Idade Média (trevas) , Renascimento (luz) e Hoje (neutro) – Blá, Blá, Blá

No senso comum temos a noção de que a Idade Média foi um período grotesco na história do ocidente, uma época em que o domínio da igreja sobre a vida cotidiana não permitia ao homem se entender como individuo criativo e liberto para realizar seus próprios atos. Como que uma antítese dessa época, o historiador francês Michelet criou o termo “renascimento” para se referir a saída da idade das trevas com o florescer de uma nova mentalidade pré-iluminista, que dá início à era moderna. Mas o que há de verdade em tudo isto?

Sem percebermos somos jogados em meio a intrigas intelectuais e políticas de séculos passados. A noção de Idade Média como uma época sombria para a humanidade é uma criação dos iluministas, principalmente de filósofos/enciclopedistas como Locke, Voltaire e Diderot, que consideravam sua filosofia “das luzes” como uma solução para as trevas medievais, dominada pela igreja ou uma metafísica retórica, e que o progresso das luzes iam ao infinito até solução de todos os problemas humanos ( ha ha ha, não eram tão lógicos e racionais assim, viram?). O confronto entre estes intelectuais e o clero tem um cunho mais político e de ocupação de espaços sociais, cheio de preconceitos contra metafísica ou assuntos que fogem ao puramente político e material, assim eles condenaram a Era do espírito cristão. Quando lembramos da Idade Média nos vêm em mente principalmente a Inquisição, mas esquecemos o fato de ela só existiu a partir do século XVI, então abarca muito pouco se comparado com o resto de todo o período que vem convencionalmente do século V até o século XVI.

A idade média realmente foi uma época de perseguição por parte da Igreja, mas não pode se resumir a isso, o clero não tinha aparatos tecnológico o suficiente para conter manifestações populares, crenças regionais, controlar a invasão árabe ou a criação de escolas filosóficas heréticas como a de Pádua.

Festa dos loucos, carnaval dos bizarros, como se pode ver em “O corcunda de Notre Dame”, aconteciam de fato uma vez por ano, às vezes até mais. Nessas festas era escolhido um rei entre os mendigos que era banhado na lama, esmurrado por uma multidão, arremessavam-se fezes no clero, as relações sexuais aconteciam explicitamente nas ruas ou dentro das igrejas, a bebida e a comida eram servidas gratuitamente, enfim, uma liberdade que destoa totalmente com o discurso de Idade Média repressiva que nos é tão constante. Esquecemos que para manter poder não se deve apenas restringir liberdades, a real dominação só se dá quando se concede alguns privilégios, criando laços de cumplicidade, que podem ser complementados com o temor causado por aparatos como a Inquisição ou a policia federal.

Já sobre o renascimento e a idade das luzes (iluminismo), se mantém um discurso coerente de razão e lucidez, que é falso. Newton era católico herético, uma mistura de teólogo e alquimista tentando descobrir a linguagem de Deus. O navegador Cristovão Colombo, usa um nome falso, não se conhece o verdadeiro e o nome auto-proclamado quer dizer “aquele que carrega Cristo para a terra além”, ou seja, para a América, terra descoberta pelo navegador.Giordano Bruno era panteísta, acreditava que o mundo surgiu de uma energia inicial, que foi criando níveis de energias inferiores: Deus, Anjos, humanos e Animais porém, Deus não é uma entidade e sim a energia primordial, que está presente – já que emanou – em todas as outras, sustentar sua fé, este é o real motivo dele ter sido queimado, não entendo até hoje muito bem como alguém tão místico como ele, que acreditava no poder dos astros para cura e para adivinhação do futuro, se tornou um símbolo dos Ateus. Já Copérnico acreditava que o sol estava no centro do universo não por estudos científicos, mas porque segundo sua teoria platônica das formas perfeitas, o universo só seria perfeito se o sol estivesse no centro, ou seja, o pai da astronomia moderna por sua crença na perfeição cósmica supôs hereticamente que o sol era o centro de tudo. Acho que já chega, essa é a verdade da “revolução cientifica” que veio sendo mascarada ao longo de tantos anos em nome da constituição de uma ciência laica e pragmática, mas que desde a década de 60 vem sendo enfrentada por intelectuais como Mircea Eliade, que diagnostica uma necessidade do afastamento do preconceito ateísta de que a realidade só pode ser conhecida com o afastamento da metafísica dos estudos considerados sérios.

A nossa história sempre esteve, está e vai estar marcada por subjetividade dos historiadores, o meu argumento neste texto não tem nada de neutro, ele é uma opção que escolhi como satisfatória, por isso passível total de erro, mas não é essa a grande questão. Reflitam sobre o que vocês sabem, será que sabem mesmo ou te disseram para legitimar algum discurso? Seja o religioso, ateísta, cientifico, laico ou democrático/fascista, a história acaba servindo para justificar coisas do presente. Muito cuidado, não dá pra se libertar totalmente, mas não caiam como patinhos rosas dentro do vaso sanitário.

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Comentários

  • synthzoid  On 08/09/2010 at 21:24

    O erro dos grandes céticos ateus como Dawkins está na noção de negar um principio básico do nosso corpo, como nosso cérebro é propenso há arbitrariedades/virtualidades, dentro do escopo da mente humana, tudo é possível.

    Esse alinhamento moral que se transformou o ceticismo ateu é tão nocivo ao desenvolvimento da humanidade quanto o fanatismo religioso, não apenas alienante, como funilador, permitindo que apenas uma faceta do nosso potencial cresça corretamente.

    O que nos acabou trazendo noções tecnocráticas, cultura corporativa, porem pouco, muito pouco desenvolvimento humanístico, basta colocar na balança, o quanto “nós” crescemos e o quanto “nós” desenvolvemos.

    Culpar uma época por sua ignorância, bem, eu questiono: qual época não foi ignorante? – e até, bom, por motivos ditos “racionais” – Culpar a força de uma instituição? Tá bom, o que a Igreja faz – censura – é o mesmo há um milênio, culpar ela é justificar outra atrocidade, que e é essa mentalidade mambembe que paira sob nós.

    Muito do racional é apenas o “conveniente” para alguns setores e grupos de interesse, mas esquece completamente nossa natureza e principal, o intuito de nossas inspirações.

  • Alessio Esteves  On 06/10/2010 at 15:29

    E como você vê o discurso de que nessa época o Oriente Médio era um poço de conhecimento?

    • Agostinho Rodrigues  On 06/10/2010 at 20:26

      formula a pergunta com mais detalhes? pq nem sei se entendi direito

      • Alessio Esteves  On 07/10/2010 at 13:38

        É dito que enquanto na Europa a Igreja Medieval “solapava” a cultura, no Oriente Médio (Arábia, Índia e afins) a ciência se desenvolvou de forma normal (ou espantosa, dependendo de quem diz).

        Inclusive o suposto tesouro dos Templários seria oriundo do conhecimendo adquirido nestas terras durante as Cruzadas…

  • Agostinho Rodrigues  On 14/10/2010 at 3:05

    Vou tentar explicar o que eu acho, até pq história é básicamente uma explicação do passado, por isso sem metodo específico! A igreja realmente tinha um forte desejo de normatizar os sujeitos de acordo com os preceitos do cristianismo romano, mas por mais que tentasse não conseguiria, como foi dito no post, ela carecia de aparatos genuínos de controle. Tanto é que quando as discordancias se tornaram exorbitantes houve a reforma protestante. A maior ameaça que a igreja medieval poderia fazer era negar o céu ao individuo (o que na época era como tomar um tiro no meio do peito) e queimar os mais insistentes, mas geralmente as queimas só ocorreram bizarramente na europa sententrional (nórdicos, o seidr na época medieval ainda tinha muito adeptos pelo norte da europa, muia bruxa….)
    Dizer que no Oriente Médio as coisas eram mais desenvolvidas é um absurdo! porque? primeiro pq se levarmos a palavra desenvolvimento ao mesmo termo de evolução, que significa puramente “mudança”, o Oriente Médio durante o medievo realmente entrou numa especie de ebulição, tudo isso graças a expansão árabe, fermentada pela guerra santa do Mamomé, que fez entrar em contato com a europa, extremo oriente e africa, mas o contato com esses povos tambem provocava mudanças nele, então eles tambem se desenvolviam. e segundo pq levar em conta que o desenvolvimento da ciência é um “progresso” extremamente benéfico estamos sendo anacronicos, pegando nosso presente e considerando como “polido”, “perfeito”, “finalizado” enquanto o passado não passaria de um mero esboço do que viriamos a ser, mas… infelizmente pra ferir o ego de nós que vivemos hoje cada tempo encerra sua existência em si mesmo, por mais que sejamos fundamentados no passado não somos o ultimo estágio de nada e muito menos somos superiores em valores a qualquer outra época
    alquimia, releitura e descoberta de textos da antiga grécia, e etc, esses são os méritos frequentemente dados aos árabes, mas na europa existiam muitos monastérios da “maledita” igreja católica que já fazia transcrição dos textos antigos, mesmo sem contato com os arabes, certamente eles trouxeram alguns beneficios que nos chegaram até hj e por isso são importantes, mas não estavam tão distantes dos europeus, já no século XVI era lugar comum uma crítica a estrutura universitaria medieval, o “filoso” entrava em conflito com o “escolar”, o filosofo era um sabio de reconhecido conhecimento pela população, enquanto o escolar não passava de donos de catedras universitarias. o tal “filosofo” seria o mago, o astrologo, o médico: pessoas que querem interferir no mundo natural! além de que era popular o hermetismo de Hermes Trimegisto, vou citar alguns MAGOS medievais que não devem muito a uma especie de “biologia” mágica ou magica natural que viria a se desmistificar depois se tornando ciência:

    Marsílio Ficino – “Campeão do platonismo numa altura em que a autoridade de Aristoteles estava em crise, mas respeitando Aristoteles como respeitava todos os grandes pensadores classicos, incluindo Epicuro; defensor da raiz unitária das religiões numa prisca theologia; convencido do significado religioso da tradição platonica a ponde de ler Plotino na igreja dos Angioli, com grande escandalo geral dos Camaldulenses, Ficino causou grande pertubação pela firmeza que defendeu que o filosofo é o mago na medida em que se ocupa das ciências da natureza e age no plano natural, indo contraa tese já condenada da . Ficino é de uma extrema clareza ao resgatar dentro de certos limites tambem a astrologia enquanto estudo e utilização das forças naturais que existem nos corpos celestes”, acho que dá pra ver que por aqui as coisas não eram “estereis” como se imagina na Idade média, havia movimento, debates, prisões certamente, mas tambem acrescentavasse conhecimento!

    Petrarca- um filoso medieval que se negou a dar aula em uma universidade! ao modo da filosofia antiga acreditava que o homem devia buscar livremente a verdade, deveria opor filosofos e escolas até achar a verdade, enquanto isso nas universidades reinava um aristotelismo cristão divulgado por Santo Agostinho, ele não negava aristoteles, mas demonstrava um desejo de conhecer outros e de colocar todos lado a lado em um debate pela verdade. em plena idade média um cara metendo pal na filosofia cristã e não foi queimado? estranho, não? um antidogmatico bradando contra o dogmatismo e que nem por isso foi morto, a verdade é que a igreja medieval não era tão intolerante como se imagina, ela queria ser, mas não tinha meios de punir eficazmente até a instauração da inquisição no século XVI

    Pico de la Mirandola – mago medieval que considerava que a função do filosofo era se aproveitar das forças da natureza para obter novos resultados (uma alquimia da natureza, não muito distante da transmutação oriental de materiais em ouro), mas rejeita a magia nocromantica! embora incentive a astrologia matemática, tambem hermetico, como costume dos hereticos da época, foi um dos grandes influenciadores do pensamento livre que se tornaria popular principalmente no renascimento

    paro por aqui, pq se não me perco, mas acho que dá pra ter noção de que a Europa não estava muito atrás do Oriente Medio em fantasias, busca de conhecimento e reflexo no pensamento moderno, talvez lá tenha tido descobertas que para o moderno sejam comuns e que por isso ele olhe para o passado dando importancia, mas que na época mesmo talvez fosse até insignificante, ou seja, há um anacronismo ta dando valor a um passado por ser embrionario do que é o presente e ignorando todo o resto a sua volta, mas isso é apenas minha opinião…

  • fejrjkfjjjjjgjg  On 31/08/2011 at 14:15

    eun acho que deveria resulmir mais o texto pois esta uiti grande

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