso aconteceu comigo apenas uma vez, e resultou em solada no peito do individuo e vaias por parte dos passageiros no ônibus.

    É essa mesma falta de educação em espaços públicos que nos torna medrosos perante um inconveniente destes, é apenas ou outro lado da moeda.

    Mas agora vale a reflexão, se falamos tanto de cultural jamming, noise, buzz e outros artifícios subversivos, onde nossas práticas diferem das desse público?

    Claro, é o ditado de onde começa a liberdade de um e termina a dos outros, mas e nós? Quando de forma até um tanto prepotente, nos achamos no direito de exercer tais artifícios.

    Fica ai a dúvida.

    • Alessio Esteves  On 15/09/2010 at 14:23

      Subversão seria levar um boombox pro bus, perguntar se a galera quer ouvir um som e montar uma “rádio busão” a partir disso e até mesmo se resignar a ficar com o rádio desligado caso o povo queira mesmo silêncio.

      Subversão seria tocar uma ópera/música clássica no seu celular no talo e ver a reação do povo. E desligar quando pedissem.

      Subversão seria abrir uma breja, acender um cigarro e começar a dançar funk quando um filho da mãe ouve isso alto e gritar: “Uhu! Começou a festa!”. E se preparar pra discussão/treta depois.

      Ouvir música do celular, um aparelho SEU com as músicas que VOCÊ escolheu só porque é o que VOCÊ quer não se enquadra em nenhuma atividade subversiva.

      Eu não vou sair por aí batendo nas pessoas como uma pregação para que elas saiam de suas “zonas de conforto”.

      E se um filho da puta me disser que está ouvindo som alto por causa disso, bom, vamos pra discussão.

      Só sei que aproveito meu tempo no ônibus pra lere dormir e som alto me atrapalha nestas duas atividades. Usem seus malditos fones de ouvido!

  • Mano do Busão  On 16/09/2010 at 2:44

    E ai mano… vc ainda tem a moral de postar essa historia… vou te pegar no busão amanha

  • Amigo do Mano do Busão  On 17/09/2010 at 10:49

    É isso ae prayboy, tá fudido. É nóixxxxx.

  • coringa138  On 17/09/2010 at 22:25

    HAHAHAHAHA, quem é o troll da vez?

  • Carla Cavalcante  On 22/10/2010 at 4:30

    Sou a favor de fazer uma campanha nos transportes públicos para o uso do fone de ouvido, mas como sei que isso não vai adiantar, pois os seres que escutam música alta são ignorantes e ineptos o negócio é mandar enfiar o celular com musica alta no ânus! E malandro que é malandro não demonstra absolutamente nada, quando quer arrebentar alguém vai e faz, não manda recado!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: