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Masturbação, um manifesto contrário aos imperativos das políticas sexuais.

Então, ontem, um pouco antes do fim de meu expediente, minha parceira me apresentou uma matéria da Gloss, conhecendo a moça, ela não apresentaria algo do tipo se ao menos não fosse alguma coisa realmente pertinente, o tema da matéria, sem mais, nem menos, era sobre masturbação.

Isto poderia passar em branco – e, por conseqüência, esta postagem também – se não fosse o aspecto esdrúxulo cuja matéria se propôs a ter.

Antes de tudo, vamos pautar uma coisa: masturbação é autoconhecimento, no passado, sociedades inteiras valorizavam o ato como um dos primeiros passos  para uma jornada existencial, estamos falando do reconhecimento de seu ser, do seu lúdico e da capacidade de suas extensões como um ser humano dotado de aparelho sensorial.

Alquimistas no passado diziam que o sêmen humano estava entre uma das substâncias mais poderosas para fins ritualísticos, o deus mesopotâmico Enki criou os mares após uma bela gozada, o ápice dos cultos a Baphomet se encontrava no orgasmo coletivo que seus membros alcançavam, da castração de Saturno, o sêmen entrou em contato com a água do mar e dali nasceu Afrodite, isso sem contar rituais Navajo, Saturnálias e etc.

Alguns estudos neurológicos, inclusive, apontam que as áreas estimuladas no cérebro em relação a uma oração – uma das “n” formas de meditação… – são as mesmas regiões atingidas durante um orgasmo. Então, espero ter ilustrado o quanto a masturbação é uma força poderosa, e o quanto ela é disputada por alguns setores interessados.

Talvez, o que me irrita em relação ao artigo da Gloss é uma espécie de conteúdo programático, não apenas artificial no ato (“deite na cama”, “compre KY” “repita o 5º passo”), tirando qualquer o apelo do ato e prejudicando uma pessoa que por várias razões, já é inibida, tal step-by-step é isento de qualquer busca pessoal.

Nada menos do que esperado por uma sociedade que vive de script, não?

E no passo que a questão da sexualidade se desenvolve, fica notável a presença de dois blocos disputando a identidade – e segurança – sexual de cada um de nós, uma dessas instituições, já velho conhecido de todos nós, se estende entre todo o monoteísmo ocidental, pastores fervorosos, os velhos babões do vaticano, espalhando o meme da frigidez e assexualidade através de gerações.

Poderíamos parar por ai, e dizer que sim, eles são os vilões da sexualidade no mundo ocidental, mas estaríamos certos disto? Bom, eu lhes digo um vasto e sonoro não. Até porque, o artigo da Gloss foi fundamentado em outra lógica.

Lembro-me de um circuito de palestras que ocorria nos meus tempos de faculdade, uma semana envolvendo apresentações de diversos profissionais na área da comunicação, uma das palestras, que mais me chamou a atenção, foi do diretor de marketing da Olla (sim, aquela marca de camisinhas).

O tema da apresentação daquele moço se baseava na pretensão de fomentar uma data comemorativa (como dia das mães ou crianças), a data, neste caso, seria o dia do sexo, pertinentemente localizado em 6 de setembro (6/9).

Houve uma campanha por trás disso, buzz na internet, peças televisionadas, a elaboração de happenings na rua, bom, como vocês podem ver, a idéia não vingou, e a questão é essa.

Que sexo e o aparato publicitário caminham juntos, oras, não é novidade alguma, mas vamos ser sinceros, a superexposição não está nos tornando apáticos a sexualidade publicitária? O aparato publicitário pauta, de um jeito ou outro, os normativos sexuais: cores do cabelo, tamanhos do corpo, roupas.

Isso, no âmago do seu cotidiano, condiz com seu ímpeto sexual? Talvez seja por isso que o 6 de setembro falhou, o artigo na Gloss pecou, a emancipação sexual não é um imperativo capitalista, pelo contrário, o imperativo capitalista – assim como o dogma – é uma forma de controle sexual, de aprisionamento do seu corpo e psique.

A emancipação – e exploração da sua libido – é uma iniciativa pessoal, individual, faz parte da construção do teu ser, e nada, absolutamente nada – nem igreja ou propaganda – neste mundo vai poder lhe ditar isso.

Existe aquela velha pichação: “revolução começa de dentro pra fora, de baixo pra cima…”

Construa a sua segurança, os limites do seu conforto, ignore, entregue sua mente a um estado egoístico e alienado, evitando os milhares de memes malignos que visam subverter sua sexualidade, explore – corpo e alma – independente de métodos, passo-a-passos ou dogmas, e no final das contas, fique bem, é só isso que eu peço.

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