Campanhas políticas, meias-verdades e hipocrisia…

 

 candidato

Tempos de eleição… não consigo pensar em época pior aqui no nosso país. É aquela época em que se conhece o pior do ser humano, em que a suposta racionalidade superiora da espécie alcança um dos seus níveis mais baixos. Boa parte dos políticos consegue tornar as guerrinhas, impropérios e ataques a concorrência, uma disputa pior do que uma luta de hienas risonhas pelo último pedaço de carne estragada. Mas, vamos pular essa introdução que descreve coisas que todo o mundo já conhece, e ir direto ao assunto: o tema da candidatura de um certo senador aqui do Espírito Santo. Ele coloca como sua bandeira de campanha a frase “Todos contra a Pedofilia”, o que parece algo bem válido. Pedofilia é o crime da moda, parece que do nada todas as crianças estão ameaçadas por desajustados sexuais que se escondem nos lugares mais bizarros da nossa sociedade, só esperando o momento certo para externar os desejos escondidos. O conjunto aparenta ser amedrontador: bandos de pedófilos reunidos tramando seus crimes, tudo noticiado bombasticamente por uma mídia ávida por histórias explosivas. Algo precisa ser feito contra esses caras, contra essa Ordem Pedófila, ela é perigosa demais, pensa o povo. Daí surge a CPI da Pedofilia, capitaneada pelo Candidato, e que se mostra tão espalhafatosa quanto as investigações do caso do goleiro Bruno. A não ser que se combata a Pedofilia com uma dose de espetáculo circense iluminado por câmeras de TV, com manifestações gigantescas, com caminhadas com o KLB (dois dos seus integrantes estão se candidatando a deputado… bem providencial, não?! Além disso, o site de um deles tem um banner anti-pedofilia gigante), entre outras coisas – tipo viajar pra Índia, onde participaria de um fórum sobre o combate à pornografia infantil, e ficar quatro dias no Dubai com grana pública – que não são Inquérito, o significado do I de CPI.

Não estou questionando o funcionamento da CPI, ou mesmo a forma como o Candidato a está conduzindo, mas tão somente seu uso como instrumento eleitoral, o clássico “vestir a camisa” e mobilizar a sociedade. Nem mesmo tenho nada contra ele, é somente um exemplo de político que faz uso de algo que ele efetivamente não está resolvendo e pedir votos em cima disso. Poderia ser um evangélico (ele também é) que usa a igreja como palanque eleitoral, um médico que usa sua profissão para ganhar votos, ou qualquer coisa que o valha. No caso específico da CPI, se desse certo, tudo bem, mas após as eleições e da vantagem política da Pedofilia ter terminado, a questão vai voltar a obscuridade. Um exemplo? Em 1998, esse mesmo Candidato era presidente da CPI do Narcotráfico e usou-a como bandeira política; Todos contra o Narcotráfico, clamava. Bom, hoje a CPI acabou, ele ganhou a eleição e o Narcotráfico continua aí, tão ruim quanto antes da CPI. Pra essa nova CPI, o Candidato pediu aberturas de perfis do Orkut, instalação de softwares de mapeamento de pedófilos, prisão perpétua para criminosos sexuais… e no fim, as coisas continuarão as mesmas, estagnadas.

Um ponto interessante no combate a luta contra a pedofilia parece ter sido negligenciado: o acompanhamento psicológico das vítimas desse tipo de crime – além de focar o combate no lugar em que ele mais acontece, nas casas das famílias, perpetrados por parentes. Mês passado, fazendo um trabalho de Psicologia Social, visitei uma  instituição de tratamento dessas crianças. Elas são bem tratadas, têm brinquedos… mas não têm qualquer ajuda psicológica para superar o trauma que é o abuso sexual – que muitas delas nem sabem exatamente o que é. Não sei como são as outras, mas a diretora da Casa, disse ser a situação uma constante, ao menos aqui no estado. Uma menina, em especial, toda vez que conhecia alguém novo para ela, esfregava os braços na pessoa de modo claramente sexual, talvez por entender que o contato íntimo é a única forma de se relacionar com alguém. Cadê o combate a Pedofilia nessas horas? Fazer alarde pedindo para o Google liberar álbuns no Orkut é fácil, qualquer um faz… ajudar no acompanhamento das vítimas dessas pessoas (que são futuras pedófilas em potencial) não é; exige tempo, esforço e não dá capital político, muito menos vira tema de camisas de campanha. Criar conspirações com inimigos megalomaníacos e que vivem escondidos por aí também é simples, mas combater o verdadeiro problema (uma espécie de omertà que rola no seio familiar, e impede a denúncia desses crimes) quando ele não traz votos parece não ser.

Hipocrisia é um dos piores defeitos humanos, e meias-verdades às vezes conseguem ser piores que mentiras… e na época das campanhas políticas temos tudo isso reunido, inclusive o uso de crianças para mendigar votos.

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Comentários

  • Iury BAS  On 09/09/2010 at 16:44

    Tudo é combustível para se ganhar dinheiro. A mídia quer isso mesmo, escândalos cada vez piores e mais negativos. A sociedade por sua vez quer ver os réus serem presos provisoriamente, e antes mesmo de um julgamento definitivo, já tomam o caso como resolvido e pago. Todo escândalo que aparece passa semanas, até messes, na mais alta mídia, em toda a programação, repetindo, mostrando cada fio de cabelo que foi encontrado pela pericia. Mas depois que o fogo da noticia diminui, tudo volta a ser como antes e todos os casos antes brutais e de crueldade desumana, são esquecidos completamente.
    Você disse e eu reforço as suas palavras: Não adianta vestir camisa por absolutamente nada. Vestir camisa irá ajudar no máximo o dono da loja de camisetas. Eu, por exemplo, achava que esse candidato realmente estava ajudando a resolver a causa, mas agora vi que a coisa esta distante disso. Diferentemente de mim, infelizmente, muitos não estão nem ai, não irão pesquisar nem mesmo buscar mais informações, e vão simplesmente engolir o sapo. Ano de eleição no Brasil é como um medidor para saber o quanto o nosso povo é manipulável, iludível e ignorante. E o ponteiro desse medidor fica lá, aumentando cada vez mais durante 4 anos.

  • Alessio Esteves  On 15/09/2010 at 3:55

    É a pedofilia, é a quebra de sigilo fiscal e agora o lobby… Tudo sempre esteve aí, mas agora virou motivo de alarde, pelo menos até Outubro.

    E como você mesmo disse, propostas concretas para resolver tudo isso aí não existe, é tudo denuncismo pra ganhar votos, mas a adesão da mídia em denúncias pra lá de duvidosas dessa vez tá mais escrota que o normal.

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