Últimas vezes

Quando foi a última vez que você ouviu o canto dos pássaros pela manhã? Quando foi a última vez que saiu andando pelas ruas sem lugar definido para chegar? Quando foi a última vez que você se sentou num chão frio e sujo na escuridão densa da noite se perguntando “afinal de contas, quem sou? ou o que sou?” enquanto observava as estrelas? Quando foi a última vez que se divertiu como uma criança, com qualquer coisa, sem qualquer outra finalidade a não ser o simples prazer da diversão, em um dia que não fosse “final de semana”, folga ou férias?

Após essas perguntas, vêm outras: Quando foi a última vez que preencheu sua ficha do imposto de renda durante a madrugada, ficando sem dormir? Quando foi a última vez que forçosamente completou aquele trabalho escolar ou do serviço sem nenhuma vontade? Quando foi a última vez que suas obrigações sociais exauriram todas as suas energias ao ponto de fazê-lo esquecer que existe e que isso é mais do que obedecer as ordens externas? E principalmente, quando foi a última vez que você se sentiu criativo, inovador ou diferente, acreditou em si?

Durante a infância sonhamos com a vida adulta, que é pretensiosamente independente, livre, intensa e etc. Quando crescemos naturalizamos o pesadelo da corrente – uma espécie de servidão social aceita por convenção – sem percebermos, nos algemamos ingenuamente a um demônio que irá nos consumir até esquecermos quem um dia fomos ou sonhamos em ser.

Ao chegarmos à vida adulta chega um momento em que nos sentimos livres. Temos nossa casa, TV, computador, vídeo game, microondas… Doce ilusão! Existem vários órgãos que fiscalizam nossa “liberdade” em nome do bem maior que é a “segurança social”. Segurança de quem? Deles? Minha? Sua? Do meu dinheiro que também é deles? Não sei, só sei que para onde quer que possamos ir, somos rastreáveis, meros pontos de calor organizados em série em um globo. Como exemplos de órgãos fiscalizadores temos: alfândegas fronteiriças, guardas de trânsito, policias ferroviárias, guardas aéreos e etc. Mas se somos livres, porque precisamos ser serializados, organizados, direcionados e controlados?

A resposta é simples, a sociedade só funciona com membros ativos que aceitem as normas e realizem funções. Esses membros ativos trocam qualquer possibilidade de liberdade em nome de segurança, eles fazem qualquer coisa por isso. Criam um sistema baseado na ditadura da maioria, chamado democracia e chamam de justiça. Os seres se tornam escravos da justiça das gerações passadas e vivem sob a égide do chicote informacional. O que torna alguém escravo, não é tomar surra e trabalhar 23 horas por dia, mas ser tratado apenas como um objeto, um número, uma estatística de jornal. Assim fica fácil perceber que somos todos escravos, para o mundo não passamos de meros dados num folheto da ONU.

Por outro lado, num nível individual, não temos tempo, ou, nos fazem acreditar que nosso tempo deve ser utilizado para coisas “produtivas”. Estamos sempre com uma obrigação, tentando zelar por algum emprego, querendo pagar alguma dívida, doentes, e etc., mas… e a vida? A diversão? A criatividade? O eu? Nada disso importa, é superficialidade, o que importa é você trocar tempo e energia por dinheiro pra se entupir de porcaria ou guardar até morrer.

Vivemos em uma sociedade que pretende funcionar como uma fábrica, cada indivíduo tem de ser inteiramente produtivo, não há margem pra desperdício de matéria-prima, o que inclui força de trabalho. Por isso havia aquela exploração crua e predatória do século XIX! Mas houve o socialismo… que fortaleceu o demônio ao qual julgava expurgar com seus conhecimentos! Os anteriormente revolucionários que ameaçavam um motim contra a sociedade industrial hoje batem desesperadamente no opulento portão do capital, aclamando pela entrada.

Em suma o socialismo apenas tornou a sociedade superficialmente mais humanitária. A exploração que antes ocorria cruamente agora se veste de veludo e afaga ao contrário de dar tapas. Esse sistema aprendeu uma lição, para essa “fabrica social” funcionar por mais tempo os seus escravos não podem perceber as correntes que rasgam seus pulsos! “Somos quase livres ,isso é pior que a própria prisão!” (Engenheiros do Hawaii)

Ao contrário do trabalhador apenas sofrer, ele deve ter o seu momento de lazer. Não um lazer ingênuo e puramente lúdico, mas um lazer programado, controlado, limitado, e induzido para que aconteça em datas específicas nomeadas de férias, folgas e finais de semana. Esse lazer se torna produtivo dentro da sociedade industrial principalmente porque exclui potencialmente a possibilidade de uma revolta social em larga escala, troca-se a chicotada por um afago e se cria uma prisão de submissão e admiração em nome de um bem maior. Isso eles chamam de “humanismo”, qualquer um que crie um discurso oposto não passa de uma besta-fera dos infernos, um satanista querendo o fim dos tempos.

Agora voltemos às fases da vida humana… lembremos da juventude e da adolescência, são dois ritmos de vida em transição. Nesse momento ocorre o deslocamento da vida sem nenhuma responsabilidade para além do pacto claro e por isso rompível com os pais, para uma vida na qual pensamos ingenuinamente estarmos livres de qualquer submissão, sendo o rompimento com o pensamento familiar corrente geralmente considerado erradamente o símbolo da liberdade total. Quando atingimos plenamente a fase adulta, vemos que na verdade temos de nos submeter a uma instituição, chefe, normas de conduta, leis, família e a burocracia das sociedades industriais que sugam toda a nossa existência no dia-a-dia pra nos liberar nos finais de semana, como se fossemos cachorrinhos precisando passear. Ah! A burocracia, essa belezinha que trocou a faca e a pistola das vinganças por uma canetada que vai foder seu currículo no trabalho, na universidade, na lista do parquinho mesmo. Burocracia é a maior merda que já existiu para a liberdade e o principal valor de sociedades tecnocratas como as nossas.

Na nossa sociedade industrial (filha da razão iluminista, esta que se declarava exorcista das falsas-verdades teológicas do medievo, mas que no fundo criou um novo sistema de crenças tão limitados quanto o anterior, agora baseado no racionalismo pragmático) tudo deve funcionar como uma máquina. Os indivíduos são como as peças que fazem o sistema todo funcionar, mas que por isso também não podem se mover de lugar, a não ser que vá ser substituído pelo técnico de toda a engenhoca por outra peça mais eficiente. Os valores que tinham valor apenas dentro das fábricas, se expandiu como norma de funcionamento de toda a existência individual, desde os núcleos familiares, aos bairros e nações. Tudo se transformou numa espécie de fábrica global produtiva na qual qualquer ser deslocado desses processos considerados triviais é circunscrito como inútil, vagabundo e até mesmo louco; são assim criados meios de repressão a esses seres que se tornam rebeldes, enfermos e marginalizados. Geralmente essa repressão é sustentada e realizada a partir dos meios burocráticos. Um aluno que desafie intelectualmente um professor na universidade pode sofrer armação do mesmo para ser reprovado, ganhando assim um currículo sujo. Um gerente que se sinta incomodado com as atitudes de um funcionário o demite, tirando sua renda de subsistência e perdendo indicação. Essas e tantas outras coisas, só podem ocorrer dentro de uma sociedade extremamente burocrática, em que as decisões centrais passam por diversas pessoas que nada tem a ver com a convivência cotidiana.

Entretanto, o que é um louco se não alguém que vive deslocado dos valores sociais centrais de uma sociedade? O que ele é se não aquela peça do relógio que não realiza nenhuma função, mas que pode repentinamente travar todo o processo, cessando o crash-crash da máquina industrial global?

Achar que é possível viver sem a gana por dinheiro? Você é considerado um medroso, incompetente, fraco, retardado, louco, marginal depravado! Mas o que eu poderia retrucar contra tal eloqüência? Contra mentes prostituídas pela razão radicalizada e tirânica da vida social nada do que se diga fará sentido. Esses zumbis cujos alimentos são papeis com números impressos e currículos simplificaram o sentido de toda existência em: DINHEIRO ou TÍTULOS. Essa é a questão principal desses seres desprezíveis: Como poderei ganhar mais? Dinheiro. Como vou ser livre? Dinheiro. Como serei aceito? Dinheiro. Mas a que custo essa simplificação ocorre? A própria vida!

Nessas pessoas a capacidade criativa é obliterada pela mídia e se torna função secundária da existência. As únicas coisas que são dignas de atenção são as objetivas e produtivas (científicas)! Mas e aquele desejo repentino de simplesmente fazer nada? E a intensa busca pela singularidade? E a sensibilidade de parar por 15 minutos só pra sentir o vento, o frio, ou o sol no seu rosto? E o poder da criatividade? Da poesia? Da música? Da vida?

Nada disso é considerado útil, pois não é produtivo ou real… como se eles pudessem me arremessar o “real” tão solidamente quanto uma pedra! Os sonhos são reais! Você os sente tanto quanto este mundo “real” aqui! O real não é o imediato, o imediato é a organização cognitiva do caos ao nosso redor, o “real” é meu, não teu.

Vamos usar uma imagem pra exemplificar isso: Um contador trabalha um turno, descansa outro e se aperfeiçoa profissionalmente no terceiro, assim é a rotina de toda sua semana útil (viram? Os finais de semana que vocês cachorros são soltos pra urinar nos postes são inúteis! Há há há há ha1!21!3!q11@!!). No final de semana esse contador vai a um clube de dia tomar banho na piscina e beber cerveja; pela noite desenha belos quadros em seu quarto. Quando a semana “útil” retorna, ele esquece a sua liberdade e retorna às suas correntes, trocando os momentos de maior liberdade, prazer e criatividade por seu serviço mecânico e cotidiano, que pra nada mais serve na sua vida se não pra fazê-lo ganhar dinheiro e assim se tornar “digno” socialmente.

O processo sensitivo, criativo e diria até mesmo libertário da pintura praticado por esse contabilista é relegado a mera futilidade e inutilidade; e ele também acha isso! Pois não mostra a sua obra e nem mesmo comenta com ninguém sobre isso, ele mesmo se constrange por perder tempo com subjetividades.

O único momento de liberdade desse pobre contabilista é quando ele faz o que deseja sem pensar em nada como troca, sem nenhuma produção material no sentido financeiro. Ele pinta pelo prazer de pintar em si, no processo de pintura é onde por alguns momentos as correntes sociais são arrebentadas e ele tem capacidade de criar e destruir mundos.

Mas de que adianta tudo isso se não passa de uma pequena vertigem? Quando o domingo acaba ele é novamente posto na coleira e só vai voltar a passear no próximo final de semana.

Usei como exemplo um pintor, mas existem milhares de escritores, músicos e sei lá mais o quê, que nos poupam de suas mediocridades e genialidades por não divulgarem o que fazem! Façam porra! Mostrem! Saiam da merda de comodidade de vocês! Foda-se se acharam uma merda, você fez porque quis fazer, não quer queria ser um Picasso ou um Borges!

Mas e todos esses artistas na mídia? Bem, eles servem de fachada como “pessoas especiais, gênios que tem liberdade pra se drogarem em público e especialistas em seu estilo de música”, não é assim que os mais velhos enquadram os cantores de rock? Pois bem, na sociedade hierarquizada, certas pessoas são permitidas de delirar. Essa é sua função no sistema. É verdade que poucos escritores viram o que descrevem, mas é um ledo engano acreditar que eles não possam ter sentido “trepidantes chamas caírem pelos céus como serpentes anunciando o fim dos tempos”.

A presença desses artistas na sociedade serve tanto para serem usados como entretenimento massificante, quanto para dar uma falsa idéia de que a arte é valorizada. Tipo Ivetão sendo chamada de símbolo da música brasileira enquanto Arnaldo Baptista é só um tiozinho doidão que se drogou até ficar doido nos anos 70. Aparece meia dúzia de cantores, escritores e poetas aos quais é conferido o status de gênios inatingíveis, assim eles se tornam as vozes interiores da criatividade e os limites da criação dos outros.

Não quero por isso estar dizendo que não existam bons cantores, poetas ou escritores (na maioria das vezes são merdas zumbificantes, romance piegas, poesia de versinhos sorridentes e axé-music mesmo), mas sim que suas energias são desviadas do foco libertário (busca de si mesmo) e puramente criativo para a busca incessante de dinheiro e aceitação social; não é a toa que dificilmente as últimas obras de um grupo musical se tornam melhores do que a visceral primeira proposta.

A conclusão de tudo isso que foi comentado é a de que temos de morder nosso “dono” que nos afaga, sem remorso de estarmos com ingratidão! Não entendo como podemos ter pena de alguém que nos acorrenta simplesmente porque ele nos dá o que comer, porque nos deixa existir, mas nos prende dentro da nossa própria cabeça através da cultura. Mas antes disso – morder os caras – devemos buscar nossas próprias consciências individuais e atingir o poder de quebrar as amarras e visualizar as armadilhas que nos cercam! Armadilhas essas que são os pactos sociais aceitos mudamente e que tiranicamente nos dizem onde, como, com quem, e porque viver!

Cada um deveria achar o seu próprio sentido de existir e não apenas um sentido em comum ao qual todos devem morrer por um ideal superior, algo que só beneficia um sistema fascista e manipulador. O nome do inimigo? Não é capitalismo meus amigos, é Tecnocracia! Mas só? Não, o principal aliado dele é você e eu. Acorde! Não acredite exatamente no que digo! Filtre, pense, reflita, desperte, caia fora!

“Desconheço quem tenha razão
[…]Em defesa daquilo que o serve
Muito se fala,pouco se escreve[…]
Se eu falar sobre o que não entendem
Poucos escutam,muitos se ofendem
A verdade é que não há verdade
Tudo é porque não há não ser.”
(Música: Quem leva a sério o quê?; do Matanza)

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Comentários

  • Alessio Esteves  On 11/08/2010 at 5:06

    Texto denso, pesado, mas verdadeiro. Eu mordi a mão por muito tempo e agora estou numas de ver o lado Tecnocrata da coisa. No dia em que encher jogo tudo pro alto como já fiz antes…

    Ia criticar você ter elogiado o Arnaldo Antunes, mas te perdôo porque citou Matanza no final, hehehehe…

  • coringa138  On 11/08/2010 at 23:54

    Vivemos em uma bola de neve, um sistema que ficou quase impossível de se livrar. O povo consome cada vez mais e para isso também precisa trabalhar mais. Acaba deixando de lado seus principais objetivos para não ser passado pelos outros. Hoje, a grande maioria sofre o castigo que elas mesmo aplicam.

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